Carnaval à italiana

Introdução de confetes e marchinhas inspiradas na música italiana deram novos ares ao carnaval

Pedro Paulo Malta

  • O carnaval brasileiro, que bebeu tanto de fontes portuguesas e francesas quanto das romanas e venezianas, teve pelo menos uma contribuição fundamental nascida na Itália: o confete, que importamos no fim do século XIX do carnaval de Nice, é verdade, mas que foi inventado em Roma, inicialmente como pastilhas açucaradas que eram atiradas no meio da farra. No cancioneiro carnavalesco, pelo menos duas marchinhas de sucesso foram livremente “inspiradas” na música italiana: primeiro em 1934, quando Lamartine Babo escreveu Ride palhaço, caricaturando a ópera I pagliacci, de Ruggero Leoncavallo. Depois em 1948, quando Roberto Martins e Ary Monteiro assinaram Cadê Zazá, toda em cima da canção napolitana Dove sta Zazá.

    Mas sucesso imbatível mesmo foi o de Volare (Nel blu dipinto di blu), composição romântica de Modugno e Magliacci, que só no Brasil teve 50 regravações a partir de 1958: de Sivuca a Lenny Eversong, passando por Cauby Peixoto, Dolores Duran, Paulo Moura e Jerry Adriani. Depois vieram Estate (Bruno Martino e Bruno Brighetti), desde 1977 no repertório de João Gilberto, e E po che fa (Pino Daniele), que ganhou versão de Nelson Motta e, rebatizada Bem que se quis, foi o primeiro sucesso de Marisa Monte, em 1989. Na década seguinte foi a vez dos “discos italianos” de Jane Duboc (Brasiliano, 1992), Renato Russo (Equilíbrio distante, 1995), Zizi Possi (Passione e Per amore, ambos de 1998) e Caetano Veloso (Omaggio a Federico e Giulietta, 1999).

    No entanto, o campeão brasileiro dos “discos italianos” é Roberto Carlos, que de 1968 a 88 lançou um total de treze, entre compactos e LPs. Tudo graças a seu desempenho no Festival de San Remo de 1968, do qual saiu vitorioso como intérprete da romântica Canzone per te, de Sergio Bardotti (1939-2007) e Sergio Endrigo (1933-2005). Roberto, que naquela época ainda estava mais para os embalos da Jovem Guarda do que para o cantor romântico mais popular do Brasil, veria em seguida dezenas de suas músicas lançadas na Itália em versões de Cristiano Malgioglio, Daniele Pace ou Sergio Bardotti, como Io te darei il cielo, La donna di un amigo mio eAmico. Bardotti fez também as versões italianas de composições de Vinicius de Moraes (como Se tutti fossero uguali a te, Samba delle benedizioni e La casa) e Chico Buarque (Rotativa,Samba e amore e Sogno de un carnevale).

    Já no caso da peça infantil Os saltimbancos, coube a Chico atuar como autor das letras em português para originais de Bardotti e Luiz Enriquez Bacalov (1933-), que em 1976 lançaram na ItáliaI musicanti (baseado na fábula Os músicos de Bremen, dos irmãos Grimm), mas sem sucesso. No ano seguinte, não foi o que se viu no Brasil, onde o musical do quarteto de bichos que se levanta contra a tirania de um barão teve casa lotada desde a estreia, no Canecão, no Rio de Janeiro. Respeitosa às melodias e aos arranjos originais, a versão brasileira acabou importando entre as treze faixas o hino dos carabinieri (carabineiros italianos), cujo tema é citado no fim de Um dia de cão. Além do teatro, o musical adaptado por Chico Buarque fez sucesso também no cinema, com Os saltimbancos trapalhões, de J.B. Tanko, estreado em 1981. Com 5.218.478 espectadores, a comédia estrelada por Didi, Dedé, Mussum, Zacarias e Lucinha Lins é até hoje uma das maiores bilheterias do cinema nacional em todos os tempos.
     

    *Pedro Paulo Malta é jornalista.

     

    Confira mais sobre Italianos no Brasil na edição deste mês da Revista de História, que já está nas bancas!

     

Compartilhe

Comentários (0)