Versões de um conflito

Pesquisadores discutem novos campos de pesquisa para a Guerra do Paraguai. Segundo eles, o ensino no Brasil é, em diversas oportunidades, obsoleto quando se trata do conflito

Janine Justen

  • À esquerda, professor Ricardo Henrique Salles, da UniRio. À direita, professora Ana Beatriz Souza, do Colégio Pedro II. No centro, pesquisadora da RHBN, Nashla Dahás, como mediadora / Foto: Carolina Ferro Algumas das escolas do ensino fundamental e médio no Brasil ainda passam para seus alunos um conteúdo programático sobre a Guerra do Paraguai desatualizado. Segundo os historiadores Ana Beatriz Souza, professora do Colégio Pedro II, e Ricardo Henrique Salles, da UniRio, a visão de mundo em pauta em parte dos livros didáticos corresponde a uma versão historiográfica de viés anti-imperialista e ultrapassado, em que o Brasil teria entrado no conflito apenas para obedecer as ordens inglesas.

    “Essa corrente se origina no Paraguai por volta dos anos 20 e é reinterpretada por León Pomer na Argentina na década de 60, sendo incorporada por aqui na época da ditadura. Hoje em dia não há mais quem defenda essa ideia. Ela trazia um forte peso de crítica quase exclusivo às instituições militares envolvidas”, explica Salles, que acredita na recente relativização de uma “outra história”.

    Foi para dar voz a essas novas interpretações sobre o maior conflito da história da América do Sul que o Biblioteca Fazendo História (BFH) deste mês deu continuidade ao dossiê Guerra do Paraguai da última edição da RHBN. Para os debatedores, dar atenção ao período do pós-guerra é o grande trunfo das pesquisas atuais, que antes se prendiam muito ao combate em si. “Esse tema é quentíssimo e revela a grande crise do império”, pontua o professor da UniRio.

    Para Ana Beatriz, essas buscas abrem caminhos a campos alternativos de trabalho na historiografia. “Não são muito empíricos, não têm grandes fontes, mas inauguram um novo tipo de investigação documental”, comenta a professora do Pedro II. Mestranda pela Uerj, ela vive as duas realidades diariamente em sala de aula, como aluna e como docente, e aponta o distanciamento da academia como o principal problema. “As pesquisas mais recentes ainda não foram incorporadas aos livros didáticos, até porque algumas permanecem em andamento. Esta deve ser uma transformação constante, de atualização mesmo. Daqui a dez anos muita coisa pode ter mudado”, argumenta.

    As recentes descobertasFoto: Carolina Ferro

    De acordo com os pesquisadores, foi quando os soldados e oficiais começaram a regressar ao Brasil que as contradições mais emblemáticas do império vieram à tona. Seria no fim do século XIX que questões relativas à esfera pública, como a escravidão, o reconhecimento social e a formação das forças armadas, ganharam corpo e visibilidade através da imprensa, tornando-se causas de discussão e comoção nacionais.

    “O recrutamento para a guerra gerou um impacto simbólico na sociedade brasileira de então. Servir na Marinha ou no Exército era destino de bandidos e pessoas de baixo prestígio social, era uma atividade marginalizada. Mas com o conflito, foi necessário empregar táticas de motivação que desconstruíssem esse estigma para angariar um bom número de soldados”, defende Ricardo Henrique Salles, que indica a profunda contradição de um império ainda escravista travando uma guerra de grandes proporções na qual a participação de escravos, ex-escravos e mulatos foi essencial.

    As cartas escritas por conde d’Eu em campo de batalha foram apontadas como grandes revelações para o estudo do conflito. Descobertas recentemente, junto a um diário também do oficial [Veja mais na reportagem da edição deste mês da RHBN], podem trazer novos fatos e transformar as bases de pesquisa e análise da Guerra do Paraguai.

    “Qual foi o real papel do conde d’Eu no conflito? Quais seus interesses e expectativas como comandante das tropas? Esse é um olhar de fora, um olhar europeu nunca antes analisado de forma crítica”, destaca Ana Beatriz. Henrique Salles completa: “Os personagens dessa guerra ainda são muito escassos, pouco se sabe sobre os participantes enquanto indivíduos. Por isso esses diários ganham status de tamanha importância.”

    Outra época, problemas parecidos

    Foto: Carolina FerroApesar das novidades, quanto às velhas práticas do poder público da época sabe-se que existem muitas semelhanças se comparadas às atuais. Segundo a professora do Pedro II, os heróis se restringiram aos figurões e pouco caso se fez da grande massa, que participou efetivamente do conflito, sendo, em boa parte, responsável pelo desfecho positivo do império luso-brasileiro.

    “Quando se deu por encerrada a guerra, o conde d’Eu foi ovacionado como o grande herói, mas ninguém da Marinha obteve reconhecimento. Estátuas foram montadas, operetas e missas rezadas. Mas as promessas não cumpridas junto aos altos gastos do dinheiro público provocaram uma enorme decadência do apoio popular”, explica Ana Beatriz.

    Terras prometidas aos voluntários da pátria não foram entregues, tampouco as pensões foram pagas corretamente. A imprensa cobrou medidas cabíveis ao governo e acabou por estimular a indignação daqueles que deveriam estar sendo beneficiados. Os eventos comemorativos da vitória brasileira na guerra do Paraguai foram um fiasco, assim como as investidas e manifestações pelos direitos dos participantes. E para a professora, essa é uma estrutura ainda presente em nossa cena política, que mesmo depois de anos a fio, ainda se mantém bem viva.

    Singularidades à parte, a realidade do pós-Guerra do Paraguai vem tomando contornos similares aos preparativos para os megaeventos esportivos nos dias de hoje. Obras suntuosas, festivais de música e melhorias superficiais das regiões de acesso às cidades sede e alto fluxo de pessoas (lê-se turistas), como a Zona Portuária do Rio de Janeiro e os principais aeroportos do país, são feitas gastando bilhões de reais arrecadados em impostos, mas inúmeras são as remoções de residências arbitrárias, o descaso com a saúde pública e a educação. E apesar das denúncias na mídia e do descontento popular, a conduta dos governantes parece não estar sendo abalada.

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