Teatro da verdade

Enquanto a Comissão da Verdade não é sancionada, peça itinerante discute os desaparecidos políticos e até colhe depoimentos de vítimas da ditadura

Felipe Sáles

  • Foto: DivulgaçãoEnquanto a Comissão da Verdade não entra em cena, uma companhia de teatro roda o país e ajuda a levantar informações de desaparecidos políticos. A peça “Filha da Anistia”, que discute os efeitos dos anos de chumbo nas posturas políticas, sociais e culturais dos brasileiros, interage com o projeto da “Caravana da Anistia”, do Ministério da Justiça, que visita várias regiões do Brasil em busca de informações e pedidos de anistia. Graças à peça, vários depoimentos de vítimas da ditadura estão sendo registrados em vídeo e num livro, que será disponibilizado à Comissão de Anistia do governo federal.

    As apresentações são sempre gratuitas e, ao final, acontecem debates entre atores, a plateia e alguns convidados da região visitada. Assim, é comum pessoas que viveram o período aproveitarem para contar suas histórias – e os jovens, então, aproveitam uma aula de História. Tudo devidamente documentado em vídeo para um documentário que será produzido no final do projeto e será disponibilizado à Comissão de Anistia. No fim da peça, há ainda um livro à disposição do público para relatar suas opiniões e histórias sobre a época.

    “Reconheço que é impossível se ter uma idéia real do que foram os anos da ditadura no Brasil sem tê-los vivido, mas todo o resgate da nossa história é sempre muito válido. Estudei a ditadura na escola como um simples capítulo de nossa História, sem menções à tortura, presos políticos, pessoas que desapareceram para sempre”, disse o estudante Rodrigo Sampaio, 22 anos.

    Para a atriz Carolina Rodrigues, uma das idealizadores do espetáculo, o encontro de gerações é justamente um dos momentos mais produtivos.

    “Nesses debates acontece o que acreditamos ser a mais importante contribuição deste projeto para a sociedade: o encontro de gerações. Aqueles que viveram o período, e que são pressionados a manter o silêncio até hoje, tomam a palavra e dividem conosco suas vivências e opiniões. Os mais jovens, que em sua maioria dizem desconhecer completamente o que aconteceu, percebem o quanto essa história diz respeito a todos nós”, contou.

     

    Foto: DivulgaçãoPúblico se engaja

    Segundo os atores, o público não vai ao teatro engajado, mas acaba se mobilizando com a história – e, claro, aprendendo mais sobre o período.

    “Contamos uma história que a maioria do país preferiu esquecer, achando que só dizia respeito aos diretamente envolvidos. Mas, depois, o público sai com a sensação de que não é bem assim. É impossível construir o futuro sem entender o presente. É impossível entender o presente sem conhecer o passado”, reflete Carolina.

    A peça já se apresentou em espaços variados – desde com mais de 1 mil lugares até pequenas arenas. A partir das apresentações, a divulgação na base do boca-a-boca faz o resto. Em Fortaleza, por exemplo, o palco foi no Centro Cultural Dragão do Mar, que possui um teatro com 260 lugares. A primeira sessão contou com pouco mais de 80 espectadores – até atingir a lotação nos fins de semana e, no último dia, receber 315 pessoas apinhadas pelos corredores.

     

    A peça

    A história envolve uma jovem que vai em busca do pai que nunca conhecera e acaba descobrindo um passado de mentiras e omissões, forjado durante os anos de chumbo no Brasil. Clara é uma advogada que procura refazer sua história e esclarecer seu passado, sem imaginar que a sua vida seria radicalmente transformada nessa trajetória. Todas as suas certezas caem por terra diante das descobertas sobre seu passado familiar e sobre um período da história de nosso país que poucos conhecem - e que a maioria prefere esquecer. Usando como metáfora os desencontros de uma família despedaçada pela ditadura, "Filha da Anistia" provoca no espectador reflexões sobre as consequências do período da ditadura na formação dos jovens de hoje.

     A aula de História inclui, ainda, material de apoio como pôster, livros e folhetos que, segundo Carolina, “mais do que meramente informativo, questiona os paradigmas instaurados, instiga a reflexão e o posicionamento crítico frente à realidade”.

    A turma começou as apresentações em São Paulo no ano passado e, desde então, já passou por Fortaleza, Recife, Porto Alegre e Rio de Janeiro. A próxima parada agora é em dezembro em Brasília. As datas e horários ainda serão confirmados. Além de Carolina, Alexandre Piccini também atua e é o co-autor da peça.

     

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