‘Musica popolare brasiliana’

Filho de imigrantes italianos, Adoniran Barbosa traduziu a alma paulistana

Pedro Paulo Malta

  • A colônia de imigrantes em São Paulo viu despontar seu representante no samba à medida que criava raízes no Brasil e dialogava com a cultura local. Era a vez de Adoniran Barbosa (1910-1982), personagem/pseudônimo criado pelo radialista e comediante João Rubinato que se tornou a cara vitalícia do samba de São Paulo. Nascido em Valinhos (SP), filho de imigrantes de Cavárzere, província de Veneza, tirou da própria realidade o português macarrônico e as mazelas tragicômicas da vida de pobre cantadas em sucessos como Saudosa maloca, Samba do Arnesto e Trem das onze – que “voltou” para a Itália com o título de Figlio unico e há quem jure que foi feito por lá. E há quem jure também que era imigrante legítimo o escritor Juó Bananère, de tantos textos satíricos publicados na revista O Pirralho, que circulou entre 1911 e 18, editada por Oswald de Andrade (1890-1954). Mas Alexandre Marcondes Machado (1892-1933) nem descendente de italianos era. Paulista de Pindamonhangaba, interessou-se pela vida dos imigrantes e criou o personagem Juó, com o qual escreveu paródias como La Divina Increnca e outra sobre a Canção do exílio, de Gonçalves Dias: “Migna terra tê parmeras / Che ganta inzima o sabiá...”

    A professora Yvone Dias Avelino, da PUC-SP, destaca que tanto os sambas de Adoniran quanto os textos de Bananère não podem ser considerados elementos da cultura italiana, mas de uma outra cultura, nascida no Brasil, com os imigrantes que trouxeram seus próprios símbolos e mesclaram com os que encontraram no novo país – alguns trazidos por imigrantes de outros países. Como no caso das cantinas, estabelecidas em São Paulo desde a segunda metade do século XIX, inicialmente em bairros repletos de imigrantes italianos, como Bixiga e Bela Vista. Segundo a professora Yvone, apesar da origem italiana, as cantinas hoje podem ser vistas como um exemplo clássico da miscigenação cultural que se deu em São Paulo. “O caso mais curioso é o da cantina Gigio, cujos proprietários são portugueses e, na filial do Brás, o cantor é japonês”, pinça Yvone Avelino, que na PUC-SP lidera o Núcleo de História Social da Cidade. “Os portugueses, que inicialmente se estabeleceram em São Paulo como comerciantes de padarias e confeitarias, a partir dos anos 1950 começaram a prosperar também no ramo das cantinas. Não tiraram os símbolos italianos, lógico, mas acrescentaram alguns novos, como o carneiro, o cabrito e o cordeiro, que entraram no cardápio e estão até hoje.”

    Das milhares de cantinas paulistanas, a mais antiga em funcionamento ininterrupto é a Capuano, que abriu as portas pela primeira vez em 1907, quando ainda não havia cardápio e as toalhas eram de papel. “O freguês pagava um fixo e comia o que servissem: uma massa, uma carne... Era assim no início”, conta a professora Yvone, antes de frisar que a popularidade desse tipo de restaurante cresceu junto com a força de símbolos trazidos com os imigrantes, como a culinária boa e farta, a mamma e as tarantelas, entre outros clichês. “E não há como dizer que o clichê seja ruim, pois populariza a cultura de um povo, como tão bem colocava Walter Benjamin sobre a obra de arte. Vamos popularizá-la, quebrando-lhe a aura.”

     

    *Pedro Paulo Malta é jornalista.

     

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