Imigração italiana é discutida na Biblioteca Nacional

No 'Biblioteca Fazendo História, a professora Syrléa Pereira e o diplomata Rubens Ricupero contaram suas histórias e pesquisas sobre a imigração italiana

Felipe Sáles

  • As aventuras dos imigrantes italianos, desde a viagem pelo Oceano Atlântico até as novidades do Novo Mundo, nortearam as palestras desta edição do projeto "Bilioteca Fazendo História", que a Revista de História da Biblioteca Nacional promoveu na terça-feira, dia 20. A professora da Uerj Syrléa Pereira falou sobre suas investigações dos hábitos dos imigrantes, que chegavam a caçar pombos e gambás para se alimentar. Já o diplomata e ex-ministro Rubens Ricupero falou de sua infância no Brás, bairro tradicional dos imigrantes italianos em São Paulo, e revelou que o número de ascendentes em algum grau vivendo no Brasil é estimado em 25 milhões de pessoas.

    "Se compararmos com os portugueses, a imigração italiana foi a que teve maior impacto no Brasil. Sem contar, claro, a imigração forçada, caso dos africanos", disse Ricupero.

    Tanto ele quanto Syrléa lembraram que o patriotismo dos imigrantes era muito local, já que no início do século XX a Itália ainda não estava unificada, e as colônias dividiam-se (e distinguiam-se) por suas regiões e dialetos.

    "Já em 1921 havia uma variedade enorme. Eles se definiam mais pela ligação das cidades de origem do que, propriamente, pelo país", contou Syrléa.


     
    De empresários a revolucionários

    Os imigrantes italianos ajudaram o país tanto como empresários quanto com ideais revolucionários. No Cerrado do Piauí, por exemplo, a Fazenda Trento – em homenagem à região homônima da Itália – é uma das maiores produtoras e exportadoras de soja do país. Ironicamente, segundo Ricupero, “quase toda a liderança original do Movimento dos Sem-Terra (MST) tem a mesma origem, seja das cidades de Trento ou de Vêneto”.

    “Se é verdade que os grandes industriais eram italianos, os anarquistas também eram. Foram eles que incitaram as primeiras greves no país. Tanto que, na época, chamavam de doutrinas exóticas, porque eram importadas ”, conta Ricupero.

     

    Aventura sobre o Atlântico

    A aventura da imigração começava na trajetória. Além de chegarem a um país completamente desconhecido, sem saberem o idioma ou onde ficar, a travessia era uma tarefa arriscada. Mães vinham com até filhos à tiracolo.

    “Elas morriam de medo do navio, pois era comum um marinheiro assediar, ameaçar... Já as crianças adoeciam ou até morriam de tifo”, conta Sirléa.

     

    Laboratório de dialetos

    Vênetos e trentinos formaram massivas zonas de imigrantes especialmente no interior do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina e do Espírito Santo. Eles foram um grupo tão coeso – e até fechado – que alguns descendentes só falam o dialeto trentino, e não o idioma italiano. Em alguns locais de Caxias do Sul e Bento Gonçalves, pessoas falam uma espécie de dialeto veneto reconstruído.

    “Alguns vivem até hoje num relativo isolamento. Ao ponto de certos dialetos e cânticos só resistirem nessas comunidades brasileiras. Alguns falantes do trentino, que desapareceram da Itália, chegaram a ser importados do Brasil para um laboratório sobre dialetos”, conta Ricupero.

     

    Medo de rebelião dos escravos

    No Rio, em Minas Gerais e na Bahia, raramente italianos conseguiram guardar por muito tempo uma identidade de grupo, por se tratar de cidades majoritariamente brasileiras. Já em São Paulo, a colônia italiana era tão forte que chegou a existir mais de 30 jornais em língua italiana.

    Isso incentivado pelo governo de São Paulo. Com medo de a abolição da escravatura causar uma crise de mão-de-obra na lavoura, o estado garantia a hospedagem de imigrantes italianos por três semanas, até que conseguissem um emprego.

    “Existe, inclusive, um episódio pouco explorado. Em São Paulo houve uma espécie de abolicionismo insurrecional. Um ex-escravo baiano chamado Luiz Gama foi para São Paulo, tornou-se advogado, brigou nos tribunais pela causa abolicionista e ajudou a fomentar fugas em massa”, lembra Ricupero.

     

    Italiano proibido

    Na Segunda Guerra Mundial, o incentivo aos italianos mudou: falar o idioma da terra natal passou a ser proibido. Já na unificação do país, famílias se dividiram aos ideais do Bourbon e da monarquia.

    “A história de toda imigração, até da africana forçada, é pronfundamente humana, de pessoas humildes, sem historia”, diz Ricupero.

    Um grande público compareceu  à Biblioteca Nacional, entre eles o Cônsul da Itália, Umberto Malnati, e vários imigrantes italianos. Ao fim das palestras, várias pessoas agradeceram e contaram suas experiências, lembrando, inclusive, os problemas que imigrantes enfrentam hoje ao visitar países da Europa e os Estados Unidos.

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