Salve, choro

23 de abril é dia de festa no Rio de Janeiro. Além de homenagear São Jorge, os cariocas comemoram o aniversário de Pixinguinha e do gênero que ele consagrou: o choro

Lara Monsores

  • “Se você tem 15 volumes para falar de toda a música popular brasileira, fique certo de que é pouco. Mas se dispõe apenas do espaço de uma palavra, nem tudo está perdido; escreva depressa: Pixinguinha.” A famosa definição do crítico e historiador Ary Vasconcellos é suficiente para resumir a importância do gênio do choro, Alfredo da Rocha Viana Filho, eternizado pela alcunha de Pixinguinha – derivação de Pinzindim, apelido de infância dado pela mãe. A relevância para a música popular brasileira deste instrumentista, maestro e compositor é tamanha que, na data de seu nascimento – 23 de abril, o dia de São Jorge Guerreiro –, comemora-se também o Dia Nacional do Choro.

    “Comemorar é celebrar essa música viva. É a valorização de um estilo musical que há alguns anos superou o estigma de ‘música antiga’ e que hoje promove um verdadeiro encontro de gerações nas rodas”, conta Pedro Aragão, um dos coordenadores da Escola Portátil de Música do Rio de Janeiro e diretor fundador do Instituto Jacob do Bandolim.

     

    De alma carioca 

    O gênero que hoje inspira jovens dentro e fora de rodas de samba tem origem nos idos de 1860. A história do chorinho se confunde com o próprio passado da terra natal, sobretudo após a chegada da Família Real Portuguesa ao Brasil. Henrique Cazes, cavaquinistas e professor da Escola de Música da UFRJ, diz que durante o século XIX o Rio viveu uma experiência de convivência entre diferentes extratos sociais - com toda a multiplicidade de valores, práticas e costumes. “Foi um período muito rico, que se refletiu especialmente na literatura e do qual o Choro é um dos produtos mais valorosos. Se a Corte Portuguesa não tivesse vindo para cá não haveria choro, pois ele nasceu da interação de uma cultura instrumental europeia com as práticas rítmicas trazidas da África pelos escravos”, lembra ele, que também é autor de “Choro, do quintal ao Municipal” (1998), livro que relembra os mais de 150 anos do estilo da MPB.    

    Tela de Portinari, A qualidade artística de seus primeiros intérpretes e compositores foi o que permitiu que o choro se transformasse numa das principais formas de expressão da então recente camada média urbana do Rio: de um lado, Joaquim Callado levava o gênero aos salões de concerto e festas familiares; de outro, Ernesto Nazareth embalava a noite em casas de piano e salas de cinema. Isso sem falar das apresentações de Chiquinha Gonzaga nos teatros e de Anacleto de Medeirosnos palcos.

    Elemento vital para os chorões, fosse na casa de Tia Ciata ou nos bares da Lapa e Cidade Nova, as rodas embaladas ao som de flauta, cavaquinho e violão foram a rede social pela qual o Choro se espalhou pela cidade. E por que tamanha identificação com a cultura do Rio? Na opinião de Cazes, há nessas rodas até os dias de hoje uma camaradagem temperada com humor, que é a própria alma carioca. Dessa forma, em pouco tempo o novo jeito de tocar de forma leve e improvisada ganhou importância nacional, e o choro conquistou uma cultura musical de porte, capaz de reciclar novas informações e de agregá-las ao seu contexto.

     

    Pixinguinha revelado

    Em Brasília, outra cidade que mantém a tradição do choro, Pixinguinha também está sendo homenageado. Até o dia 6 de maio, o Centro Cultural Banco do Brasil abriga uma grande exposição sobre a vida do músico, que reúne instrumentos, vídeos, objetos pessoais e fotografias do compositor. O CCBB fica no SCES Trecho 2, lote 22. Mais informações no site do centro cultural.

Compartilhe

Comentários (2)