O Guarani ‘nasceu’ em Milão

Princesa napolitana e seu séquito ajudaram a disseminar vários aspectos da cultura italiana

Pedro Paulo Malta

  • A chegada da princesa napolitana Teresa Cristina (1822-1889) ao Brasil, em 1843, para se casar com o imperador D. Pedro II (1825-1891), foi um marco na história da influência italiana no Brasil. Irmã do rei de Nápoles, Ferdinando II de Bourbon (1810-1859), ela colaborou para o estreitamento de relações entre os dois países. “Antes dela, a presença italiana no Brasil era espalhada, episódica, desencontrada. Após o casamento com D. Pedro II, ela se torna sistêmica”, define o professor Aniello Angelo Avella, da Universidade de Roma Tor Vergata (atualmente professor visitante na UERJ), que se incomoda com a “caricatura patética” construída pela historiografia brasileira e propõe uma revisão na biografia que prepara sobrea imperatriz, a ser publicada em italiano (no fim deste ano) e português (em meados de 2012). “As poucas coisas escritas sobre ela no Brasil dizem que era gorda, feia e manca, mas que, como boa napolitana, tinha temperamento bondoso e voz bonita. Puro folclore!”.

    Entre os episódios favoráveis à imperatriz ele destaca uma divergência dela com o marido em 1863, quando o imperador decidiu mandar o maestro Carlos Gomes (1836-1896) à Alemanha para estudar com Richard Wagner (1813-1883), cujas obras eram as preferidas de D. Pedro II. “Foi graças à insistência de Teresa Cristina, e isso está documentado, que o destino do jovem músico brasileiro foi o Conservatório de Milão, onde estudou com Giuseppe Verdi (1813-1901). E foi durante a estada em Milão que Carlos Gomes escreveu e estreou O Guarani, encenada pela primeira vez com o título Il Guarany”, relata Aniello Angelo Avella, antes de destacar que sua biografada se interessava também por arqueologia, tendo acertado nas previsões de que haveria restos de uma civilização etrusca no subsolo de terras herdadas de uma tia. “Disseram que estava louca, que não era possível e no fim das contas lá estava uma necrópole etrusca!”, conta o professor, napolitano como a imperatriz. “Tanto que no Museu Nacional de História Natural, na Quinta da Boa Vista (Rio de Janeiro), há uma coleção etrusca de primeiríssima categoria.”

    Além dos palpites certeiros, a importância da imperatriz Teresa Cristina para o Brasil está também nas famílias que vieram em seu séquito e trouxeram novidades para o Rio. Na confeitaria dos Francioni, estabelecida na Rua Direita (atual Primeiro de Março), foi onde os cariocas primeiro viram gelo e provaram sorvete. Perto dali, na Rua do Ouvidor, a loja mais concorrida era a joalheria e ourivesaria dos irmãos Farani. E assim consolidou-se a imigração urbana no Rio de Janeiro, com famílias que estabeleceram seus negócios e até hoje comandam nichos quase inteiros na cidade, como os jornaleiros e peixeiros calabreses.

    Além da biografia de Teresa Cristina de Bourbon, outra publicação a ser lançada no fim de 2011 com a assinatura do professor Avella é o volume italiano do projeto Resgate, iniciativa coordenada pelo Ministério da Cultura que reúne as fontes documentais sobre a História do Brasil nas bibliotecas da Itália. Nesta empreitada, ele coordenou uma equipe de dez profissionais, entre os quais estavam pesquisadores que se desdobraram pelas bibliotecas dos diversos estados pré-risorgimento. “Foi um trabalho de louco, que levou quase oito anos! Tínhamos gente em Milão, Mantova, Roma, Palermo... Um verdadeiro quebra-cabeças!”, define o professor, que destaca entre os documentos encontrados um panfleto antiescravagista da década de 1840, assinado pelo cônsul napolitano Gennaro Merolla. Chamava-se Memória do comércio de escravos e dos males que derivam. “Um tratado precioso, repleto de detalhes, inclusive desenhos dos aparelhos de tortura”.

     

    *Pedro Paulo Malta é jornalista.

     

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