Um dia a casa cai

Instituto de Arqueologia Brasileira tem até o dia 31 para desocupar a Casa do Capão do Bispo, no Rio de Janeiro. A construção é do século XVIII e precisa ser restaurada com urgência

Alice Melo

  • Casa do Capão do BispoA novela que envolve a luta pela permanência do Instituto de Arqueologia Brasileira (IAB) em sua sede anexa, a Casa do Capão do Bispo, em Del Castilho, no Rio de Janeiro, parece estar no fim. Em meados do ano passado, a Secretaria Estadual de Cultura decidiu encerrar o acordo de permanência do IAB na construção do século XVIII, e deu como prazo final para a saída dos funcionários - e das mais de 180 mil peças arqueológicas - o dia 31 de janeiro.

    O Capão do Bispo, patrimônio tombado pelo Iphan e que abriga parte do Instituto há 37 anos, não vai bem das pernas: precisa de reformas urgentes para não desmoronar. De um lado, o IAB quer ficar, mas não tem dinheiro para bancar as obras; de outro, a secretaria não tem interesse em investir num imóvel ocupado por uma organização privada. Correndo por fora, há o Iphan, que exige a restauração da casa desde 2006, assim como a preservação dos bens do museu, ambos sob sua proteção.

    “Estamos lutando para ficar. Aqui é um centro importante de pesquisas, trabalhamos junto à comunidade e ainda temos espaço para expor as relíquias do acervo”, declara Paulo Seda, vice-presidente do IAB. “Mas temos a sensação de não ter mais como levar adiante essa luta. A secretaria não cede e não conseguimos apoio externo”, completa.

    Secretaria quer construir um centro cultural

    A sede oficial do IAB não fica no Capão do Bispo, mas sim no município de Belford Roxo, na Baixada Fluminense. Segundo a Secretaria de Cultura, os seis prédios construídos na cidade teriam capacidade e condições ideais para armazenar todo o acervo do IAB, embora a direção do instituto alegue que seria praticamente inviável manter um museu e um centro de pesquisa ali. Os motivos são óbvios: Belford Roxo fica longe do centro turístico do Rio de Janeiro, na contramão tanto para visitantes quanto para funcionários e estudantes que frequentam o espaço em Del Castilho.

    A secretaria também afirma não ter mais condições de permitir a estada prolongada da organização privada nas dependências públicas. Por meio da assessoria de imprensa, o órgão afirma que quer instalar no Capão do Bispo um centro cultural, voltado para a comunidade, já que “nestes 37 anos o IAB nunca teve a posse formal do imóvel e nunca pagou pelo uso ou deu qualquer contrapartida ao Estado. E, sobretudo, nunca fez a devida manutenção da casa”.

    O fato é que, em meio ao embate de palavras, a construção colonial está em perigo. Com a saída dos arqueólogos do prédio, que tem uma área de entorno de 6 mil m², o governo pretende dar início à reforma. De acordo com a secretaria, uma licitação para restauração já está a caminho e, em breve, será decidido o destino da casa.

    O passado e o presente

    Apesar de ter sido construído apenas no século XVIII, o Capão do Bispo integra uma das propriedades rurais mais antigas do estado do Rio – é o que sobrou de uma Sesmaria doada por Estácio de Sá a jesuítas, por volta de 1560. A casa foi erguida sobre uma colina e serviu de residência para o Bispo D. José de Castelo Branco até sua morte, em 1805, quando foi entregue nas mãos de herdeiros.

    Em 1975, já tombada pelo Iphan por sua importância artística e sob guarda do governo do estado, a casa virou um braço do IAB, o qual criou ali um centro de estudos em arqueologia, que hoje desenvolve tanto pesquisas na área quanto projetos de educação patrimonial voltados para a comunidade. Ali funciona também um museu, que possui mais de 180 mil peças arqueológicas, como cerâmicas e ferramentas indígenas pré-colombianas.

     

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