Novidades cinematográficas na Rua do Ouvidor

Produção de filmes e salas de cinema começaram pelas mãos de imigrantes italianos

Pedro Paulo Malta

  • O cinema – invenção francesa, dos irmãos Louis (1864-1948) e Auguste Lumière (1862-1954) – chegou aos brasileiros com os imigrantes italianos. Foi através do omniógrapho do napolitano Vittorio di Maio (1852-1926) que alguns cariocas, reunidos numa sala do Centro do Rio (Rua do Ouvidor, nº 57), viram cinema pela primeira vez, na tarde de 8 de julho de 1896. Foi também o primeiro a filmar no Brasil, como se viu em 8 de maio de 1897, no Cassino Theatro Fluminense, em Petrópolis (RJ), onde Di Maio exibiu Bailado de crianças no colégio, no Andaraí e Chegada do trem em Petrópolis, entre outras sequências. E foi ele quem abriu a primeira sala exclusivamente dedicada à exibição de cinema para o público paulistano: o Salão de Novidades New York em São Paulo, inaugurado em 22 de julho de 1899 no imóvel de nº 58 da Rua 15 de Novembro.

    O nome era inspirado na primeira sala fixa de cinema no país, o Salão de Novidades Paris no Rio (Rua do Ouvidor, nº 141), inaugurado pelo empresário Paschoal Segreto (1868-1920) em 31 de julho de 1897. Napolitano como Di Maio, Segreto foi o maior nome do entretenimento no Rio da virada do século XIX para o XX, sendo proprietário também de casas de jogos, cafés-concerto (como a Maison Moderne, na Praça Tiradentes, e o High Life Club, na Glória), teatros e companhias teatrais. Até ganhar o apelido de “ministro das diversões” (dado pela revista A Careta, em 1910), criou laços com os poderosos do Brasil, entre eles o presidente da República Prudente de Moraes (1841-1902), cuja família era frequentadora do Salão de Novidades. Atuou também na produção cinematográfica ao lado do irmão caçula Afonso (1875-?), que viajou a Nova York e Paris – onde estagiou na Films Pathé – para trazer na bagagem conhecimentos, equipamentos e fitas para exibição. Numa das voltas ao Rio (1898), sacou o cinematógrafo e, do convés do navio francês Brésil, registrou imagens da entrada da Baía de Guanabara, resultando no primeiro dos 60 filmes que faria até 1901. Apesar do pioneirismo das imagens feitas por Di Maio, alguns autores consideram Afonso Segreto “o primeiro cineasta brasileiro”.

    Dali a algumas décadas, outro empreendedor napolitano daria novos tratos ao teatro e ao cinema no Brasil. Era o engenheiro Franco Zampari (1898-1966), que, chegado ao Brasil em 1922, partiria de uma carreira bem sucedida como executivo das indústrias Matarazzo para liderar a fundação de duas grandes iniciativas culturais da metade do século XX: o Teatro Brasileiro de Comédia (1948) e a Companhia Cinematográfica Vera Cruz (1949). Apesar de suas durações relativamente curtas (o TBC produziu até 1964; a Vera Cruz, até 1958), foram empreendimentos fundamentais na história das duas artes no Brasil. Para dirigir peças e filmes foram “importados” diretores italianos como Ruggero Jacobbi (1920-1981), Luciano Salce (1922-1989), Flaminio Bollini (1924-1978) e Adolfo Celi (1922-1986), todos participantes tanto do teatro no bairro paulistano do Bixiga quanto da produtora de cinema sediada em São Bernardo do Campo (SP). Também colaborou com as duas iniciativas o diretor e cenógrafo Gianni Ratto (1916-2005), outro italiano que veio trabalhar no teatro brasileiro, mas, ao contrário dos compatriotas, ficou de vez em São Paulo, onde também traduziu peças, encenou óperas e escreveu livros.

    E teve o Cinema Novo, que bebeu da estética neorrealista de cineastas italianos como LuchinoVisconti (Obsessão, 1943), Roberto Rossellini (Roma cidade aberta, 1945) e Vittorio De Sica (Ladrões de bicicleta, 1948), todos empenhados em mostrar a vida dos menos favorecidos, de forma crua, como contraponto ao fascismo. O olhar social chegou aos filmes do Brasil na década seguinte, quando o país passou a ser retratado também sem filtros embelezadores. Como o diretor Nelson Pereira dos Santos fez com Rio 40 graus (1955) e Rio Zona Norte (1957), duas produções consideradas precursoras do Cinema Novo.

    Desde então, vieram novos filmes, músicas, livros, peças teatrais e tantas outras expressões que contribuíram para reforçar os laços entre italianos e brasileiros. Laços mais antigos do que a própria oficialização dos dois países e que revelam um diálogo entre itálias e brasis que promete durar por muito tempo. Pelo menos enquanto houver carnaval, pizza, futebol e, naturalmente, baderna.

     

    *Pedro Paulo Malta é jornalista.

     

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