O último garimpeiro

Motorista do Centro de Geologia da UFMG em Diamantina, Geraldo Damaso, já viveu do garimpo e agora mantém uma coleção de mais de 300 pedras

Felipe Sáles

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    Geraldo Damaso exibe, orgulhoso, sua coleção de pedras preciosas ainda colhidas nas montanhas de Diamantina e expostas na sala de motorista do Centro de Geologia da UFMG. Fotos: Felipe SálesAs montanhas que circundam Diamantina, recheadas de pedras que reluzem à luz do sol, inevitavelmente remetem às abundantes muralhas de preciosidades de um tempo que se foi. Poucos imaginariam que um verdadeiro tesouro extraído dos antigos garimpos está hoje reunido na sala de motorista da Casa da Glória, onde funciona o Centro de Geologia Eschwege, órgão do Instituto de GeoCiências da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). São mais de 300 pedras, algumas raríssimas, mantidas por Geraldo Vieira Damaso, de 53 anos. O motorista Geraldinho, como é conhecido, chegou a achar três diamantes – um deles verde, o mais valioso –, até um acidente de bicicleta mudar seu destino e transformá-lo num dos últimos garimpeiros diamantinenses a lucrar com os minerais da cidade e, de quebra, acumular conhecimentos geológicos de surpreender profissionais do ramo.

    Quando tinha 18 anos, Geraldinho sucumbiu à influência de um amigo que, para fugir do marasmo, sugeriu tentar a sorte da fortuna. Passava mais de 10 dias embrenhado nas montanhas diamantinas em busca do ouro perdido – aventura que, na década de 1980, ainda valia a esperança. Tanto que, um dia, encontrou seu primeiro diamante.

    “Na época, valia mais do que um ano inteiro de trabalho. Como Diamantina é uma cidade pequena e não tem muita coisa para fazer, fui convencido por amigos a tentar a sorte no garimpo. Valeu a pena, embora tudo tenha sido dividido com meu amigo de garimpo, como de costume, e com o dono da terra que cobrava de 10% a 15% por cada achado”, lembra.

    Logo vieram mais dois diamantes – um deles, o cobiçado verde. Graças ao garimpo, conseguiu comprar um lote de terra – onde, mais tarde, ergueria sua atual residência – e a famigerada bicicleta. Montado nela, Geraldo atropelou o filho de um vizinho, tentou fugir e, antes de dar a volta no quarteirão, deu de cara com o enfurecido pai do menino. O acidente lhe valeu uma surra memorável do seu pai e o fim das aventuras nas montanhas.

     

    Sua coleção fica exposta a estudantes e turistas que visitam a histórica Casa da Glória, onde funciona o Centro de Geologia da UFMGRevolta do garimpo

    De promissor homem de bens, Geraldo passou a ganhar a vida lavando peças de automóveis na oficina de um amigo. A revolta só não foi maior porque, logo depois, veio a proibição do garimpo – durante séculos, a principal atividade econômica da população e que levou, inclusive, à fundação da cidade. Até reencontrar os tempos de bonança no turismo histórico, o povo de Diamantina viveu à míngua de quaisquer perspectivas. Garimpeiros fecharam as ruas da cidade e chegaram a montar acampamento em frente à prefeitura durante mais de um mês, com direito a fogueira para a comida, como costumavam fazer no meio do mato.

    Geraldo até protestou junto com os colegas, sonhando em um dia voltar à atividade. Mas não teve jeito. Acabou passando no concurso para motorista da UFMG, artimanha do destino para mantê-lo novamente perto das preciosidades.

     

    Geraldo exibe a bateia com a qual já encontrou três diamantesPesquisador autodidata

    Como motorista do instituto, ele acaba acompanhando – e ensinando a prática da garimpagem a – muitos estudantes e pesquisadores que visitam as montanhas. Entre idas e vindas, ainda encontra uma pedra mais valiosa. Transformou o antigo trabalho em hobby que, por sua vez, foi convertido em renda extra. Com as negociatas junto a colecionadores como ele, Geraldo tornou-se um dos últimos “garimpeiros” que ainda ganham dinheiro com as riquezas minerais de Diamantina.

    Todo o seu tesouro fica em exposição para os visitantes que veem, além de pedras preciosas, sua antiga bateia – a peneira usada por ele e com a qual encontrou os diamantes – que  herdou de um velho amigo garimpeiro. Mesmo sem ter concluído o Ensino Médio, Geraldo demonstra conhecimento de fazer inveja a muito especialista. Ouvindo um professor aqui, um estudante acolá, ele acabou aprendendo e contando com a ajuda de professores da universidade, que incentivam seu aprendizado doando livros sobre o assunto.

    “Entre os mais raros que tenho estão um quartzo com inclusão flúdica, uma turmalina preta, também conhecida como afrizita, que ainda tem feudispato e outros minerais...”, ensina, em tom professoral, até deixar escapar o mineirês tradicional. “Eu gosto desse negócio de pedra, moço, tem jeito não, sô...”

     

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