Conversas com Beatriz Sarlo

Em passagem pelo Brasil, a crítica cultural aceita a companhia de jornalistas da RHBN, em meio às palestras, no Festival de História. Mídia, passado, política, música e literatura estiveram em pauta, entre café e cigarros

Alice Melo

  • Beatriz Sarlo participou do Festival de História, em Diamantina / Foto: Alice MeloBeatriz Sarlo se diz uma pessoa tardia. Durante 20 anos, permaneceu afastada da Academia – se contar desde a data de sua graduação em Literatura ao dia em que retorna à Universidade de Buenos Aires, já como professora, no fim dos anos 1980. Em uma conversa informal, à mesa de um restaurante árabe na pequena cidade de Diamantina, a crítica cultural se recorda da primeira turma em que deu aula e conta que passou maus bocados: “Não sabia como aplicar uma prova. Tive que me lembrar como meus professores faziam há muito tempo”. Hoje, emérita da UBA, é fácil perceber que se adaptou.

    Educada em um colégio britânico, Sarlo fala inglês fluente desde pequena, assim como o francês, que aprendeu em casa. Mas foi quase aos 60 que se empenhou a aprender alemão – idioma que lê perfeitamente, apesar de garantir que fala muito mal. “Brinco que as palavras saem como uma tosse”. Pequena e delicada, tem uma sensibilidade linguística incomum. Ao bebericar uma pequena xícara de café sem açúcar durante uma conversa que começou com hipóteses sobre o ensino básico nas escolas e chegou à música popular brasileira, ela interrompe o assunto ao estranhar uma pronúncia. “Se diz Elís e não Êlis?”. Quando afirmamos que sim, uma surpresa. Mas confessa que tem problemas em distinguir os fonemas do português. Quando voltávamos ao hotel no banco de trás de uma van que subia aos solavancos as ladeiras íngremes da cidade, perguntei se percebia a diferença entre avô e avó. Depois de me fazer repetir, sorriu: “É impossível!”. Mas notou com perspicácia a existência de um acento circunflexo.

    “Os intelectuais brasileiros entendem castejano com perfeição”, diz carregando no sotaque argentino. E se lembra de uma história: “Nos anos 1980, fui à Campinas para um seminário, onde encontrei Antônio Cândido, a quem eu tinha uma grande admiração. Passei três dias conversando com ele em castelhano perfeito”. Quando o assunto da língua veio à tona, o historiador brasileiro comentou: “Beatriz, você não me deu nem bom dia em português”. Sem jeito, ela leva as mãos à cabeça e olha para baixo sorrindo: “Eu não sabia o que fazer! Fiquei muito envergonhada”.

    Na manhã anterior, quando a entrevistávamos para a Revista de História, ela contou - entre longos tragos em um único cigarro encaixado na piteira negra – que, aos 16 anos, mesmo sem saber nada de linguística, reparou que, por ter estudado em uma escola britânica de elite, não tinha sotaque portenho, apesar de ser da periferia. À ocasião, ela integrava a juventude peronista e não queria parecer ser de uma classe alta, devido à forma que vivenciava a língua. “Passei a falar com um linguajar chulo de propósito”, comenta.

     Entrevista com a intelectual argentina será publicada, em breve, na Revista de História / Foto: Alice MeloNa mesma conversa, Beatriz contou que também foi tarde em que se dedicou inteiramente aos três “B” de sua vida. Precisou ter uma formação sólida marxista para entender exatamente o pensamento de Roland Barthes – autor que considera fundamental e que teria preparado o terreno para compreender a obra de Walter Benjamin. Com Borges, teve uma relação à parte.

    “Nenhum argentino chega a Borges. Borges está em todo lugar. É como perguntar para um brasileiro como chegou até Pelé ou Machado de Assis”, ironiza, em conferência no Festival de História. Mas daí a se dedicar com densidade a ele, é um pouco diferente. Quando jovem, integrou um grupo de resistência (comunista maoísta) à ditadura e desprezava o conservadorismo do escritor. Razão pela qual se recusou a conhecê-lo, quando estava vivo. Mas deu o braço a torcer quando percebeu que ele teceu uma teoria social sobre a Argentina em seus escritos, ideia desenvolvida no livro Borges, um escritor na Periferia. Em Borges, existem dois homens: escritor e o personagem.

    Entre os goles de café, me perguntou o que estudo. Passamos a conversar sobre digitalizações de periódicos e as notícias na web, assunto pelo qual se interessa. Ela conta que acompanha os grandes jornais brasileiros, assim como a imprensa europeia e norte-americana. Colunista do jornal de oposição ao governo Kirchner, La nación, se interessa pela forma de manipulação da informação e também especula sobre o que será das redações neste contexto cibernético em que notícia paga é, praticamente, notícia não lida. “Se eu fosse jovem hoje, estudaria o futuro do jornalismo na internet”. E apoia a decisão de algumas revistas mensais, como a Piauí, e mesmo a RHBN, de liberar o conteúdo impresso um mês depois de publicado. “Agora, com jornais diários é outra história”.

