Pelo Brasil do século XIX

Último episódio de série exibida na TV Senado mostra a imagem do Brasil sobre a perspectiva de naturalistas europeus. Produção conta com depoimentos de historiadores

Déborah Araujo

  • Retrato do chefe indígena Munduruku feita por Hercule Florence durante a Expedição Langsdorff (Divulgação: TV Senado)Povo alegre, festivo, preguiçoso, leviano, tosco, atrasado. Estes eram alguns dos termos usados por viajantes estrangeiros para descrever o jeito dos brasileiros na época da Colõnia e do Império. Desde o século XVI, naturalistas de passagem pelos trópicos escreviam relatos sobre o clima, doenças e a precária infraestrutura, além de destacar a beleza natural da fauna e flora, assim como a hospitalidade dos moradores. Essa perspectiva estrangeira sobre o novo mundo foi captada por quatro episódios da série Brasil no olhar dos viajantes, exibida pela TV Senado ao longo de um ano, e que chega ao fim neste sábado (7).  Para fechar com chave de ouro, o último capítulo tem como tema duas importantes expedições em direção ao interior do Brasil, no século XIX: a Missão Austríaca (1817 a 1820) e a Expedição Langsdorff (1821 a 1829).

    A expedição que leva o nome do médico alemão Georg Heinrich von Langsdorff, então cônsul da Rússia no Rio de Janeiro, começou em território fluminense, na Fazenda Mandioca, e seguiu até Belém, no Pará. Artistas, botânicos, naturalistas e cientistas fizeram parte da empreitada, que produziu mais de duas mil páginas de anotações manuscritas, além de diários, desenhos, aquarelas e cartografias. O acervo de Langsdorff ficou perdido na Rússia até 1930, quanto foi encontrado nos porões do Museu do Jardim Botânico de São Petersburgo. Mas foi somente três décadas depois que um brasileiro teve acesso a essas obras, já em posse da Academia de Ciência da ex-capital russa. Seu nome era Dom Clemente Maria da Silva Nigra, um monge e sábio beneditino .

    Hoje, muitas informações sobre a expedição estão disponíveis na Biblioteca Brasilianas, da Universidade de São Paulo, um dos locais em que os produtores do documentário realizaram a pesquisa iconográfica para a série. Tarefa que demorou cerca de dois anos e foi realizada em arquivos e bibliotecas de várias cidades do mundo. A produtora Lorena Maria e Silva comenta que está satisfeita com o resultado. “O que podemos concluir desse processo da pesquisa é como nossa história está dispersa e pouco organizada. Mesmo dentro das fontes nacionais, o sistema de pesquisa não é simples para alguém que não seja da área. Mas se muitas vezes nos frustramos por não encontrar nada sobre determinado viajante ou não ter autorização para usar um material, a alegria era imensa quando encontrávamos algo raro”, afirma.

    Outra aventura que ganha destaque no último episódio do programa é a Missão Austríaca, que chegou ao Brasil em 15 de julho de 1817, acompanhando a arquiduquesa Leopoldina da Áustria, noiva do então príncipe regente Pedro de Alcântara, mais tarde Imperador do D. Pedro I. A vinda de cientistas, botânicos, zoólogos e artistas europeus muito se deve à da própria imperatriz Leopoldina, que tinha interesse pelas ciências naturais e pelas artes.

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    Os naturalistas Karl Philip von Martius e Johann von Spix lideraram a missão, que iniciou com o reconhecimento das regiões circunvizinhas do Rio de Janeiro e depois partiu para São Paulo. Nos três anos seguintes, eles também passaram por Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Piauí, Maranhão e Pará.

    O capítulo deste sábado conta com entrevistas com os especialistas Dirceu Franco, Karen Macknow, Ronaldo Vainfas, Paulo Knauss e Carlos Martins. Além de dados sobre ambas as expedições, a equipe de pesquisa encontrou fotografias raras do naturalista suíço Louis Agassiz, que liderou a expedição norte-americana Thayer (1865-66). Hoje, o material está no acervo do Peabody Museum, na Universidade de Harvard (Cambridge, Massachusetts, Estados Unidos).

    Após a estreia do quarto episódio, às 21h30, na TV Senado, o público pode revê-lo na internet, no site do Senado, assim como fazer download dela e demais produções da equipe. Os quatro episódios da série também serão disponibilizados no canal da TV Senado no YouTube.

     

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