O imperador bossa nova

Em palestra no fHist, pesquisadora Isabel Lustosa fala sobre o trabalho de criação da própria imagem de D. Pedro, na Europa, na tentativa de conseguir apoio para retomar a coroa portuguesa

Ronaldo Pelli

  • Professora Isabel Lustosa falou que D. Pedro I chegou a enviar um texto para a imprensa francesa antes de aportar em ParisMais do que a dicotomia entre herói ou vilão, conhecer a trajetória de D. Pedro I mostra que um personagem pode ser, ao mesmo tempo, herói e vilão, por quase o mesmo motivo, em lugares distintos. Esse foi o ponto alto da palestra da pesquisadora da Casa de Rui Barbosa Isabel Lustosa, que dividiu o palco do Festival de História na tarde deste sábado (21) com os historiadores Paulo Rezutti e Andréa Lisly Gonçalves, sobre histórias pouco conhecidas do Império.

    “Ele saiu escorraçado no Brasil, principalmente pelo jornal Aurora fluminense, por conta da abdicação [em 1831], e chega à Europa, logo após a revolução de julho de 1830, em que Carlos X é tirado do poder na França. Os jornais brasileiros tentam identificá-lo com o último Bourbon a ocupar o trono na França. Lá, porém, foi saudado e mimado”, contou a professora, que está pesquisando exatamente essa passagem de D. Pedro pela França em sua cátedra Sergio Buarque de Holanda / Maison des Sciences de l’Homme em Paris.

    Para Isabel, havia uma conjuntura internacional favorável a D. Pedro. Em 1830, Luís Filipe de Orleans sobe ao trono francês, com o apoio do marquês de La Fayette, que tinha participado da guerra de independência dos EUA. Após, há revoluções liberais na Bélgica e na Polônia. Na Inglaterra, logo em seguida, há a mudança do gabinete, com a queda de Wellington e Aberdeen. Dentro desse contexto, D. Pedro é visto como um monarca comparativamente liberal que governaria um “eldorado” com o auxílio de uma carta constitucional.

    “D. Pedro é um homem da sorte, fortuna e da virtude”, opinou a professora que lembrou que antes, num ambiente mais absolutista, ele não tinha apoio nenhum, nem mesmo do ex-sogro, por conta exatamente da carta constitucional que escreveu para Portugal, completamente inspirada na brasileira.

    O primeiro imperador do Brasil queria a ajuda dos franceses para tentar retomar o poder em Portugal, que tinha sido usurpado por seu irmão D. Miguel. Segundo Isabel Lustosa, D. Pedro I fez uso da mídia para divulgar sua própria figura, em contraste com D. Miguel. Ela explica que o imperador chegou a publicar um documento na imprensa francesa antes de chegar em Paris. Além disso, sua figura mais simples, que tinha causado um mal estar num momento anterior, funcionava muito bem por dois motivos. Primeiro que era uma maneira de se apoiar as atitudes também mais burguesas do rei Luís Filipe, que chegou a colocar os filhos para estudar em uma escola normal. Segundo porque contrastava com a imagem que se tinha do irmão D. Miguel, visto como um monstro sanguinário, uma versão de Nero.

    “D. Pedro tinha paixão por música, gostava de ser músico, era fã de Rossini. Ele teve prazer de encontrar o compositor, que chegou a tocar uma noite em seu teatro com composições dele”, falou sobre essa imagem de um imperador “bossa nova”. “Os críticos, claro, falavam que ele faria melhor em expulsar o irmão de Portugal a expulsar os ouvintes da ópera”, contou aos risos.

    Ela disse que D. Pedro ainda teve a sorte de chegar num momento de crescimento do bonapartismo na França, que aumentava desde a morte de Napoleão. Por coincidência, sua segunda mulher, Amélia, era neta do imperador francês. Além disso, para ajudar D. Pedro e sua campanha contra o irmão, a frota francesa tinha acabado de adentrar recentemente o Tejo para obrigar D. Miguel a proferir um pedido formal de desculpas, por ter maltratado dois franceses.

    “Na primeira comemoração de 1830, D. Pedro é a principal figura ao lado de Luís Filipe, o homem que foi logo condecorado com a legião de honra”, diz Isabel. “Os franceses precisavam de um salvador, e esse homem tinha chegado. Era D. Pedro.” 

Compartilhe

Comentários (0)