O interesse público no privado

Historiador e autor de textos biográficos, professor Ronaldo Vainfas afirma que a biografia 'é um gênero essencial da história': 'a dimensão individual é chave no processo histórico'

Ronaldo Pelli

  • Recentemente, o debate sobre os limites entre biógrafo e biografado voltou à tona [Entenda todo o contexto atual aqui]. Para tentar contextualizar essa questão, e demonstrar os limites entre o que é de interesse público e as necessidades privadas, conversamos com o professor da UFF Ronaldo Vainfas, que, além de ser autor de biografias como a de "Antonio Vieira - Jesuíta do Brasil", trabalhou bastante com esses limites ao falar sobre História cultural, e estudando o historiador francês Jacques Le Goff, que “reabilitou” as biografias como importantes dentro do estudo historiográfico. Nesta curta entrevista, Vainfas aponta caminhos e lembra como os limites entre o que é público e o que é privado se modificaram e se tornaram mais flexíveis, ao longo dos anos. Confira a entrevista:

    REVISTA DE HISTÓRIA: Os cantores unidos nesse grupo Procure saber dizem que há um conflito entre interesses públicos [a história desses artistas] e privados [temas de foro íntimo que eles pretendem manter assim]. Como o senhor vê esse embate? Há, para o senhor, uma linha que não pode ou deve ser ultrapassada nessa questão? Se sim, como estabelecer esse marco, para que seja justa com biografados, biógrafos, estudiosos e demais interessados?

    Ronaldo Vainfas - É uma polêmica que envolve não só questões metodológicas da história, mas também ética, vaidades, interesses financeiros etc. Acho que uma linha demarcarcatória razoável residiria na circunstância do biografado estar vivo ou morto. Biografias de personagens vivos - artistas, políticos ou seja quem for - estão quase sempre vocacionadas a distorcer a história. Isto pelo simples fato de que a biografia só pode ser feita e publicada no caso de o biografado aprovar o texto e facilitar o trabalho do biógrafo. Aliás, não raro o biografado só facilita a documentação se a biografia for laudatória. Caso o biógrafo escreva algo que o biografado não quer ver exposto, censura o texto ou proceRonaldo Vainfas, em fotos de arquivossa o biógrafo.

    Este tipo de biografia, quando feita, tem contribuição histórica duvidosa. Em todo caso, acho que qualquer indivíduo tem o direito de aceitar ou não virar tema de livro. É uma questão de privacidade. O que não pode é aceitar ser biografado e interferir no trabalho do biógrafo para construir uma auto-imagem que lhe convenha. Já no caso dos mortos, acho um absurdo que as famílias se metam nisso. A legislação que delega às famílias, por exemplo, o direito de acesso à documentação pública é um desatino. Pior ainda é processar editoras ou autores que publicam passagens da vida do biografado que, no entender dos parentes, atenta contra a honra e a memória do personagem. No caso da biografia dos personagens contemporâneos já mortos, este problema é tremendo. Se a família do biografado não autoriza ou não facilita a documentação, o livro não sai. Por que isto ocorre? Porque os familiares querem "preservar a memória" edificante do biografado, como se alguém fosse santo, ou então querem tirar proveito financeiro do autor ou da editora. O Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, escreveu um ótimo artigo em O GLOBO, citando o caso de Estrela Solitária, biografia do Garrincha (Ruy Castro, 1995). A família interpelou a editora em busca de royaltes pelo uso da imagem do Garrincha. Chegou a mover processo, alegando que o livro expunha o alcoolismo do personagem, seu estilo boêmio e mulherengo, a depressão (estampada na capa), coisa que todo mundo sabia. O livro chegou a sair de circulação e tudo só se resolveu quando houve acordo financeiro com os familiares. Um absurdo. Roberto DaMatta também publicou artigo recente sobre o assunto, estranhando que os  vanguardistas que outrora defendiam o lema "É proibido proibir" estejam agora empenhados em proibir biografias. "Todas as vidas humanas contêm paradoxos", escreveu o antropólogo, de sorte que uma biografia histórica de bom nível tem que tratar de tudo isso. Ou então que não se faça a biografia. Biografia asséptica, quiçá  asceta, não tem valor histórico algum.

