Reparação polêmica

Ex-combatentes do Araguaia vão recorrer à OEA por indenização às torturas sofridas no período. Oficiais foram submetidos a violência similar à aplicada aos guerrilheiros envolvidos na luta armada

Aline Salgado

  • Militares de Ipameri-GO e Cristalina-GOAçoitados com cipó, presos em pau de arara, enterrados vivos em formigueiro. A série de ações que lembram as torturas sofridas pelos militantes de esquerda durante a ditadura civil-militar fazia parte do programa de treinamento na selva dos oficiais do Exército, para combater no Araguaia [saiba mais sobre a guerrilha aqui]. Eram milhares de jovens com idade entre 18 e 22 anos que, na maioria, foram recrutados pelo serviço militar obrigatório ou à força em cidades do país.

    Hoje, mais de 600 sobreviventes - todos com sequelas, como cegueira, surdez, perda dos testículos, traumas psicológicos e alcoolismo - brigam na Justiça por reparação. Assim como as famílias dos militantes políticos, eles querem indenizações do Estado pelos danos sofridos.

    Mas a Justiça brasileira não considera a causa como legítima. Em meio às fracassadas investidas no Juizado Especial Federal e no Tribunal Regional Federal de Brasília, os militares reformados prometem acionar agora o tribunal da OEA (Organização dos Estados Americanos).

    "O governo militar e essa maldita guerrilha acabaram com as nossas vidas e sonhos. Eu queria ser advogado. Agora sou um atormentado pelo passado de torturas no qual fui obrigado a participar. E, ainda hoje, somos ameaçados", conta  Raimundo de Melo, presidente da Associação dos Ex-combatentes do Araguaia.

    Hoje, aos 58 anos, o ex-cabo que serviu no Araguaia aos 19 auxilia nas expedições do GTA (Grupo de Trabalho do Araguaia) na localização e busca dos corpos dos desaparecidos políticos. Assim como os demais colegas de baixa patente, Raimundo de Melo tinha como atribuições vigiar os presos políticos antes e depois das sessões de tortura.

    “O lema na selva era único: 'Vê, ouvir e calar'. A ordem era atirar em tudo que se mexesse. Como atirar numa pessoa naquele estado? Mesmo assim, enquanto o comandante não via, demos água para a Lia (Telma Regina Corrêa) e a deixamos dormir um pouco. O medo era de que fôssemos os próximos a parar na tortura", relembra Raimundo.

    Militares Agentes do SNIPara ele e os colegas que atuaram de janeiro a novembro de 1974 na guerrilha, o treinamento e todo o trabalho na selva foram marcados por violência extrema. Por isso, teriam direito à indenização, já que esse tipo de crime não prescreve.

    "Tortura não é treinamento. Queremos reparação. Nos usaram e jogaram fora. Não nos queriam no exército e não conseguimos emprego depois porque éramos vistos com desconfiança. Será que nós, militares, também não temos, pais, mães, filhos e netos. Só o outro lado foi vítima? Só a tortura em nós foi prescrita?", desabafa. 

    Para quem perdeu marido, pai e irmão, aceitar que os militares foram vítimas e têm direito à reparação não é tarefa fácil. "Sinto muito que eles tenham sido obrigados a servirem ao exército. Mas eles estavam cumprindo o serviço militar e ganhando para isso. Sou terminantemente contra essa indenização A anistia foi feita para nós e não para os militares, mesmo sendo de baixa patente", avalia Victória Grabois, presidente do Grupo Tortura Nunca Mais.

    Já para Diva Santana, irmã de Dinaelza e cunhada de Vandick Reidner, mortos na guerrilha, cada lado deve lutar por suas causas: "Não existe uma jurisdição que ampare os militares, mesmo sendo de baixa patente. Já discutimos isso junto à OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). Falo para eles que, se acham que têm direito, que lutem por suas causas, porque estamos lutando pelos nossos desaparecidos”.

     

    Raimundo Melo foi da turma do 2º Bis de Belém-PA, enviada para Marabá-PA para combater na Guerrilha do Araguaia

     

    Essa reportagem integra o 'Especial Guerrilheiros'. Leia mais textos sobre o tema aqui.

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