Pensando ‘fora da caixa’

Roberto DaMatta discute a formação de identidades individual e coletiva. Diferenças culturais são a principal barreira para a aceitação do outro

Janine Justen

  • Roberto DaMatta discute o conceito de identidade em palestra / Foto: Divulgação“A diversidade fascina e perturba, porque ela coloca em xeque o que nós realmente somos”. Assim, o antropólogo Roberto DaMatta deu o tom à palestra “Identidade Brasileira”, na última segunda (10), no Midrash Centro Cultural, no Rio de Janeiro. Motivado pelas questões do ‘eu indivíduo’ e do ‘eu coletivo’, o estudioso provocou o público acerca das barreiras culturais que emergem entre diferentes povos, como no caso mais geral Ocidente-Oriente, ou, no mais específico, de judeus e palestinos.

    Para o professor, basta que um ato familiar seja feito pelo outro para ser distanciado do comum pelo observador. “Isso se reflete dos mais simples hábitos alimentares às práticas religiosas. É o que eu chamo de ‘nó nós-eles’. Quando eu faço, tudo bem. Mas quando o outro faz, pode não estar tudo tão bem assim.”, comenta DaMatta.

    E completa: “O confronto com o diverso pode ser uma fonte de desumanidade ou de inovação e progresso, ambos no mesmo patamar. Isto porque é somente a partir desse impasse que as identidades são construídas, apreendidas e reforçadas”.

    Da Matta destaca, ainda, a necessidade de se perceber o outro como “alternativo”. “A noção de superioridade ou inferioridade é bastante relativa e delicada. Quais são os parâmetros para esse julgamento? O outro é nada mais do que uma alternativa, representando uma outra maneira de encarar o mundo além da sua própria”.

    O preconceito de raiz

    “Temos uma série de pessoas desconhecidas dentro de nós, já dizia Freud. Quando, de fato, atentarmos a isso, vamos diminuir os índices de intolerância e preconceitos sociais”, alerta o professor, que lista oito das principais causas para tais estranhamentos: aparência, língua, vestimenta, moradia, religião, tecnologia, governo e posição social.

    Para ele, o fato de termos sido uma sociedade patriarcal e escravista, no período em que o país se formava, arraigou valores deturpados à contemporaneidade. “Aqui, não houve segregação racial física como nos Estados Unidos ou na África do Sul, mas se incorporou, a vistas grossas, um preconceito velado. Quanto mais escura a cor da pele, mais próximo de ser ‘coisa’ está o sujeito”, denuncia DaMatta.

    Entender que as identidades dependem de múltiplas relações sociais parece ser o caminho. “Ao falarmos de indivíduo e sociedade, atingimos um nível em que tudo pode ser construído e reconstruído historicamente. Não é uma questão de essência, mas de relativização”, pondera o antropólogo.

    Vários mundos num só mundo

    “Morando na Coreia do Sul, eu entendi o verdadeiro drama de um analfabeto. Eu não sabia falar nem ler. Não entendia nada do que eles diziam”, confessa o teórico. E brinca: “É engraçado perceber que os diferentes não são homogêneos. Os orientais, apesar de parecerem assim a nós, não eram todos iguais”.

    De acordo com suas teses, a variável circunstancial é uma das mais influentes no quesito identidade. “Se vamos à Argentina, somos brasileiros e há uma grande rivalidade. Mas quando, junto aos nossos ‘hermanos’, estamos em terras norte-americanas, somos todos sulamericanos, encarados com a mesma desconfiança”.

    Para DaMatta, a lógica dos englobamentos vai do mais local e mais concreto ao mais universal, se dissolvendo em contrastes por meio de segmentações. “As identidades são flutuantes e não substâncias. Um viajante não vira alemão porque está na Alemanha. Ninguém toma uma injeção de nacionalidade, com direito a absorção de gostos e costumes regionais”, salienta o pesquisador.

    “O diferente jamais pode ser visto como idêntico, porque se assim o fosse, deixaria de ser diferente. Parece óbvio, mas não é. Este é o argumento que contraria toda uma política de padronização social”, argumenta. E conclui: “A experiência se constrói a partir de trocas. Para que saiamos da caixa, precisamos primeiro aceitar o que está dentro dela”.

     

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