Religião se discute, sim

No Biblioteca Fazendo História deste mês, Silvia Patuzzi e Eduardo Refkalefsky debateram, na última segunda-feira (10), o crescimento das ideias protestantes na Europa pós-Idade Média e no Brasil do século XX

Mauro de Bias

  • “Hoje nós estamos aqui para quebrar o ditado de que política, futebol e religião não se discutem.” Assim Silvia Patuzzi, professora da UFF, iniciou o Biblioteca Fazendo História deste mês, com o tema “Evangélicos no Brasil: das origens às Igrejas atuais”, realizado nesta segunda-feira (10), na Biblioteca Nacional. “Mas aqui só vamos falar sobre religião. Se der tempo a gente discute um pouco de política e futebol no final”, completou, bem-humorada, a pesquisadora que esteve ao lado de Eduardo Refkalefsky, da UFRJ.

    A primeira ideia que Patuzzi pôs em xeque foi a de que religião significa religare, palavra latina que quer dizer "religar", o que levaria, seguindo o raciocínio, à ideia de "religar o homem a Deus". “Isso é um equívoco. Essa não é a única nem é a primeira ideia de religião”, disse. Ela contou que a definição surgiu no século IV, por meio do teólogo Lucio Lactâncio, em discordância ao filósofo romano Cícero. Este acreditava que religião significava relegere, do latim, "reler".

    Patuzzi abordou ainda como a reforma luterana atraía fieis com certa facilidade em meio às sociedades europeias, especialmente entre os mais insatisfeitos com as imposições da Igreja Católica e sua interferência na vida pessoal. “‘Ora, se eu não preciso mais pagar impostos ao bispo e deixar de comer carne na sexta-feira, então sou luterana’”, exemplificou.

    “Ser luterano significa o sentimento de liberdade em relação às imposições políticas e jurisdicionais que sustentavam a Igreja. Isso garante uma ampla difusão das ideias”, contou Silvia. Além disso, a tradução da Bíblia para os idiomas correntes era fundamental para uma aproximação dos fiéis. Segundo ela, Martinho Lutero (1483-1546) era visto por alguns teólogos de sua época como um excepcional crítico agostiniano.

    Lutero propõe suas teses por não concordar com nenhuma das duas correntes dominantes no cristianismo de então. Uma delas, do cardeal Nicolau de Cusa (1401-1464), foi apresentada no livro A douta ignorância, em 1440, onde o religioso recorre à geometria como melhor forma de conexão entre o homem e Deus.

    Sendo uma ciência com inserção das formas no infinito, a geometria mostra, interpreta Nicolau, uma tendência do homem à concepção da infinitude, portanto, de um Deus infinito. A professora simplifica: “É como a teologia platônica. É da natureza de todos os cães ladrar. Assim como todo cão ladra, todo homem tem dentro de si o sentimento do infinito. É da natureza do homem conceber o infinito. É a prova de que somos criaturas divinas.”

    A teologia de De Cusa, com seu pensamento matemático e racional, era quase oposta à de São Francisco de Assis (1181-1226), onde Deus não podia ser tangido, mas contemplado através do total abandono. “Deus não é para ser explicado, é para ser sentido. São práticas místicas, onde você pode intuir o divino, aquilo te dá paz e tranquilidade. Mas para Lutero nada disso é satisfatório”, exemplificou Patuzzi.

     Lutero afirmava, disse a professora, que não adianta reflexão e meditação se logo o homem vai pecar de novo. Deus, portanto, devia ser compreendido atráves do que tem de espetacular: a glória e os milagres. E vai além: “Ele apresenta a Teologia da Cruz, reforçando que Deus se fez homem para ser compreendido. E quem o homem contempla na cruz? A si mesmo.”

