'Somos a rede social'

Dos computadores às ruas, e vice-versa: após manifestações organizadas na internet, jovens voltam ao ambiente virtual para exigir transformações

Revista de História

  • Foto: Gabriela Nogueira Cunha Nesta segunda-feira (17), mais de 250 mil pessoas participaram dos atos simultâneos contra o aumento das passagens de ônibus que aconteceram em todo o Brasil – 12 capitais e ao menos 16 outras cidades aderiram ao movimento. Só no Rio de Janeiro, estima-se que 100 mil estiveram na passeata que fechou a Avenida Rio Branco de ponta a ponta. Na Cinelândia, os manifestantes cariocas comemoravam a notícia – que brotava dos celulares com tecnologia 3G – de que, em Brasília, o Congresso Nacional havia sido “tomado”. Era a mobilização pela internet se fazendo presente, na era do ciberativismo.

    Uma vez encerradas as manifestações do dia, é hora de voltarem todos para a internet. Nós resolvemos fazer um apanhado inicial do que conseguimos encontrar de mais interessante nas redes sociais. Ficou  difícil controlar a quantidade de informações no feed. A palavra de ordem dos manifestantes é “filmem tudo, fotografem tudo, registrem tudo”. E assim se tem escrito a história. 

    [Se você também participou de alguma manifestação, acrescente sua experiência em nossa área de comentários.]

    “Ontem as lágrimas que caíram ao ver as notícias eram de orgulho, de alegria e de saudades. Uma manifestação tão grande que eu só tinha presenciado igual em Madrid agora eu via pela tela do celular e dessa vez era na minha cidade com meus amigos e familiares entre os cem mil que lotaram o Centro. Chegar no trabalho e escutar elogios e não comentários vazios relacionados com samba, cachaça e Maracanã me fez pensar que o brasileiro não só acordou como também despertou o mundo em relação ao que é o Brasil de verdade. Eu não estava lá para gritar, não levantei cartazes, não pintei minha cara, não cantei o hino nacional. A cada foto que chegava na redação meu peito se apertava, mas o alivio logo chegava ao saber que no protesto ninguém estava sozinho e que nas ruas não eram apenas estudantes, senhores, mães, pais ou filhos, era uma nação unida. Parafraseando um dos mil posts que vi, a verdade é que do lado de cá esta difícil de dormir quando meu país acaba de acordar.” – Maria de La Gala, jornalista, de Madrid, via Facebook.

    “Muito para pensar. Muito para digerir. Mas, por enquanto, só posso dizer que nem nas minhas melhores expectativas poderia esperar uma noite como a de hoje em SP. As maiores avenidas absolutamente tomadas. Poder constrangido. Mídia passando recibo diante de uma multidão orgânica, multi-ideológica, inesperada, em paz absoluta. Amanhã a gente conversa, pensa, lida com o day after. Por enquanto, só posso dizer que estou comovido demais por ter visto o que vi. Feliz de fazer parte disso. Animado e cheio de propósito para o que virá em seguida.” - Bruno Torturra é jornalista do Mídia NINJA e tem feito comentários diários sobre os protestos em São Paulo pelo Facebook.  

    “Aliás, é disso que se trata o movimento, ao menos por enquanto: o direito à cidade. Um transporte público de qualidade e acessível é uma das pontas desse debate, que é para lá de complexo em um lugar com mais de 15 milhões de moradores. Habitação de qualidade, prioridade de recursos para os setores populares, saneamento básico, distribuição de renda, gestão participativa e democrática são outros dos muitos temas que podem pautar os protestos daqui para frente.” - Maíra Kubík Mano, de São Paulo, comenta os protestos em seu blog.

    “Em nossa sociedade, somos ensinados desde que nascemos a não contar com o poder público pra nada, não temos saúde, educação, nem transporte, mesmo pagando impostos abusivos. Esse sentimento de criança órfã e vira-lata que todos nós brasileiros sentimos, faz com nutramos uma espécie de ódio reprimido contra a pátria-mãe. Assim nasce o ‘jeitinho brasileiro’, como uma espécie de válvula de escape para esse recalque, queremos nos dar bem a qualquer custo, pois estamos sozinhos e precisamos provar pra mãe severa que somos capazes. Quando conseguirmos enxergar além da muralha de hipocrisia que nos cerca, veremos que os nossos próprios erros, falhas e medos mais íntimos são usados como engrenagens de um sistema que serve apenas a si mesmo, e o pior, é usado como arma pelos corruptos para nos controlar. Precisamos de uma revolução interna para nos livrar desses parasitas, temos que ter a consciência, uma mudança não só é possível, como também necessária juntos somos fortes!” - João Vinicios Saint Gallen, estudante de psicologia, comenta no Facebook sobre sua participação na manifestação do Rio.

    “The new Brazilian identity in one picture #mudabrasil pic.twitter.com/DtL5NeGnon” - Pierre Levy via Twitter.

