À moda antiga

Com muitas histórias temperadas com uísque, a Casa Villarino, no Rio de Janeiro, chega aos 60 anos sem vontade de mudar

Vivi Fernandes de Lima

  • Ambiente interno do Villarino“Quando eu passava aqui na porta, nos anos 60, era impossível entrar. Só tinha homem! E uma fumaceira de cigarro...”, lembra Rita Nava, esposa e proprietária da Casa Villarino ou proprietária e esposa de Antonio Vazquez Alvarez. Tanto faz.  A irmã e gerente do estabelecimento, Stela Nava, explica: “é que a história do Villarino se confunde com a história do Antonio”.

    Olhando os painéis afixados nas paredes do bar, no Centro do Rio de Janeiro, fica fácil de entender essa fusão de biografias. Lá estão reproduções de documentos de Antônio da década de 1950, como a carteira de trabalho de 1955, quando ele foi empregado como copeiro, e o contrato social da casa, de 1958, quando ele virou sócio, após ter trabalhado também como garçom. Aos 83 anos, Seu Antonio ainda vai ao bar diariamente, todas as tardes. Mas não é apenas a vida do dono do Villarino que se confunde com a história da casa. Nos seus 60 anos, completados no dia 1º de junho, o bar já virou personagem de várias outras biografias, como as de Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Ari Barroso.  Por essas e outras, a casa foi reconhecida como patrimônio cultural, no fim de 2012, pela prefeitura do Rio de Janeiro.

    Segundo o historiador Antônio Edmilson Rodrigues, “o Villarino concentrou boa parte da ‘geração bossa nova’ do Rio”. “Era uma geração de intelectuais que era envolvida com a música, com os jornais. Era um lugar para se tomar uísque, uma referência bem mais sofisticada. Essas pessoas ficavam ali conversando e bebendo numa época em que a região era cercada por embaixadas, órgãos públicos, muitos escritórios de profissionais autônomos, professores... Também havia muitas livrarias por ali, e ainda era perto da Cinelândia”, diz ele.

    Hoje, segundo a gerente, o público é composto basicamente por advogados – além dos muitos escritórios de advocacia, o bar fica próximo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). O ator e escritor Haroldo Costa, que frequenta o bar desde os anos 50, lembra de outro público que frequenta o bar também pela proximidade do endereço: “Quem vai lá com mais frequência que antes é o pessoal da Academia Brasileira de Letras. Mas eu volta e meia ainda passo por lá na hora do almoço”, diz Costa, com a autoridade de quem não só frequenta o bar desde a década de 1950, mas de quem é “produto” do Villarino. Afinal, foi nesta casa que Tom e Vinicius foram apresentados em 1956 – pelo jornalista Lúcio Rangel – e iniciaram sua primeira parceria: as composições da peça “Orfeu da Conceição”, do qual Haroldo Costa veio a atuar como protagonista.

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    Testemunha do tempo áureo do Villarino, Haroldo Costa conta que existia uma espécie de “código de conduta” no bar. Havia uma mesa principal – onde hoje há uma grande foto ao fundo, com as imagens de, entre outros, Lúcio Rangel, Vinicius e seu primogênito, Pedro Moraes, ainda menino – onde ficavam os “figurões” do bar, gente da música, do jornalismo e das rádios Nacional e Mayrink Veiga. “A grande mesa era ocupada pelas estrelas. Muita gente ia lá só pra ver os famosos. Minha cadeira ficava mais afastada, mas depois foi chegando mais pra frente... e logo comecei a colaborar pra Revista da Música Popular, de Lúcio Rangel. Era um privilégio poder sentar àquela mesa”, conta Haroldo. Quanto à rotina do bar, a boemia começava cedo, ainda no fim da tarde, por volta das 17h. “Iam chegando depois do expediente e ficavam bebendo uísque até umas 8h da noite. Muita gente ia pra Zona Sul e continuava em outros lugares”.

