A quem pertencem as biografias?

Três jornalistas autores de livros best sellers conversam no fHist sobre os seus papéis para narrar a vida de personalidades

Ronaldo Pelli

  • Da esquerda para a direita: Magalhães, Amaral e NetoUma mesa sobre biografias formada apenas por jornalistas em um evento que tem História em seu nome não poderia passar sem a polêmica entre os limites dos trabalhos entre uma e outra profissão. Foi assim o tom do bate-papo no Festival de História, que aconteceu na manhã sexta-feira (20), na tenda principal em Diamantina (MG).

    “Sou essencialmente um repórter”, chegou logo dizendo o jornalista Lira Neto, autor de biografias de personagens tão variados como Castelo Branco e Getulio Vargas, cujo segundo volume da sua trilogia acaba de ser lançado. “Minha metodologia é de um repórter. A diferença é que nas redações temos cada vez menos tempo para apurar e menos espaço para escrever a matéria. Agora, com os livros, continuo sendo repórter, sem a dupla pressão, do tempo e do espaço.”

    O mesmo ponto foi levantado pelos outros componentes da mesa: Mário Magalhães, autor de Marighella: o guerrilheiro que incendiou o mundo, e Ricardo Amaral, que escreveu A vida quer é coragem, sobre a trajetória política da presidenta Dilma Rousseff

    “Vejo uma série de historiadores fazerem críticas às biografias escritas por jornalistas por serem pedestres, rasas. Vejo também uma série de biografias de historiadores que têm boas sacadas, mas que cuja leitura é uma verdadeira prova de esforço. Eu concordo com ambas as críticas”, explicou Magalhães, que falou que a proposta de um livro é unir “densidade com encanto”, citando historiadores como Isabel Lustosa – presente na tenda – como capazes desta junção entre forma e conteúdo.

    Lira lembrou que os jornalistas têm muito a aprender com os historiadores, e citou que os historiadores escrevem normalmente para os seus pares, para produzir uma reflexão. Já os jornalistas, como definição da profissão, miram um público mais amplo. Ele citou as “Seis propostas para o próximo milênio”, livro do italiano Ítalo Calvino, em que explica os desafios que alguém que mexe com o texto escrito teria que enfrentar num mundo dominado pelo audiovisual, e citou duas destas propostas, para fazer eco às palavras de Magalhães: consistência e leveza.

    “Escrevo para ser lido. Preciso vender livro para pagar a cerveja das crianças”, brincou, para depois resumir o seu ponto: “Preciso me tornar decodificável, sem fazer concessão à mediocridade”.

    Magalhães aproveitou a oportunidade para citar um problema que aflige jornalistas, historiadores e quem mais quiser se embrenhar na feitura de uma biografia: a falta de padronização ao acesso aos arquivos do estado. Para ele, chega a ser bastante irônico que um dos melhores lugares para se pesquisar seja exatamente o Superior Tribunal Militar.

    “O pior lugar de se pesquisar é o Arquivo Público do Estado, no Rio. E eu já disse isso ao próprio diretor do arquivo, que é um homem de bem. Para se ler o prontuário do cabo Anselmo – do cabo Anselmo! – é necessário uma autorização judicial”, citou, sobre um dos personagens mais controversos das décadas de 1960 e 1970, que serviu o Estado como espião infiltrado em movimentos militares e sociais.

    Os três jornalistas, seguindo a proposta do evento, que é contar histórias não-contadas, também se propuseram a revelar passagens menos óbvias das trajetórias de seus biografados. Como as acusações de assassinato contra Getulio, feitas pelo seu grande adversário político Carlos Lacerda. Para Lira, que teve que pesquisar em Ouro Preto, onde Vargas estudou com os irmãos mais velhos, e em São Borja, onde sua família teve sua base política, ambas as acusações, mesmo apoiadas por teses de doutorado e inúmeras reportagens jornalísticas, são infundadas.

    Mário Magalhães fez questão de entrelaçar a história do baiano Marighella com Minas Gerais e com o gaúcho Getulio Vargas.

    “A primeira vez que Marighella foi preso, em 1932, foi por protestar contra Vargas”, contou, lembrando que ele chegou a ser torturado por três semanas pela polícia varguista. Ricardo Amaral também considerou fazer um paralelo entre Vargas e sua personagem, Dilma Rousseff, falando como a atual presidenta ficou encantada com o trabalhismo quando tomou contato com o mito político de Vargas, ao morar no Rio Grande do Sul.

    Ao fim, os três concordaram em mais um ponto: a necessidade, bem cara ao jornalismo, não de ser isento, mas de tentar demonstrar vários e conflitantes pontos sobre os seus personagens. Ou seja, evitar, como foi dito, fazer uma hagiografia (transformá-los em santos) ou satanizá-los. Ao fim, o necessário é apenas humanizá-los.

    “É claro que você vai se apaixonar pelos personagens biografados, mas isso não os absolve dos defeitos. É necessário fugir da dicotomia”, diz Lira Neto. 

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