A todo vapor

Projeto realizado pelo Museu Imperial discute o passado e o presente da inativa Estrada de Ferro Príncipe do Grão Pará, que ligou o Rio à Petrópolis do fim do século XIX até a década de 1960

Alice Melo

  • No Porto de Mauá, passageiros desembarcam das barcas e pegam o trem / Imagem: Acervo Museu ImperialDentro, fotografias em preto e branco desgastadas pelo tempo revelam o trem em plena atividade. Fora, no pátio coberto, a Maria-Fumaça restaurada dá uma melhor dimensão ao observador do presente sobre um dos principais meios de transporte coletivo que ligou o Rio de Janeiro à Petrópolis, durante 81 anos, até 1964. A Estrada de Ferro do Grão Pará, que hoje está no centro de um debate sobre uma possível reativação, é também tema do Projeto Petrópolis 2012, uma iniciativa do Museu Imperial que vem discutindo aspectos do passado do município com estudantes matriculados em escolas públicas e particulares da cidade.

    O projeto funciona há dez anos e, a cada biênio, conta com um almanaque ilustrado que serve de material de apoio para as conversas – no final da atividade, ele é levado para casa tanto pelos professores que acompanham as turmas, quanto pelos próprios alunos. “Neste ano, escolhemos a história da ferrovia, já que o assunto está sendo muito comentado na cidade. Muitos jovens não conhecem esse passado e alguns nunca andaram de trem. Queremos recuperar a importância histórica da linha férrea, trabalhar a valorização, fazer com que eles se interessem mais pelo assunto”, conta Regina Resende, coordenadora do setor de educação do museu.

    Ela explica ainda que o projeto se desenvolve em três etapas, sempre dedicado a turmas do quarto ao sétimo ano do ensino fundamental. A primeira delas consiste na exposição de imagens históricas do acervo – neste momento, as crianças veem como funcionava a ferrovia durante seus primeiros anos, ainda na época do Segundo Reinado. Na segunda, outra atividade é conduzida na parte externa, quando os ouvintes tem a oportunidade de entrar em contato com um vagão de trem que trafegava pela serra de Petrópolis no passado, que fica estacionado junto a carruagens do período imperial. Logo depois, um jogo de perguntas e respostas é organizado com os alunos, para que eles fixem melhor esta história.

     

    Capa do almanaque produzido para as atividades pedagógicas deste ano, no Museu ImperialO trabalho nas escolas

    Para que o projeto ocorra da melhor forma possível, é necessário que os professores das turmas cadastradas realizem um trabalho prévio em sala, preparando as crianças para receber as informações, percebendo que o passeio é uma aula, onde o conhecimento será construído de forma diferente.

    Isso já vem acontecendo com as turmas de quarto e quinto ano do Colégio Ipiranga Ambiental, que participa da iniciativa desde a primeira edição. Cristina Ferreira, coordenadora do ensino fundamental, conta que as crianças já estão pesquisando em casa sobre a antiga estação de trem da cidade, realizando entrevistas com parentes mais velhos, recorrendo a livros e à internet.  “Quando vamos ao museu, temos que preparar o aluno para receber o que está por vir. Se não, fica uma coisa muito solta. Há uma continuidade para que eles fixem a matéria. Quando eles saem do museu, levam o almanaque para casa e depois trabalhamos com o livro em sala, como material didático em todas as disciplinas”. No fim, a pesquisa que os alunos realizaram com familiares é exposta em murais no colégio, para que outras crianças também conheçam mais da história da cidade.

    Antônio Pastori é presidente da Associação Fluminense de Preservação Ferroviária (AFPF) e conhece o projeto desenvolvido no Museu Imperial. Para ele, é fundamental que, desde jovens, as pessoas aprendam os benefícios do transporte coletivo sobre trilhos e apoiem a luta pela reativação da Estrada de Ferro do Grão Pará. “Nosso trânsito hoje é um caos na maioria da cidades, causando enormes desperdícios de tempo, combustíveis e de vida. Por isso é importante que se entenda o que representava a ferrovia no passado, assim como é importante que saibam que os trens de hoje não são mais aquelas velhas Marias-Fumaça, chacoalhando, soltando vapor e andando devagarinho, quase parando. São rápidos e úteis”.

     

    Estação de Vila Inhomirim, em 1899 / Imagem: Acervo do Museu ImperialA antiga estrada de ferro

    A Estrada de Ferro foi fundada em 1883, como extensão da Estrada de Ferro Mauá, a primeira do Brasil. Ela ligava o centro do Rio de Janeiro à Petrópolis e encurtava o trajeto da Corte serra acima em muitas horas: antes do trem, ir à cidade onde Pedro II passava o verão era uma tarefa demorada, que levava entre seis e doze horas dependendo do tempo de descanso dos cavalos. Após a ativação da linha, o tempo foi encurtado para cerca de duas horas, um grande ganho para a época.

    Pastori conta que o trem facilitou as relações entre o Imperador e os homens de negócios, além de ter contribuído para o crescimento da cidade: “Todos aqueles que precisavam manter relações políticas e de negócios com a corte vinham a Petrópolis com frequência e o trem facilitava a vida, já que podiam chegar de manhã, despachar com o Imperador ou seus Ministros, e retornar ao Rio no fim da tarde. Na verdade, muitos acabaram por fixar residências em Petrópolis, em face do excelente clima e das belezas naturais, em oposição à confusão urbana da capital do Império no século XIX”.

    Na década de 1960, quando o investimento no transporte rodoviário foi priorizado em detrimento do desenvolvimento da malha ferroviária nacional [ver RH 53 – Ferrovias], a estrada de ferro foi fechada e desmontada. Hoje, muitos trechos da antiga linha do Grão Pará estão ocupados por residências em decorrência do crescimento de municípios localizados no chamado pé da serra, como Magé.

     

    As aulas no Museu Imperial começam no dia 16 de abril e permanecem em atividade, mediante ao agendamento prévio de escolas, até 15 de junho. Os horários devem ser marcados por meio do telefone (24) 2245-7735.

     

     

     

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