    A gerente Stela Nava exibe uma das pasta com recortes de jornal sobre a Casa VillarinoO Villarino continua fechando cedo, às 22h, mas o fato é que ele hoje está fora dos burburinhos da boemia carioca. “Está meio deslocado do que é o centro da cidade hoje. O movimento está puxando mais pra Lapa, a região do porto e a parte mais central mesmo, como as ruas do Ouvidor e Gonçalves Dias, que abriga outra casa tradicional e bem mais movimentada, que é a Confeitaria Colombo”, ressalta o historiador Antônio Edmilson Rodrigues.

    Mas quem vai ao Villarino não procura bafafá. A grande atração do bar é exatamente esse ar dos anos 50 e 60. “Está tudo aqui, desde 1953: as mesmas mesas com tampo de mármore, as mesmas cadeiras estofadas em couro, o mesmo piso”, diz Stela, que se considera a “chefe do fã clube” do bar. Para provar, ela mostra as pastas com recortes de jornais com notícias sobre a casa, em ordem cronológica. Enquanto folheia as páginas, vai apontando: “Olha aqui o Neruda, o Sergio Porto, o Ary Barroso”, todos fotografados “à mesa do Villarino”, expressão que virou título do livro do jornalista e compositor Fernando Lobo em 1991. Nele, Lobo conta causos da casa e seus frequentadores e arrisca algumas definições para aqueles encontros ao redor da mesa. Sobre a clientela: “Éramos todos ou quase todos jornalistas de um tempo em que havia muitos jornais no Rio de Janeiro”. Sobre o bar: “As conversas aconteciam num tom de fazer passar o tempo. O Villarino era um barco à deriva. Não havia vento, pura calmaria, e os fatos se repetiam”.

    Apesar dessa exaltação de Lobo ao bar, ele não quis lançar seu livro na casa. Sérgio Cabral (o pai) em sua biografia de Tom Jobim, explica a contradição. O autor ficara, na verdade, “indignado com a atitude de um de seus proprietários que, na década de 1960, mandou pintar as paredes do Villarino a fim de apagar as sujeiras deixadas pelos clientes através dos tempos”. “As ‘sujeiras’ eram desenhos de Antônio Bandeira, Di Cavalcanti e Pancetti, os primeiros compassos musicais de Aquarela do Brasil escritos pelo próprio Ari Barroso, poemas de Pablo Neruda e Vinicius de Moraes, também escritos pelos autores, e dezenas de assinaturas dos frequentadores. O velho Antônio (...) contratou um especialista para tentar encontrar debaixo da pintura as lembranças deixadas pelos frequentadores. Em vão: a tinta verde destruíra tudo”, relata Cabral.

    A famosa foto da mesa mais nobre do bar, com Vinicius de Moraes ao centro. À sua esquerda, o jornalista Lúcio Rangel; à direita, seu filho Pedro de Moraes; de pé, o escritor Paulo Mendes CamposDepois desta tragédia à memória do Villarino tudo parece estar mesmo sendo mantido como era. Uma exceção é o menu. De vez em quando, um cliente pedia esse ou aquele prato fora do cardápio; aos poucos, esses pratos foram entrando no cardápio com o nome do cliente. Assim nasceu o Espaguete à Paulo Pires – uma criação do jornalista e professor Paulo Roberto Pires – e o Bolo de Carne à Paulo Thiago  – criado pelo jornalista e antropólogo Paulo Thiago de Mello. Mas a lista de “criações” não cresce mais. “Fechamos a lista com 60 pratos de clientes que entram na pilha de brincar de chef. Faço um rodízio desses pratos no cardápio”, garante a gerente. 

    Stela também conta que o proprietário “já recebeu mil propostas para passar o ponto comercial”. Mas os clientes cativos podem ficar tranquilos. Seu Antônio e sua família não querem saber de vender o bar. “Tem gente que fala que o Villarino parou no tempo, mas ele resiste mesmo, não vai mudar”. Ah, sim. A fumaceira de cigarro acabou, por lei. E as mulheres ganharam um espaço maior, por direito.

     

     

     

     

     

     

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