Rio, 20 de junho de 2013

Novamente, historiadores e jornalistas da revista dão seus depoimentos sobre a noite em que 300 mil pessoas foram às ruas em protesto em uma das principais vias da cidade

Revista de História

  • Jovens correm na Avenida Presidente Vargas na noite de quinta-feira / Foto: Lucas Landau - https://www.facebook.com/lucaslandauComo fizemos com o protesto de 17 de junho de 2013, juntamos alguns depoimentos de historiadores e jornalistas da Revista de História sobre o protesto na noite de 20 de junho, em que segundo estimativas, 300 mil pessoas teriam tomado a Avenida Presidente Vargas, uma das mais importantes do Rio de Janeiro, onde fica a prefeitura da cidade e a Central do Brasil, e via de ligação para outras áreas da cidade, como a Zona Norte. Se da primeira vez, o sentimento geral era de esperança, agora, parece que houve uma mudança no enfoque, uma certa perda da inocência.

     

    Carolina Ferro - Historiadora

    A noite de 20 de junho já ficou pra história, uma história triste do Brasil. Acostumada com o carnaval carioca, que junta dois milhões de indivíduos na Avenida Rio Branco, no Bola Preta, fiquei impressionada com a quantidade de pessoas que caminhou pela Presidente Vargas. Era tanta gente, que a manifestação ficou mais dispersa. Menos gritos e mais caminhada. Um carro elétrico acompanhou nossa jornada e tentava puxar algumas frases, mas não tinham muito efeito.

    Eram muitos partidos, muitos pensamentos distintos e muitas reivindicações. Não dava para agradar todo mundo. Caminhamos até quase a prefeitura quando alguém avisou que estava tendo confronto mais à frente. Nós continuamos avançando e vimos bombas sendo jogadas numa população desprotegida. Muita gente resolveu voltar, mas nós ainda continuamos até chegar um ponto impraticável. O gás estava muito perto. A polícia estava muito próxima e ela não estava de brincadeira. O objetivo era de amedrontar o povo. É isso que a história nos mostra. O que os políticos e a força do Estado fazem quando o povo toma as ruas.

    Leia mais relatos:

    O espetáculo da Falácia, por Roberta Souza

    Estado policial, por Ronaldo Pelli

    Repressão e autoritarismo, por Nathália Fernandes

    Voltei para a Central do Brasil, onde consegui um metrô para voltar pra casa. Tentei avisar minha família o tempo inteiro que eu estava bem, mas a rede do meu celular não funcionava. Ao chegar, minha mãe (como boa católica) deu “Graças a Deus”. A Rede Globo de televisão parou sua programação para dar conta das notícias das manifestações e as do Rio não eram nada atraentes.

    Fui logo para as redes sociais ver o que acontecia. Como estavam meus amigos. Como estavam inúmeras pessoas inocentes que vi caminhando com alegria na marcha. Muitos sofriam para voltar para suas casas. Muitos amigos, sempre pacíficos, tiveram que fugir de armas letais e da pressão de uma polícia incapacitada e fortemente armada que ainda não conseguiu compreender que ela também é cidadã. As regiões do centro, Largo do Machado, Flamengo foram as mais atingidas. A faculdade de Direito e o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ abrigavam jovens que não tinham “armas na mão”, mas estavam sendo perseguidos pela polícia. Hospitais e outros locais foram depredados pela própria polícia que também sofre com os problemas de má gestão política. E os políticos? Ah, esses fingem que não é com eles. Não levam a sério as manifestações e acham que tudo vai passar e acabar em pizza, como sempre acaba tudo no Brasil.

     

    Gabriela Nogueira Cunha - estudante de jornalismo

    PM atira na Avenida Presidente Vargas / Foto: Lucas Landau - https://www.facebook.com/lucaslandauAinda não consegui assimilar tudo o que eu presenciei hoje [ontem] nas ruas. Só queria dizer que estou bem, se alguém ainda estiver se perguntando. Recebi inúmeras mensagens falando do quanto as imagens pareciam feias na TV. "É cenário de guerra", berravam os celulares. Bom, arrisco dizer que o cenário, na verdade, remete aos tais anos de chumbo. Hoje [ontem], eu fugi do Bope em "pessoa", vi um caveirão passar varado por uma [Avenida] Rio Branco apinhada de gente, sem nenhum pudor. Fui encurralada pelas bombas de "efeito moral" da PM que fechavam o cerco nas ruas do Centro. Tudo que eu e meus amigos queríamos era sair dali, o mais rápido possível. Pegamos um atalho para a 1º de Março e chegando lá vimos a polícia se aproximando, atirando, claro. Se as balas eram de borracha? Não ficamos para conferir. Chegando em casa, descubro que inúmeros manifestantes estavam presos dentro dos prédios do IFCS e da Faculdade Nacional de Direito, cercados pela mesma PM que nos perseguiu pelas ruas com suas armas "não letais". Essa é a cara de uma polícia terrorista à serviço de um governo fascista. Essa é a cara de um Rio de Janeiro corrompido até o talo. Isso é o que acontece na periferia, nas favelas, há anos. A única diferença é que agora eles sorriem ao serem filmados.

     

     

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