Selva de pedra

Antropólogo critica secretário de Esportes e Lazer do Estado do Rio de Janeiro que afirmou que “índio mesmo vive na floresta”

Mauro de Bias

  • Índios da Aldeia Maracanã resistem às investidas de despejo do governo do estado. Foto: Gabriela Nogueira Cunha/ArquivoO antropólogo Mércio Pereira Gomes, ex-presidente da Fundação Nacional do Índio, se mostrou bastante indignado ao ouvir a polêmica declaração de André Lazaroni, secretário de Esportes e Lazer do Estado do Rio de Janeiro, sobre os índios da Aldeia Maracanã. Em entrevista, o político disse que “índio mesmo mora na floresta”.

    Ao ser questionado sobre o conflito jurídico e social que acontece entre o governo do estado e os ocupantes do prédio do antigo Museu do Índio no Rio de Janeiro, o secretário respondeu: “Eles têm de sair. Estão ali ilegais. Aquilo ali é um Museu do Índio, não é uma aldeia.” E completou: “Porque índio mesmo mora na floresta, não é? Índio mesmo a gente está protegendo na Amazônia. Eles estão lá gerando riqueza para a sua tribo. Os índios que estão aqui na verdade hoje são instrumentos políticos de partidos de oposição.”

    A primeira reação de Pereira Gomes foi uma gargalhada de incredulidade. “É um monte de besteira. A maior que eu já ouvi sobre índios no Brasil”, disse o pesquisador, autor de diversos livros sobre o tema, entre eles "Os índios e o Brasil", de 2012. Para ele, o discurso de Lazaroni reflete falta de conhecimento sobre os povos do Brasil e de sua participação na vida cultural do país.

    “Dizer que índio fora da floresta não é índio é o mesmo que dizer que brasileiro em Nova York, por exemplo, não é brasileiro”, defendeu o antropólogo. Segundo ele, o preconceito demonstrado pelo secretário reflete uma realidade que precisa ser superada. Pereira Gomes afirmou ainda duvidar da proposta do governo do estado de transformar o antigo Museu do Índio, um prédio histórico ao lado do estádio do Maracanã, no Museu Olímpico do COB (Comitê Olímpico Brasileiro).

    “Acredito que esse discurso seja só um pretexto para retirar os índios e transformar o lugar numa passarela, num calçadão. Não acredito que ali será feito o Museu Olímpico. A arquitetura histórica do prédio é inadequada para isso, mas é adequada para uma representação da cultura indígena na cidade do Rio de Janeiro”, sugeriu o professor.

    No mês de abril, a Revista de História traz um dossiê sobre os povos indígenas brasileiros e sua história desde antes mesmo que houvesse Brasil. Entre os artigos, serão abordados temas como as tentativas de controle dos índios pelo Estado, demarcação de terras, migrações, escravidão e mitos que foram criados e difundidos.

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