Nota baixa em História

Curso de graduação da UFF leva bomba em avaliação geral do MEC e perde autonomia acadêmica: está proibido de ampliar seu número de vagas para 2013

Gabriela Nogueira Cunha

  • Apesar de figurar entre os melhores programas de pós-graduação do país, o curso de História da Universidade Federal Fluminense perdeu sua autonomia acadêmica na licenciatura da graduação por obter nota dois, numa escala de um a cinco, em avaliação realizada pelo Ministério da Educação. A má notícia foi dada em nota oficial divulgada nesta quarta-feira (19). Segundo lista publicada no Diário Oficial da União, outros seis cursos da UFF – Pedagogia, Matemática, Geografia (bacharelado), Engenharia Agrícola, Engenharia Mecânica e Ciências Sociais (bacharelado) – também estão proibidos de ampliar seu número de vagas sem a autorização do MEC, em 2013. Ou seja, para mexer na estrutura dos cursos, a instituição de ensino precisa da aprovação da pasta.

    Com base nos indicadores de qualidade referentes a 2011, o processo leva em consideração o Índice Geral de Cursos (IGC) e o Conceito Preliminar de Curso (CPC). O cálculo do IGC é feito a partir da média dos conceitos preliminares de curso e os conceitos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Já o CPC avalia o rendimento dos alunos e a infraestrutura e o corpo docente. O maior peso na avaliação do CPC diz respeito ao desempenho dos estudantes no polêmico Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade): é cerca de 60% da nota total.

    Por enquanto, o Departamento de História aguarda uma visita de representantes do Ministério para poder agir. “O que temos de concreto  é que vamos receber uma comissão pra reavaliar a estrutura do curso. Teremos que arcar com o ônus de passar por isso”, diz o coordenador da graduação, Manuel Rolph. Dependendo do resultado da visita, a UFF pode recuperar a autonomia sobre o curso.

    Em nota, o ministro da Educação Aloizio Mercadante afirma que “o Brasil tem uma imensa demanda de ensino superior e o MEC tem interesse em aumentar essa demanda.” E acrescenta que “as medidas adotadas vão na direção da expansão do sistema, mas não podemos expandir sem qualidade.”

     

    Resistência

    O peso que os resultados do Enade têm na nota final gera insatisfação em alguns estudantes e professores que consideram o exame cheio de erros em sua concepção. Em alguns cursos é quase uma tradição fazer boicote à prova. Os alunos comparecem, assinam seus nomes e vão embora, deixando para trás a prova em branco. O resultado é a queda da reputação de ótimos cursos. “Os alunos de História sempre fazem boicote ao Enade. Mas a nota na prova acaba refletindo muito pouco do que é o nosso curso, que é muito bem conceituado, na verdade”, comenta Rolph.

    Para a estudante de História Camila Pizzolotto, por exemplo, o Enade parte de uma avaliação rasa do ensino superior. “O Governo dá maiores verbas para as instituições mais bem colocadas. O que, na realidade, não faz sentido nenhum. Eles não percebem que a formação é precária exatamente pela adoção de medidas como esta.”

    Em nota oficial divulgada no final da tarde desta quarta, a Pró-Reitoria de Graduação da UFF também se manifesta contra o exame nacional. Para o pró-reitor Renato Crespo Pereira, os resultados são distorcidos, em função dos boicotes.  “Na UFF, observamos que em recentes avaliações in loco dos diferentes cursos apontados como insuficientes na presente avaliação pelo CPC resultaram em conceitos elevados, seja em infraestrutura, corpo docente altamente qualificado e projeto pedagógico.”

    Sobre esta questão, Pizzolotto defende o posicionamento dos alunos: “Um dos principais motivos pelos quais a gente boicota a prova é que temos uma visão diferente [da do MEC] sobre educação. Para nós, educação não é mercadoria. Para eles, parece que sim”.

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