Dos dirigíveis aos jatos

Pesquisadores discutem a origem dos aviões. Entre erros e acertos, debate trouxe panorama da evolução da aviação mundial

Janine Justen

  • BFH discute erros e acertos da aviação mundial.Irmãos Wright ou Santos Dumont? Esta é a pergunta que rodeia a maioria das discussões quando o assunto é a invenção do avião. Mas para Mauro Lins de Barros, consultor aeronáutico e autor de Xavante: o guerreiro da FAB, “não precisamos nos prender em pequenas picuinhas, já que o fato em si é muito mais rico do que isso”. Para ele, o sonho de voar sempre existiu nos corações dos homens, encontrando lugar cativo na mitologia, em fábulas e lendas. “A invenção do avião foi uma conquista da humanidade”, salienta.

    Entretanto, Henrique Lins de Barros, professor do Instituto Carlos Chagas e autor de Santos-Dumont e a invenção do voo, faz questão de defender o seu biografado: “Logo em 1905, a Federação Aeronáutica Internacional não reconheceu o voo dos norte-americanos”. Segundo o professor, para ter validade oficial, o voo precisava ser anunciado com antecedência, realizado em público e, ainda, apresentar condições suficientes para posterior reprodução. “O voo dos Wright foi anunciado por telegrama, já depois do acontecido. Não vale. Sem contar que após sua reconstrução, em padrões idênticos aos originais, não foi capaz de sair do chão. Para mim, em 1906, com o 14 Bis, Santos Dumont inventou o avião”, argumenta.

    Os dois participaram do Biblioteca Fazendo História (BFH) deste mês, cujo tema era “Aviação, erros e acertos”.  O evento, que aconteceu nesta terça-feira (21), no auditório Machado de Assis da Biblioteca Nacional, trouxe um panorama da história dos aviões, dos primeiros voos, ainda bastante rudimentares, às robustas aeronaves da contemporaneidade. Os irmãos Lins de Barros mostraram a trajetória do progresso da técnica, da adequação e das transformações sofridas pela aviação no Brasil e no exterior ao longo do tempo.

    “Os inventores acreditavam que era preciso fazer uma força generalizada para cima na decolagem, o que é natural. Mas hoje, com conhecimento científico avançado, sabemos que essa força fica apenas na asa e não no bico do avião, o que confere estabilidade. E isso não é nada trivial, pelo contrário, é extremamente sofisticado”, explica Henrique. Para  ele, a história da aviação se deu em um processo lento e gradual, sendo, portanto, extremamente associado ao método de tentativa e erro.

    Avanços notáveis vieram com a Primeira Revolução Industrial, na Inglaterra, quando motores a vapor possibilitaram o desenvolvimento da mecânica de fluidos e a descrição de forças básicas, como peso, sustentação, tração e arrasto. “Os estudos se baseavam em análises comparativas entre as musculaturas humana e das aves. Coisa de visionário”, comenta o consultor aeronáutico. Mas para ele, o grande erro da aviação também vem desse período. “Em 1896, Otto Lilienthal, que realizou mais de 2 mil voos, de até 250m de distância, cai de sua aeronave, quebra a bacia e morre. Uma pena. Ele foi um ícone para a nossa história”, lamenta. Lilienthal é conhecido como o “pai do voo planado” e foi o primeiro a manejar um artefato aéreo mais pesado que o ar.

    Quanto à participação brasileira nessa empreitada, o destaque é ímpar: de Bartolomeu de Gusmão, que construiu um balão de ar quente ainda em 1709, à criação do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) e do Centro Técnico Aeroespacial (CTA) em meados dos anos 1950. “A investida no ensino especializado talvez tenha sido nosso maior acerto”, indica Mauro de Barros. “Éramos um país fortemente voltado para a agricultura e, mesmo que sem o registro sobre a invenção de Santos Dumont, poucas foram as iniciativas de produção de maquinaria e transmissão de conhecimento técnico”, completa.

    Segundo o consultor, esse foi o sinal de maturação da indústria aeronáutica nacional. “Começamos com aviões de combate, no contexto da Segunda Guerra, e com os polos de tecnologia, atingimos a maturidade. Hoje, somos o terceiro maior produtor de jatos comerciais do mundo", aponta Mauro. Para Henrique de Barros, “o problema da aviação hoje não está nas aeronaves, mas nos aeroportos”. “As cidades cresceram demais e, seus habitantes, em igual proporção. Os aviões acompanharam, mas, a infraestrutura das cidades, não”, conclui.

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