Um banheiro e um violão

Histórias de João Gilberto em Diamantina divertem moradores até hoje, enquanto sua ex-casa, transformada em imobiliária, vira ponto turístico paralelo da cidade

Felipe Sáles

  • Fachada da casa onde João Gilberto morou com sua irmã: ponto turístico 'escondido' de Diamantina. Fotos: Felipe SálesNuma espaçosa casa no Centro de Diamantina, em frente ao hoje Mercado Velho, o engenheiro-chefe da companhia de obras de Minas Gerais, Péricles Rocha de Souza, recebia um médico e amigo durante uma noite amena da cidade. Entre uma prosa e outra, o doutor sentiu um cheiro estranho vindo do quarto ao lado. Tabagista inveterado, foi lá conferir que cigarro era aquele usado pelo jovem João, então com 25 anos, que acabara de sair do Rio de Janeiro em busca de - ainda mais - reclusão no interior mineiro, ao lado da irmã e do cunhado. O músico, quietinho e malandro, ofereceu um trago sem revelar ao médico que aquilo era maconha.

    “’Lembro que o cheiro era bom. Dei uma pitada, e não é que era bão, mesmo, ?’”, contou o doutor, muitos anos depois, ao seu filho Américo Antunes, morador de Diamantina e responsável pela coordenação do Festival do História realizado entre os dias 7 e 12 de outubro pela Revista de História da Biblioteca Nacional. Só então o médico descobriu, por seu filho, a substância que lhe fora oferecida.

    Está é apenas uma das histórias de João Gilberto que circulam por Diamantina, onde o músicou desembarcou em 1955 e, entre idas e vindas – por conta de mudanças nas obras da rodovia que o cunhado administrava – ficou cerca de nove meses na cidade, de onde saiu em 1957 para entrar para a história da música brasileira. Apesar de manter seu famoso comportamento recluso e discreto – evidente desde sempre –, há relatos de que João também curtiu algumas serestas em casas de amigos e até frequentou alguns clubes da cidade.

    “Diamantina foi fundamental, mesmo, ao proporcionar a ele um ambiente tranquilo e sossegado para compor. Fiz mais de 40 entrevistas, e vários disseram ter ouvido dele: 'vocês ainda vão me ouvir no rádio e na TV. Ainda vou fazer muito sucesso'. Isso deixa evidente que João Gilberto sempre soube muito bem o que estava estudando e pretendendo fazer”, conta o pesquisador e músico Wander Conceição, que está produzindo um livro, de modo independente, sobre as influências da cultura mineira na “invenção” da Bossa Nova.

     

    Um banheiro e um violão

    Foi naquela casa, segundo Wander, onde ressoaram os primeiros acordes da Bossa Nova. Ex-moradores contam que o músico gostava especialmente da acústica do banheiro - que, porém, foi diminuído por uma reforma há cerca de 20 anos. Mas o espaço conta com um cubo de 2,30 metros de aresta, no meio da residência, que concedia a João a acústica perfeita para exercitar a nova batida.

    Lá, passava horas testando sons vocais e no violão – para desespero da vizinhança, já que um “plim-plim-plim interminável” e “sem sentido” se espalhava por toda a construção de madeira.

    “Por que insistia em tocar violão de madrugada, numa nota só, que nem um araponga?”, criticava uma vizinha.

     

    Imobiliária turística

    Desde que a história veio à tona, vez ou outra aparece um turista querendo sentar no vaso sanitário mais célebre da região. Até uma televisão japonesa já esteve por lá. O dono do imóvel, José Walter da Silva, conta que comprou a casa em 1981 de uma congregação religiosa local, mas nunca deu muita importância às histórias sobre João Gilberto. Até que, diante do sucesso, tentou transformar o andar de cima na Pousada João Gilberto, mas o empreendimento acabou não indo à frente – nem a tentativa de obter autorização oficial do músico para usar seu nome.

    Wander Conceição pesquisa as influências mineiras na Bossa Nova“Eu sabia por alto da história, mas comprei o imóvel exclusivamente pensando em sediar minha imobiliária. Agora, o banheiro ficou famoso. Outro dia mesmo veio um alemão e pediu para sentar no vaso. A gente ri, né, mas já nos acostumamos. Entendemos que faz parte da história, e nos divertimos com isso”, conta Walter.

    Ainda assim, não há qualquer indicação da importância do espaço para a história da música brasileira. Walter conta que funcionários da prefeitura já o procuraram para instalar um marco no local, mas o projeto ficou só no papel.

    Enquanto isso, Wander Conceição mantém suas pesquisas estagnadas por falta de patrocínio.

    "O livro tomou tamanha dimensão que preciso me aprofundar mais no assunto, e para isso preciso de recursos para fazer pesquisas, ir ao Rio de Janeiro e entrevistas mais pessoas”, lamenta.

     

    Documentário 'João, meu amigo'

    Nas redes sociais RHBN, o leitor Michel Becheleni avisou que dirigiu um documentário sobre o processo de lapidação da Bossa Nova em Diamantina. O vídeo, produzido durante o 43º Festival de Inverno de Diamantina, você confere abaixo.

     

     

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