Povo pacífico?

Não é de hoje que o brasileiro toma as ruas para reivindicar direitos. Manifestações contrárias ao aumento de tarifas nos transportes acontecem desde o século XIX

Janine Justen

  • Policiais e manifestantes no Rio de Janeiro / Foto: Bernardo Santos

    “O que é ser pacífico?”, indaga o economista e sociólogo Carlos Vainer da UFRJ. Para o especialista em planejamento e políticas urbanas, essa é apenas uma das muitas e controversas questões que compõem o pano de fundo das recentes manifestações contra o aumento das passagens de ônibus no Brasil. Os protestos, que começaram no início do mês e têm levado milhares de pessoas às ruas em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte, Goiânia, Brasília, só para citar algumas cidades, ganham adeptos, inclusive, no exterior.

    “As elites nacionais são violentas. Historicamente, a violência dos dominantes foi a única forma de reprimir ou controlar movimentos de resistência das classes oprimidas. E não foram poucos”, contextualiza Vainer. “Essa ideia de que o povo brasileiro é pacífico, receptivo e festeiro por natureza me parece muito simplista. É uma forma suave de racismo, pois se baseia na lógica de que atributos pré-definidos determinam a personalidade e o caráter de um povo”, critica Vainer. “É como se um fator externo a nós construísse nossos sentimentos, vontades, desejos, anseios e frustrações. Como se tudo isso já viesse inscrito em nosso DNA.”

    Com valores patriarcais, escravocratas e moralistas arraigados na sociedade brasileira por sua própria formação, fica difícil fugir de estereótipos extremistas e, por que não, pejorativos, quando o assunto é reivindicação popular. Classificados como “baderneiros” ou “vândalos” pelo discurso tradicional, os manifestantes têm sua atuação diminuída e descontextualizada por aqueles que deveriam abraçar a causa.

    “Quando a população protesta, dizem que não há motivo. Principalmente quando os protagonistas são jovens. Isso, para mim, é uma violência. Esta arrogância de apresentar ao mundo a ideia de uma sociedade que resolveu seus problemas gloriosamente é um modelo de apagamento, de invisibilidade das profundas desigualdades sociais que aqui persistem. Mas funciona para os turistas e para a Fifa”, ironiza.

    Foto: Movimento Passe Livre - SPPara o professor da UFRJ, é inconcebível vender para a comunidade internacional a imagem de um país economicamente estável e promissor, quando as necessidades básicas da população não são atendidas. “Como pensar um ‘oba-oba’ de investimentos em megaeventos em contraponto às milhares de residências sem saneamento básico, aos insatisfatórios índices educacionais e a uma saúde pública sucateada? Isso sem falar do transporte ineficiente”, provoca. “A rebelião não é apenas necessária, é justa. Tampouco é um ato violento, mas de defesa. E, por isso, bastante legítimo.”

    Historiador da PUC-Rio, Rafael Lima é outro a destacar que as recentes manifestações ajudam a desconstruir a imagem de que a sociedade brasileira é passiva e sem voz.  “A questão da mobilização popular nas ruas é antiga e acompanha, de alguma maneira, toda a trajetória da nossa efetiva urbanização, a partir do início do século XX”, defende o pesquisador. Para ele, “todas essas manifestações passam pela problemática da cidade, espaço por excelência da diversidade de interesses, da alteridade cultural e do confronto social, sobretudo em um país exRevolta do Vintém. Rio de Janeiro, 1879cludente como o nosso”.

    Para Lima, os protestos em relação ao preço das tarifas dos transportes públicos não são novidade na história do país. O historiador Paulo Terra, especialista em história urbana e movimentos de trabalhadores, concorda. Ele aponta para Revolta do Vintém como um das mais emblemáticas. Em 1879, manifestantes contestaram a tarifa outorgada pelo governo imperial acerca das passagens de bonde no Rio de Janeiro. O resultado, após muito tumulto? A revogação do imposto.

    “No dia 28 de dezembro de 1879, foi promovida uma primeira manifestação que contou com 6 mil pessoas. No dia primeiro de janeiro de 1880, data em que a taxa entrava em vigor, novo protesto reuniu aproximadamente 4 mil pessoas e foi combatido não só pela polícia, como também por soldados de infantaria e cavalaria do Exército. Mas a movimentação social conseguiu contornar a lei”, explica Terra.

    Ele destaca, ainda, o aumento da passagem na Companhia São Christovão, em 1901. “Os protestos, que incluíam diversos bondes virados e queimados pelos manifestantes, foram também duramente reprimidos pela polícia e só terminaram três dias depois”, afirma. Mais uma vez, o resultado foi positivo. “A causa do fim das ações dos usuários foi a decisão da Companhia São Christovão de suspender a execução do novo contrato, retornando os preços às passagens anteriores”.

    Outra insurreição popular em meio urbano conhecida foi a Revolta da Vacina. “Com direito a barricadas e quebra de bondes", lembra Rafael Lima, "Ela não está diretamente relacionada ao aumento de tarifas. Porém, é impossível compreendê-la sem pensar nas reformas urbanas de 1904 que, sob a batuta do prefeito Pereira Passos e do presidente Rodrigues Alves, alijaram a população mais pobre do Centro da cidade.”

    Para ele, “as manifestações atuais ganhariam bastante, do ponto de vista simbólico, se ativassem a memória dessa revolta e de seu principal líder, Horácio José da Silva. Mais conhecido como Prata Preta, que já virou até nome de bloco de carnaval dos bairros do porto”.

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