    Guinada subjetiva

    Sarlo visitou o Brasil muitas vezes. A primeira foi nos anos 1960, quando, acompanhada de três amigos argentinos, subiu o rio Paraná numa balsa que transportava toras de madeira. O destino? Brasília, cuja arquitetura modernista a encantava. Antes, passou por Rio, Belo Horizonte, Sabará. Com uma mochila nas costas e pouco dinheiro na carteira, se alimentou de bolinhos com recheio não identificado e rodelas de abacaxi. Anos mais tarde, iria de ônibus de Buenos Aires até o Maranhão. Em 2005, participou da Feira Literária de Paraty e, em 2011, da Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo. “Eu falava que nós, argentinos, tínhamos que aprender a fazer eventos como no Brasil”, comenta em outra conversa, no hall do hotel em que estávamos hospedados. “Em Passo Fundo, que é uma cidade muito pequena, pensei que não ia dar em nada. Mas as pessoas iam chegando, iam chegando e enchia. Uma coisa enorme, uma monumentalidade brasileira”.

    Em conversa com leitores, Sarlo fala sobre seu livro 'Tempo passado' / Foto: Alice MeloEm Diamantina, Beatriz caminhava sob sol quente sem perder a elegância, sempre com uma pequena câmera em punho. Vestindo um blazer cinza de lã, uma blusa preta de malha, calça jeans e uma bota de couro -- que a elevava alguns centímetros de seus 1,54m de altura -- fotografava a “cidade museu”, como chegou a descrever o município durante um bate-papo com leitores, no mercado central. Explica a dicotomia do nosso presente “prolongado, que não reconhece a história, mas que a utiliza como museu, como consumo”. “Vivemos em um tempo em que se vive numa mescla entre passado e presente que se converte o passado em museu. Isso acontece com todos nós. Eu mesma estava esta manhã tirando fotos como louca aqui, da cidade, pensando que depois eu tenho que escrever e vou escrever a partir das fotos... Acontece com todos, é um problema nosso”, analisa.

    Na conversa, apresentou seu livro Tempo passado: cultura da memória e guinada subjetiva, traduzido recentemente e publicado em português. Em 2003, quando estava na Alemanha com uma bolsa de estudos, pensou em escrever um livro de memórias sobre como a política havia atravessado sua vida – a qual a abrevia como “desastrosa e longa”. Mas mudou de ideia no meio do caminho, não se sentia seduzida em escrever em primeira pessoa. Com receio do que viria pela frente, decidiu comunicar ao diretor do Instituto de Estudos Avançados de Berlim que, em seis meses, não escrevera sequer uma linha.

    O chamou em seu escritório, que estava cheio de autobiografias deste mesmo período e relatou, com o peito apertado: “Comecei a ler esses livros e cheguei à conclusão de que não é isso que eu quero fazer, já há livros fascinantes sobre isso, muito melhores do que eu possa escrever e não quero agregar mais um a esta pilha”. O acadêmico alemão concordou com a mudança, a apoiou. “Naquele mesmo instante, me senti na liberdade de mudar o projeto, para um livro em que se pergunta sobre as dificuldades da primeira pessoa, da autobiografia e do testemunho. Esse livro saiu de um pacto não cumprido, de um momento no qual alguém retrocede e, por que retrocede? Não porque pune o olhar subjetivo, uma obra de reflexão sobre a memória. A guinada subjetiva é um livro testemunhal, mas é um testemunho teórico. E é aí que eu posso acrescentar alguma coisa”.

    Dever de memória

    Além da conversa sobre o livro, Beatriz Sarlo participou de uma conferência, no Festival de História. Se propôs a falar sobre o dever de memória, essa necessidade que insurgiu no mundo principalmente após o Holocausto, quando as vítimas que sobreviveram tinham a necessidade de contar o que havia sucedido com elas, mas sentiram dificuldade de encontrar uma escuta. E, na América Latina, ocorreu principalmente após a derrocada dos regimes autoritários. Para falar de testemunho, usa como exemplo a Argentina. E diz que a repressão ferrenha ao nome e à figura de Perón talvez tenha feito com que ele se tornasse um mito, reforçando seu poder nas décadas seguintes.

    Sarlo explica o mais complexo em linhas claras, se fazendo entender a qualquer público. Mesmo sendo uma das maiores críticas culturais da América Latina, é simples, extremamente analítica e precisa. No início de 2014, publicaremos uma longa entrevista que realizamos com ela, na edição impressa da Revista de História.

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