    “Muitos não sabem. Muitos, muitos mesmo não viram. Mas no meio da passeata linda que foi a do Rio, tinha uma galera grande querendo dividir o movimento. Pessoas botando manifestante contra manifestante, esquecendo que a parte mais bonita dos nossos protestos é a espontaneidade e a união de todos, diferentes como somos, em luta pelo nosso direito à cidade. Enquanto uns gritavam "Sem partido" outros gritavam "Sem divisão". De maneira autoritária, eu mesma tive que ouvir vários "Fora daqui" de uma fervorosa apartidária. Esse momento triste não desqualifica a noite linda que desfilou na Rio Branco. Mas minha cabeça não para de repetir: sem divisão. E sem moralismo, por favor.” – Natasha Ísis, jornalista do Ibase, sobre o “racha” na passeata dos 100 mil no Rio de Janeiro, via Facebook

    “Não consigo ver as cenas ‘radicais’ na Alerj e olhar para aqueles rostos encapuzados que hostilizavam os policiais como vândalos, como os que estão errados. Só consigo vê-los como um momento de catarse, pois finalmente chegou o dia, o inacreditável dia em que o povo cercou a polícia, e não o contrário. O povo encurralou a polícia. Finalmente, em uma noite da história do Rio, o povo meteu medo no Estado. Fisicamente. E isso é lindo.” - Bárbara Araújo Machado, mestranda em História Social pela UFF, comenta o episódio na Alerj, via Facebook.

    “Me entristece profundamente ver o que estão fazendo com esse movimento. As pessoas que gritamos contra estão tentando gritar ao nosso lado! Não é um movimento contra a Dilma, nem contra a inflação, ou seja, não são as críticas que o PSDB direciona ao governo que estão em pauta! Parem de tentar despolitizar tudo isso com discurso economicista! Os partidos construíram essa luta política! Vocês que gritam contra eles é que construíram essa situação! Votando no PSDB, PMDB e todas essas atrocidades. Estou ao lado dos partidos que estão lá lutando, dando a cara a tapa, não só nessa passeata, mas em diversas outras.” – Carlos Coelho, doutorando em filosofia da PUC-Rio, sobre a polêmica envolvendo partidários e apartidários que acontece no Rio e em São Paulo, via Facebook

    “Eu estou aqui para defender quem vai à rua sem nenhuma orientação política. Quero defender quem vai à rua porque não aguenta mais e não aguenta mais também não saber por onde devemos ir. Essa é uma das principais críticas que tenho ouvido e feito aos protestos – não vou tomar ‘mimimi’ de vandalismo como crítica, já está claro que o vandalismo é uma reação minúscula em um movimento muito maior. A falta de posicionamento e esclarecimento político existe. Sim, a grande maioria não entende muito disso que chamam de A Política. Sim, os jovens não acreditam em partidos, compram a ideia de que o que fode o país é a corrupção e nessa descrença correm o risco de perderem a própria força que os conduz, correm o risco de se tornarem um movimento de pura euforia e pouca política. Sim, muitos estão mais animados pela vontade de fazer história, de repetir os movimentos políticos dos anos 60, do que de fazer história. Eu me identifico com tudo isso em diferentes níveis.” – Taís Bravo é estudante de filosofia e escreveu sobre o movimento em seu blog.

    “Um grupo punk com bandeiras pretas tentou queimar uma bandeira do Brasil e foi duramente condenado. Tomaram a bandeira, apagaram o fogo, a dobraram e cantaram "Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor". Houve discussão e eles foram expulsos da multidão: seguiram em direção à Alerj. Pouco depois o grupo do PSTU também marchou para lá e algum tempo depois resolvi ir também. Estava bonito no Municipal, estava bonito na Câmara dos Vereadores e estava bonito na Biblioteca Nacional. Crianças, bandeiras do Brasil, hinos, gente sorrindo e flores. Quis ver a Alerj bonita também. Chegando lá, havia gente nas escadarias cantando, mas um grupo de uns 20, talvez, subiu até as portas e começou a tentar arrombá-las. Eu gritava ‘Chegamos aqui sem violência, não precisamos de violência agora!’. Um rapaz me convidou a ‘tomar a Alerj de volta’. Subimos a escadaria e sozinhos expulsamos o grupo.” - Rômulo Collopy descreve o que vivenciou na Alerj em texto bastante compartilhado no Facebook.

    “O protesto é apartidário e contra o oportunismo de legendas. Mas antes de você ir às ruas, a galera do Anonymous, Passe Livre, punks, PSTU, PSOL, e mesmo quem não pertence a nenhum desses grupos ou outros (eu), tem apanhado desde quando a Folha, Globo e Jabor (ou até você) dizia que éramos um pequeno bando de vândalos. Mesmo discordando com algumas posturas desses grupos, nossa luta não é contra eles. A autocrítica é importante e aos poucos as reivindicações nos eventos têm sido levadas em consideração e os excessos ponderados” - Raphael Primos, do Rio de Janeiro, comenta via Facebook sobre a polêmica envolvendo a presença de militantes partidários nos protestos.

    “Agora sim a mídia começa a dar o tom correto, 'Um pequeno grupo' de ‘manifestantes’ ateou fogo, 'Um pequeno grupo' saqueou, 'Um pequeno grupo' destruiu, e é assim que tem que ser, pois assim, é que é o certo de divulgar notícias, sendo imparcial.” - Anonymous Rio.

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