Múltiplas faces de Chica

Biografia e escavações arqueológicas, que já encontraram mais de 5 mil peças na casa que foi de Chica da Silva, prometem revisitar o passado da famosa ex-escrava

Alice Melo

  • Fundos da Casa da Chica da SilvaChica da Silva é uma das figuras prediletas de Diamantina. Ela era filha de uma escrava vinda da África e, apesar da ascendência negra, encantou um rico contratador de diamantes do Arraial do Tijuco, tendo com ele 13 filhos, nos idos do século XVIII. O caso era um escândalo para a sociedade religiosa e conservadora da época: na igreja, Chica da Silva não podia entrar. A figura polêmica estimulou inúmeros estudos e relatos sobre sua vida: filme, novela e uma recente biografia publicada pela historiadora Junia Furtado já trouxeram à tona interpretações sobre seu passado. Mas há ainda muito a ser descoberto (ou contado), incluindo aí uma nova biografia e até recentes descobertas arqueológicas na casa da ex-escrava.

    É o caso de uma pesquisa realizada pelo Laboratório de Arqueologia e Estudos da Paisagem, da UFVJM, que promete desvendar um pouco mais do passado de Chica da Silva. Em três semanas de trabalho num terreno nos fundos do museu que um dia foi a casa da mulata, foram encontradas mais de 5 mil peças, entre pedaços de louça, ossos de animais e cachimbos.

    A equipe, coordenada pelo professor Marcelo Fagundes, ainda estuda se o material é daquela época ou a quem pertenceu. A pesquisa só termina em dois anos e há ainda muita terra pela frente. 

    Escavações no quintal da Casa da Chica da Silva


    Várias faces

    Já a escritora Ana Miranda deve publicar em um ano outra biografia sobre a personagem emblemática. Miranda, que participou da mesa “Chica, a verdadeira”, no Festival de História - realizado pela Revista de História entre os dias 6 e 12 de outubro -, diz que usa sua imaginação como ponto de partida para a imersão na vida de Chica da Silva e que tem como um dos objetivos principais mostrar as várias faces da personagem.

    “Ela foi mãe, foi senhora de escravos, foi má, foi sensual. Foi muitas. Sofreu e amou. E mesmo a pessoa que sofre os maiores problemas, nas maiores prisões, pode superar. É isso que também quero mostrar, a superação. Vencer não é mais importante do que lutar e as faces da Chica da Silva são todas de uma pessoa muito lutadora”.

    Sobre os mitos que rondam a vida da mulher do contratador de diamantes, Miranda diz que eles precisam se manter vivos. Junia Furtado, que também integrou uma mesa no fHist sobre a mulata, reitera o pensamento ao dizer que “não cabe à historia o papel de destruir o mito, mas colaborar para uma outra visão dele”. E ainda acrescenta como positivo esse imaginário popular acerca dos personagens históricos, explicando que a lenda fomenta trabalhos acadêmicos em busca de uma verdade sobre essas figuras. Pensar a Chica da Silva, por exemplo, “nos permite refletir sobre a construção do mito da democracia racial no Brasil”.

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