Xadrez, cordel e história

Escola de Brasília desenvolve espetáculo teatral com alunos da rede básica onde eles são autores, atores e cenógrafos da peça que atravessa os milênios do passado do xadrez

Alice Melo

  • Chaturanga. É assim que se chamava o xadrez na Índia do século VI, local onde possivelmente nasceu o jogo de estratégia quase como o conhecemos hoje. No tabuleiro quadriculado, elefantes ocupavam os postos dos bispos e a vitória de um dos times podia render o triunfo de um império sobre o outro. A história milenar, que atravessa livros e centenas de anos, tem várias versões e a investigação dela, independente do caminho seguido, pode aumentar o interesse de jovens jogadores nos dias de hoje. Pelo menos é o que vem acontecendo em Brasília, com turmas do terceiro e quarto ano de alguns colégios da rede pública que funcionam em parceria com a Escola Parque 308 Sul.

    A iniciativa reúne teatro, música, artes, literatura e história – todos os elementos sendo integrados pelo xadrez. Por meio dela, cerca de 120 alunos se encontram semanalmente e elaboram com auxílio dos professores um espetáculo interdisciplinar, que está sendo apresentado neste fim de ano. “Com uma proposta de dar água na boca e visando alfabetizar culturalmente nossas crianças, educamos  por meio da educação patrimonial como eixo transversal, tendo o xadrez como principal tema”, conta a professora Glorinha Yung, coordenadora do projeto. “Estudamos a história do xadrez e integramos à proposta o teatro, a dança, a música, a literatura de cordel e as artes visuais. Os alunos produziram desde a literatura até as imagens da cenografia”.

    Com isso, os professores esperam desenvolver o lado artístico, mnemônico e musical das crianças que, por consequência, ainda se dedicam à prática do jogo de estratégia fora de classe.

    Alunos ensaiam espetáculo teatralO roteiro de "O cordel do xeque-mate", que terá a última apresentação no próximo dia 19 de novembro, segue o esquema da literatura de cordel. É uma peça cantada e a história de um sábio indiano que sugeriu que as guerras na região fossem substituídas por confrontos no tabuleiro é passada pelas palavras, cenários e movimentos de seus autores mirins. A representação caminha com o tempo e mostra um pouco das regras do jogo hoje.

    Modelo de ensino foi implatado em seis escolas

    O modelo da Escola Parque foi criado há 50 anos na cidade e conta com cinco instituições no Distrito Federal – que atendem a escolas públicas inseridas no perímetro do plano piloto de Brasília. No espaço, as crianças do primeiro ao nono ano recebem aulas interdisciplinares, extracurriculares, com o objetivo de desenvolver o lado criativo e artístico dos alunos – além de educação física. As disciplinas regulares, como Matemática, História, Geografia e Língua Portuguesa são cursadas normalmente no colégio de origem, nos outros quatro dias da semana. “Só existem seis escolas assim no Brasil. Uma em Salvador, a original, e cinco em Brasília. Mas o nosso sonho é que todas as 685 escolas públicas do Distrito Federal possam ser atendidas neste modelo, que é uma coisa muito bonita e enriquecedora”, opina Glorinha.

    A professora sugere ainda que o tipo de atividade interdisciplinar de cunho artístico e baseado na educação patrimonial utilizado na Escola Parque não se restringe apenas a este modelo de ensino, e pode ser utilizado em professores nas salas de todo o Brasil. A receita para o professor interessado é simples: usar e abusar da criatividade.

        

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