A influência das sociedades secretas na política

"Biblioteca Fazendo História" mostra como organizações como a Bucha e a maçonaria foram influentes no início da República e do Império, respectivamente

Ronaldo Pelli

  • Auditório ficou lotado com interessados sobre o tema"Hoje há uma exploração do que é secreto”. Assim o professor da Fundação de Apoio à Escola Técnica do Estado do Rio de Janeiro (Faetec) Luís Fernando Messeder dos Santos começou sua participação no debate “Biblioteca Fazendo História”, que aconteceu em um auditório lotado da Biblioteca Nacional, na tarde de terça-feira (28). Além de fazer um apanhado sobre algumas sociedades misteriosas, Luís Fernando comentou sobre a Burschenfaft, o poderoso grupo criado na Faculdade de Direito da USP. Ao seu lado, estava Isabel Lustosa, historiadora da Fundação Casa de Ruy Barbosa, que falou sobre a participação e as contradições da maçonaria no início do século XIX no Brasil.

    “Nostradamus faz um sucesso maior pós 11 de setembro”, brincou o professor, ecoando com o artigo da RHBN de junho de 2011, do professor Marco Morel, que tenta desmistificar as teorias conspiratórias que nascem junto com uma espécie de produção em série de mitos e mentiras sobre as sociedades discretas.

    Segundo Luís Fernando, uma das versões mais aceitas sobre a origem da maçonaria dá conta que ela teria aparecido primeiramente na Escócia, no século XVII, e depois ido para Inglaterra. Porém - ele conta, sugerindo se aprofundar com livros de José Castellani – os estudiosos do tema afirmam que há uma lenda remetendo a origem ao Templo de Salomão. Sobre a Burschenfaft, ou apenas Bucha, também tema de um artigo na Revista de História de junho, ele afirmou que só iria abordar o assunto pelo viés histórico, para não falar besteira.

    Professor Luís Fernando pesquisou a Bucha há mais de dez anos“Eu não acreditava na política do ‘Café com leite’, que nos ensinam no colégio, para explicar a chamada República Velha. Sempre imaginei que teria que existir algo além. Tinha que existir um pão com manteiga, algo que desse a liga”, brincou o professor, afirmando que pesquisou o tema há mais de dez anos. “Cheguei ao tema por meio de Carlos Lacerda, líder da [agremiação política] UDN, adversário de Getúlio Vargas, em um livro que ele não chegou a publicar, de 1977, com uma espécie de entrevista coletiva com seus depoimentos, em que seus próprios filhos agiram como repórter. A Bucha é mencionada em um capítulo e eu fiquei bastante impressionado.”

    O professor contou que foi a São Paulo visitar o túmulo de Júlio Frank, considerado o fundador da Burschenfaft, dentro do pátio das arcadas no Largo do São Francisco, sede da faculdade de direito da USP. “Tirei seis fotos e todas queimaram. ‘Aí tem’, disse para mim mesmo”, gracejou, afirmando que o tema suscita muita curiosidade e atrai muitas pessoas da própria maçonaria, tendo, aliás, como a própria organização maçom, uma face pública e outra voltada para o segredo.

    “A maçonaria e a bucha são esferas de sociabilidade para unir as pessoas que estariam, em caso de não existirem, espalhadas. É um fenômeno do tempo do iluminismo, liberal, onde o burguês tenta, de alguma forma, se igualar aos nobres, e que não chega aos proletários. A fraternidade é relativa”, critica.

    Entre os nomes famosos que integraram a Burschenfaft, que quer dizer “confraria dos estudantes”, ele elencou: Ruy Barbosa, o Barão do Rio Branco, todos os presidentes até 1930, com a exceção dos militares, e de Epitácio Pessoa, que foi presidente por "acidente", como ele se referiu ao fato de ele ter assumido o cargo pela morte do presidente Delfim Moreira. A Bucha atuou ainda dentro e fora de ligas nacionais, dos partidos políticos, das igrejas, e também da própria maçonaria.

    “A Bucha será na República o que a maçonaria foi no Império, mas com muito mais força”, concluiu ele.

    Isabel Lustosa é especialista na história da imprensaGrande estudiosa da história da imprensa, Isabel Lustosa começou sua palestra falando sobre a importância da maçonaria para Hipólito da Costa, fundador do “Correio Braziliense”, o primeiro jornal brasileiro. Para ela, o mais interessante sobre a influência da organização nesse período é saber que não havia solidez no pensamento político do grupo, com brigas internas entre os partidários da República, com tendências mais francesas, como Joaquim Gonçalves Ledo; e os que queriam manter o Império após independência, de ascendência inglesa, entre os quais estavam Hipólito e José Bonifácio, entre outros.

    “Hipólito da Costa nasceu na província Cisplatina, que hoje faz parte do Uruguai, em Sacramento, na época em que aquela parte era do Brasil. Sua família se muda para Pelotas e, mais velho, ele vai estudar em Coimbra. Depois, se liga ao Conde de Linhares, o verdadeiro herdeiro do Marquês de Pombal, que vai formar uma corte ilustrada de brasileiros, com jovens brilhantes, que serão incentivados pelo futuro conde.”

    No contexto do final do século XVIII, explica Isabel, a maçonaria aparecia como uma sociedade secreta, mas também de fraternidade, acima das religiões, das confissões, da opressão que era comum no regime absolutista. Ela citou também o início dentro das ilhas britânicas, que apesar de ser ainda uma monarquia, tinha uma constituição e um parlamento. Isabel fala ainda de como o ideal maçom vai desembarcar nos EUA, na Filadélfia, e na França, onde floresceu entre os que fariam a Revolução Francesa, além de dizer que a organização passava por cima de nacionalidades, do credo político e religião, aceitando, por exemplo, judeus e muçulmanos.

    Palestrantes ao redor do mediador Marcelo Scarrone, pesquisador da RHBN“Hipólito acaba Coimbra e vai para os EUA. Em 1798, passa dois anos em Nova York. Poucos brasileiros tinham relatos do que era viver nos EUA, dentro de uma sociedade moderna, onde havia eleições, as mulheres tinham autonomia, e os negros, mais liberdade”, conta ela. “Lá, ele se filia a uma loja maçônica, que vai marcar a sua vida. Volta a Portugal em 1800 e trabalha em uma gráfica, fazendo traduções, sempre ajudando as lojas maçônicas. Em 1802 acaba sendo preso, e será julgado pelo Santo Ofício, quando passa três anos presos. Foge em 1805, para Inglaterra, provavelmente com a ajuda de maçons”, lembra a pesquisadora, citando os diálogos com os inquisidores como a melhor defesa da maçonaria. “Quando o príncipe regente se muda para o Brasil, ele começa o ‘Correio Braziliense’.”

    A professora contou que a primeira loja maçônica foi inaugurada em 1812 em Niterói (RJ). E que a partir daí, os maçons tiveram importância em episódios, como o dia do Fico, ou a Revolução Pernambucana de 1817. Mas a oposição entre maçons republicanos e imperialistas mostra, no seu ponto de vista, como a organização também tem divergências, apesar da aparente união interna.

    “Joaquim Gonçalves Ledo foi um dos maiores idealistas do Brasil, ao lado do Hipólito da Costa, que era o oposto dele. Os dois dão a dimensão do que era o papel da maçonaria no momento de nossa independência.”

    Podem até ser secretas essas sociedades, mas o resultado de suas ações políticas é bastante conhecido.

Compartilhe

Comentários (1)