    RHBN: Qual é a importância da história privada no entendimento de um período histórico específico? Seria a história de um único ser humano tão importante assim para influenciar o seu entorno? Em suma: por que escrever - e estudar - biografias?

    Ronaldo Vainfas - Antes de tudo, biografia e vida privada não são sinônimos, em especial no caso dos grandes personagens históricos em qualquer campo da vida social - políticos, militares, cientistas, artistas etc. O peso de certos personagens em determinada época já os torna públicos. A vida privada deles interessa, é claro, porque ninguém é só "público", as questões pessoais e íntimas jogam papel importante nas escolhas desses indivíduos. De modo que a biografia é um gênero essencial da história. Por que fazer biografias? Porque a dimensão individual é chave no processo histórico. Seria possível compreender o nazismo sem estudar Hitler? O fascismo sem estudar Mussolini? A Revolução Francesa sem Robespierre ou Napoleão? Não quero com isso dizer que são os grandes líderes que explicam o movimento histórico, mas frisar que o estudo dos protagonistas permite compreender melhor o processo geral. Isto vale também para personagens de segundo escalão ou mesmo para personagens quase anônimos. A micro-história, por exemplo, tem dado grande contribuição neste campo. Basta citar o clássico de Ginzburg sobre o moleiro friuliano do século XVI, o hoje famoso Menochio. Ficou famoso pelo estudo do Ginzburg, porque jamais integrou o panteão dos "heróis" italianos.Vainfas: linha demarcarcatória razoável residiria na circunstância do biografado estar vivo ou morto

    RHBN: As biografias foram colocadas para o escanteio durante muito tempo na história da historiografia, apesar de lá no início, entre os gregos, ter sido um dos seus motores iniciais. Por que houve esse esquecimento? E como / quando / onde e por que aconteceu essa "redenção"?

    Ronaldo Vainfas - Creio que a ascensão da biografia, enquanto gênero, veio com o historicismo do século XIX. Embora o historicismo tenha dado enorme contribuição para a pesquisa histórica (e isto até hoje vale), o fato é que muitos autores daquele tempo sobrevalorizavam o papel do indivíduo, sobretudo dos grandes personagens, além de limitarem os estudos biográficos aos grandes personagens, transformados em heróis. A biografia só entrou em crise na primeira metade do século XX, mesmo assim restrita ao campo dos historiadores. Um pouco pela influência do marxismo, que sempre valorizou os processos coletivos, movidos pela dinâmica da economia, e desprezou a dimensão individual. Outro tanto pela repercussão do movimento dos Annales, que defendeu uma história interdisciplinar e problematizadora dos processos sociais. Fez pouco caso da política, identificada ao historicismo, e isto arranhou o prestígio acadêmico das biografias. Um bom exemplo do ceticismo acadêmico em relação à biografia está no texto do sociólogo Pierre Bourdieu, que até hoje tem repercussão, "A ilusão biográfica" (1986). Trata-se de uma crítica frontal à tendência que ele vê nos biógrafos a reconstruir a vida dos biografados buscando uma coerência linear, por vezes destacando traços da família ou da infância do indivíduo que marcariam sua trajetória posterior. Bourdieu tem alguma razão nesta crítica ao raciocínio teleológico de muitos biógrafos, seja os que enaltecem, sejam os que detratam os biografados. Mas ele exagerou. Entre os historiadores profissionais esta atitude ingênua foi superada faz tempo. As imprevisibilidades, as circunstâncias do momento, o acaso, enfim, são hoje muito valorizados. Até o raciocínio contrafatual ou a simples conjectura, devidamente embasada, pode ter valor neste caso.

Compartilhe

Comentários (2)