'Palestras' driblaram a guerra

Colônias italianas criaram clubes que estão hoje entre os mais populares do Brasil

Pedro Paulo Malta

  • A harmonia entre brasileiros e italianos não foi sempre bem-vista, ao menos pelos olhos dos governantes. Em 1942, não interessava ao Estado Novo que clubes e associações ligadas aos países do Eixo mantivessem nomes e símbolos que remetessem a nossos inimigos na Segunda Guerra Mundial. No caso dos imigrantes italianos, a proibição atingiu uma série de clubes pelo Brasil, em especial dois chamados Palestra Itália (um em São Paulo, outro em Belo Horizonte), cuja popularidade crescia com as vitórias nos campos de futebol. O paulistano virou Sociedade Esportiva Palmeiras e o mineiro, Cruzeiro Esporte Clube, em duas alusões claras ao Brasil. Ainda assim, o professor André Capraro, coordenador do Centro de Memória do Departamento de Educação Física da UFPR, afirma que a mudança de nome não chegou a fazer grandes estragos. “Na época da Segunda Guerra, muitas dessas características de clube étnico já haviam se atenuado, pois, naquele momento, a maioria dos associados e torcedores era descendente de segunda ou terceira geração de italianos, mais identificada com o Brasil do que com a Itália”, relata Capraro. “Curiosamente, o fato de o clube ter uma origem vinculada aos imigrantes de um país inimigo era mais usado pelos rivais como forma de ofensa.”

    Nas primeiras décadas do século XX, contudo, os palestras paulista (fundado em 1914) e mineiro (1921) foram, além de times de futebol, pontos de encontro dos imigrantes italianos em suas cidades, cada um estabelecendo suas relações com os brasiliani, como explica André Capraro: “Em comum, tinham como associados imigrantes italianos de classe média. Mas também existiam diferenças sutis em relação à popularidade dos dois clubes já nos primeiros anos de existência: a colônia italiana era a maior de São Paulo, muitos haviam rapidamente migrado da zona rural para a cidade e o clube contava com o apoio – mesmo que informal – do conglomerado industrial de Francesco Matarazzo (1854-1937); já no caso do mineiro, embora fundado pela comunidade italiana recém estabelecida em Belo Horizonte, o clube rapidamente abriu suas portas para a população, inclusive trabalhadores braçais como pedreiros, carroceiros, marceneiros, etc.”

     

    *Pedro Paulo Malta é jornalista.

     

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