Um povo desconhecido

Mesmo depois de 500 anos de colonização, pouco se sabe sobre o passado de nossos primeiros habitantes. Partindo da condição de escravos, os índios brasileiros começam a se assumir como senhores de sua trajetória

Janine Justen

  • BFH em debate sobre índios / Foto: Agnes Alencar.

    Para dar continuidade ao dossiê da última edição da Revista de História, o Biblioteca Fazendo História (BFH) deste mês discutiu o tema “Índios: de escravos a senhores de sua própria trajetória”. As pesquisadoras Eunícia Fernandes, professora da PUC-Rio, e Elisa Garcia, da Universidade Federal Fluminense, foram convidadas para aprofundar o debate, que aconteceu na quinta passada (25), no auditório Machado de Assis da Biblioteca Nacional.

    “Qual é a nossa definição de índio? Ele precisa ser identificado imediatamente por um cocar ou uma pintura?”, provoca Garcia. Mesmo quase dizimados por guerras, trabalhos forçados e doenças, como a varíola e a gripe, para as quais não tinham nenhuma resistência, os sobreviventes indígenas seguem lutando pela preservação de seus costumes e crenças, seja em reservas demarcadas pelo poder público ou como índios urbanos, em meio às grandes cidades.

    Naquele tempo, a partir de 1530, o povoamento da terra natal se tornou necessário para assegurá-la e a solução encontrada pela coroa portuguesa foram as Capitanias Hereditárias. Neste processo, a mão de obra escrava indígena foi fundamental. “É aí que Portugal autoriza o recrutamento e a venda de escravos indígenas. É o momento de institucionalização da escravidão no Brasil”, conta Elisa Garcia.Professora Elisa Garcia, da UFF / Foto: Agnes Alencar.

    Para a pesquisadora, existiam claras diferenças judiciais entre os índios (a chamada “legislação indianista”), que se dividiam em aliados e inimigos. Alguns índios que se convertiam à doutrina cristã eram libertos da escravidão, assim como aqueles que ajudavam as tropas portuguesas em combates militares ou na ocupação do território. “Bons exemplos são os povos aldeados, Arariboia, que recebeu o Hábito de Cavaleiro da Ordem de Cristo, e Felipe Camarão, que lutou ao lado dos colonos para expulsar os holandeses das terras brasileiras em 1645”, ilustra Elisa Garcia. Os rebeldes, que atacavam os lusitanos ou se recusavam a seguir as normas do cristianismo, sofreram com o que as historiadoras chamam de “guerra justa”, artífice de legitimação para o aprisionamento desses índios inimigos.

    Outra forma de recrutamento de mão de obra indígena escrava era o resgate. “Com medo dos rituais antropofágicos, típicos das tribos da costa, como os tapuias, alguns índios preferiam ser trocados por mercadoria em Lisboa. Era a prática do resgate”, comenta Garcia. Para os índios, os rituais seriam uma forma eficaz de se apropriar da força e da astúcia dos povos capturados. “A negação à catequese também era um estímulo de envio de escravos importante. Aqueles que não aceitassem a palavra pregada pelas missões jesuíticas eram considerados sem almas”, completa a professora.

    Eterno desconhecido

    Esse assunto, aliás, ainda é um tabu, de acordo com as especialistas. Ambas concordam que a escravidão indígena é pouco explorada nas escolas e mesmo no ensino superior. Eunícia Fernandes relata que, apesar de toda a miscigenação que valorizamos na cultura brasileira, o índio continua sendo o nosso “eterno desconhecido”. Apesar disso, ela conta que há um avanço. “Hoje em dia, assistimos a uma reafirmação da identidade indígena no Brasil, o que é ótimo”.

    A definição cultural do que é ser índio surge no século XIX, caracterizando, portanto, uma linha de pensamento bastante conservadora. De acordo com Fernandes, existem atualmente 680 povos indígenas no país. Deles, 43 não vivem exclusivamente em território nacional, mas permeiam fronteiras e avançam em direção a outros Estados, como nas regiões amazônica e do centro-oeste. “Seríamos capazes de conhecer todos eles? Aprendemos na escola um raciocínio histórico de evolução do tempo (período colonial, Tratado de Tordesilhas, Capitanias, açúcar), mas não sabemos de onde eles vieram e para onde foram”, questiona a professora.

    Professora Eunícia Fernandes, da PUC-Rio / Foto: Agnes Alencar.A professora chama a atenção, também, para a visão taxativa, e um tanto quanto preconceituosa, que se tem como senso comum, de que os índios constituíam comunidades fixas e dispunham de poucos recursos para manejar a terra. “Os povos tupinambás dos séculos XVI e XVII, por exemplo, gozavam de uma enorme mobilidade espacial, além de transitarem dentro de seus próprios patamares sociais em caso de festas ou lutas”, defende. Para ela, os tupinambás eram seminômades e apresentavam uma dinâmica singular de movimentação. “Eles saíam sempre do interior para o litoral e possuíam níveis de organização internos, ultrapassando essa mediação física restrita”, acrescenta Fernandes.

    É impossível entender a história do Brasil sem perceber as relações dos índios com os portugueses e a sua escravidão”, ressalta Elisa Garcia. E vai além: “Foi apenas a partir da mão de obra indígena que os colonos acumularam capital suficiente para adquirir escravos africanos, já bem cotados no mercado internacional”. Nesse sentido, as duas debatedoras partilham de uma mesma estratégia: formação de uma consciência histórica não só entre os pares, mas na sociedade em geral. “Não fiquemos enclausurados, falando somente uns com os outros. Precisamos expandir os caminhos de investigação e transmissão de conhecimento crítico”, conclui a pesquisadora Eunícia Fernandes.

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