As conexões Brasil e Bulgária

Assim como aconteceu com outros lugares do mundo, país do leste europeu também assiste a protestos por melhores condições de vida

Georgi Kantchev *

  • Multidão protesta nas ruas da capital da Bulgária, Sofia.Foto: Saprotiva (Resistance) websiteNão há voos diretos entre Brasil e Bulgária. A maioria dos viajantes faz esse trajeto via Paris, Londres ou Frankfurt. Esse ano, porém, uma onda de protestos abriu uma conexão direta entre os dois países.

    Os brasileiros estão desculpados se não souberem muito sobre essa nação do leste europeu de 7,2 milhões de pessoas além do fato de ser o país onde nasceu o pai de Dilma Rousseff. Porém, podem encontrar muitas familiaridades nos problemas contra os quais os búlgaros estão nas ruas protestando.

    Para falar a verdade, estas não são as primeiras manifestações deste ano. Em fevereiro, multidões revoltadas usaram muito mais violência em protestos contra o aumento das contas de serviços públicos e a pobreza geral. Sete pessoas atearam fogo nelas mesmas, sendo que seis desses casos terminaram tragicamente. Como resultado, o governo conservador pediu demissão e eleições adiantadas foram realizadas no dia 12 de maio.

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    A nova administração, uma coalizão comandada pelos socialistas, não teve qualquer facilidade e parece cada vez mais efêmera. Nas últimas duas semanas, todas as noites às 18h30, dezenas de milhares de pessoas se juntam no centro de Sofia, a capital da Bulgária, assim como nas maiores cidades do país para protestar contra o governo, contra a corrupção e o compadrio. Esses protestos, porém, são diferentes daquele que ocorreu no início do ano. Porque são mais pacíficos em sua natureza e porque a maioria dos manifestantes são membros da classe média, incluindo família com crianças, atores e músicos famosos.

    O que detonou as passeatas foi uma indicação controversa para o gabinete de Estado: Delyan Peevski, um magnata da mídia de 32 anos, nomeado pelo governo e escolhido pelo Parlamento para chefiar a poderosa agência de segurança nacional Dans. Peevski controla o principal império de comunicação na Bulgária, que consiste em vários jornais de grande circulação, canais de TV populares e sites de notícia. Todos estes meios trocam normalmente de alianças políticas, de acordo com quem está no poder. O resumo da carreira política de Peevski é igualmente controverso: depois de passar dois anos como ministro suplente no governo socialista anterior, ele foi despedido em 2007 e processado por extorsão e corrupção. Acusações das quais foi, ao fim dos processos, absolvido.

    O fato é que, sob pressão dos manifestantes, o governo rapidamente mudou de opinião. Mas essa mudança não alterou a atitude da Rua, como os búlgaros chamam as massas de protesto. A Rua agora tem um novo objetivo: remover um governo que é considerado corrupto e incompetente. E muitos analistas acreditam que, em poucos dias, pode se agendar uma nova eleição para os próximos meses.

    Credito:_Kozzmen Creative Commons BY NC ND_Enquanto o alvo é a atual administração, a razão mais profunda por que tantos estão desiludidos na Bulgária está tanto na atual situação do país, quanto na sua história recente. Tendo passado quase meio século sob a influência soviética, em 1989, a Bulgária rompeu com seu passado comunista. O que se seguiu foram anos de uma dolorosa transição marcada por uma crise financeira e social. Muitos emigraram para a Europa Ocidental e aqueles que saíram viram seus padrões de vida estagnarem, na melhor das hipóteses.

    O novo milênio viu a Bulgária se abrir para o Ocidente e, com isso, novas possibilidades apareceram para o país. Porém mesmo após entrar na Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) em 2004 e na União Europeia (UE), em 2007, a Bulgária permaneceu um país relativamente pobre (tem a mais baixa renda per capita da UE) e muito corrupto (é o segundo mais corrupto na UE, atrás da Grécia, de acordo com a Transparência Internacional).

    Mesmo que os atuais protestos na Bulgária precisem ser colocados em suas perspectivas locais, eles têm, na verdade, muito em comum com as manifestações do Brasil e da Turquia. Todos seguem o mesmo padrão: o estopim foi um problema relativamente local, seja o preço das tarifas no Brasil, um shopping center na Turquia ou o preço da eletricidade na Bulgária. Em seguida, se transformaram em eventos maiores de descontentamento sobre condições de vida, sejam físicas ou baseada em valores. E, finalmente, um movimento sem líder logo emerge, unido pela juventude, Facebook e a necessidade de uma mudança. O voo direto entre Bulgária e Brasil está pronto para partir.

    * Georgi Kantchev é jornalista do International Herald Tribune, a edição global do The New York Times

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