    Do embrulho à TV
    Na época de Lutero, suas ideias eram difundidas por diversos meios. Um deles, muito comum em Veneza, era embrulhar peixe e castanhas com seus escritos. No Brasil do século XX, foram usadas principalmente duas formas de comunicação que garantiram o crescimento do protestantismo. A primeira foi a TV, com a possibilidade de um alcance amplo, e a segunda foi o boca a boca, que traz credibilidade para o discurso, segundo explicou Eduardo Refkalefsky, professor de Comunicação da UFRJ.

    “Existe uma estratégia midiática, especialmente para a TV. A internet não tem o mesmo poder porque tem interatividade, é mais anárquica, não é centralizada e industrial como o rádio e a TV, que são unidirecionais. Eu falo, você me escuta”, discorreu Refkalefsky. Já a evangelização boca a boca, segundo ele, faz o discurso ser mais fácil de acreditar. “‘A pessoa que está do lado é igual a mim. Então eu também posso viver assim’. As pessoas usam o próprio exemplo para evangelizar. E nossa cultura facilita essa estratrégia”, explicou.

    O pesquisador citou ainda a grande miscigenação no Brasil como o fator primordial para a construção de uma religiosidade igualmente misturada no país. “Aqui é o único lugar onde teve miscigenação em larga escala de três etnias. Isso tem ligação com uma religiosidade profundamente sincrética”, destacou o professor. Refkalefsky disse que não foi um processo somente de misturar elementos, mas de juntar teorias opostas. Assim surgiram, por exemplo, os cristãos que acreditam em reencarnação e os “católicos não praticantes”, que se batizam na Igreja Católica, mas transitam entre outras crenças e rituais religiosos.

    “Tem um panteão que não é nem africano nem brasileiro, é afrobrasileiro. Aí vêm até traços islâmicos. A principal divindade brasileira, Oxalá, é corruptela de Inshalá (que pode ser traduzido do árabe como “se Deus quiser”). Em Portugal, você tem um catolicismo menos reformado pelo Concílio de Trento. É mais medieval, com uma visão bastante franciscana do mundo, da natureza”, lembrou o professor. Essas culturas religiosas misturaram-se também às indígenas e surgiram figuras como profetas e rezadeiras.

    Surgiu da plateia uma pergunta sobre o que se chama hoje de “umbandaime”, que mistura práticas da umbanda e do Santo Daime. Refkalefsky respondeu que alguns críticos dizem que tal união vai contra as doutrinas de ambas as práticas religiosas. “Mas que doutrinas?”, questiona o professor, dado que elas também se construíram sobre outras aglutinações.

    “O brasileiro conseguiu inventar o evangélico sem denominação. Ele é praticante, mas não tem vínculo com ninguém, o que vai contra a comunicação das igrejas tradicionais. Às vezes ele faz até um trânsito religioso fora das igrejas evangélicas. Vai a um centro de mesa branca, tem hábitos esotéricos”, afirmou Refkalefsky. “Paulo Coelho, por exemplo, é um mago cristão. Para o cristianismo, é uma coisa contraditória, mas para o Brasil não”, disse.

    Na questão da comunicação, Silvia Patuzzi abordou como Martinho Lutero construiu uma imagem para divulgar melhor suas ideias. Ela contou que Lucas Cranach, gravurista alemão, representou em figuras o pensamento do monge e a prática católica a que ele se opunha, deixando claras as diferenças entre as duas vertentes cristãs. “São imagens propagandísticas, dizem que a igreja não é um órgão jurisdicional, mas uma comunidade de adesão voluntária. Você não pode ser expulso nem sofrer retaliações. É quase um catecismo ilustrado”, afirmou.

    Patuzzi demonstrou que a estratégia de comunicação inicial difundiu e construiu o que se conhece hoje das religiões de matriz protestante no mundo, enquanto Refkalefsky apresentou como essas imagens se formaram no Brasil de uma maneira muito propriamente brasileira. Após a sessão de perguntas, não sobrou tempo para discutir a política e o futebol, mas não ficaram dúvidas de que religião é um ótimo tema para a discussão.

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