Entre quatro paredes

Biblioteca Fazendo História discutiu a privacidade dos brasileiros nos tempos do Império. A noção de intimidade surge e se desenvolve paralelamente ao conceito de família que, no século XIX, é moldado pelo sistema escravocrata

Gabriela Nogueira Cunha

  • "A vida privada deve ser murada." A afirmação, do historiador francês Georges Duby, norteou parte dos estudos da brasileira Mariana Muaze, da UNI-Rio, que esteve nesta terça-feira, 19, debatendo a “Vida Privada no Império” ao lado do professor Roberto Guedes Ferreira, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, no primeiro Biblioteca Fazendo História de 2013. O evento tratou da intimidade dos brasileiros e das mudanças que o conceito de privacidade sofreu ao longo do século XIX, numa época em que família podia ser vista até mesmo como negócio.

    O tema da vida íntima e privada nunca foi o preferido entre os historiadores. Apenas em meados do século XX, quando a historiografia começou a flertar com a sociologia e a antropologia, que pesquisas deste tipo tiveram início. Daí o principal problema enfrentado por nossos debatedores: as fontes. Ao passo que Mariana Muaze se debruçou sobre cartas e álbuns de fotografias, Roberto Guedes partiu para o estudo de testamentos e inventários post-mortem. E assim suas teses se desenharam.

    Mudança de hábitos

    Muaze defendeu a teoria de que o conceito de público e privado foi sendo modificado aos poucos, a partir da inserção de novos hábitos e costumes sociais. “Com os novos hábitos civilizados, tanto as relações com o próprio corpo [como de higiene pessoal], quanto a forma de se portar em sociedade, foram sendo alteradas, nas esferas pública e privada.” Ela falou, ainda, sobre o surgimento do sentimento de amizade: “amigo era aquele que podia usufruir da sua esfera privada. Quando se criava uma série de intimidades e compartilhamento de segredos, que antes não se tinha.”

    Relações de intimidade, segundo ela, são facilmente reconhecidas através do estudo de documentos como cartas, diários pessoais, cadernos escolares e fotografias. “As fotografias, que passaram a circular em profusão no século XIX, com dedicatórias aos amigos íntimos e familiares eram uma forma de sociabilidade e construção de redes de amizade.” O grande quebra-cabeça é saber quem era merecedor, ou não, de estar presente nos álbuns de família. 

    Sociedade escravocrata

    Para Roberto Guedes, “é impossível falar de família sem falar da escravidão, que moldava todas as formas de relações daquela época".  Os padrões sociais “civilizados” importados da Europa, por exemplo, chegavam por aqui distorcidos, pois tinham de se ajustar à realidade de nossa sociedade escravocrata.

    “No século XIX, quando o Estado era fraquíssimo, a família se tornou-se central na vida das pessoas e de seu cotidiano”, continua Guedes, que defende um conceito de família diferente da tratada pela historiografia tradicional. Sua pesquisa passou por testamentos, inventários post-mortem e registros paroquiais de batismo, revelando um novo tipo de relação interpessoal, mais comum do que se imaginava: “uma maneira de entender a família era que existiam as famílias legítimas, mas também existiam os filhos legitimados [bastardos]”. Desta forma, ele percebe que os homens, de fato, reconheciam seus filhos fora do casamento, os filhos com as escravas da senzala, etc. Existiam, portanto, laços que iam além da família patriarcal tradicional. Porque o que se faz entre quatro paredes pode ser, sim, da conta de outras pessoas.

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