Ciência e imaginação

Debates no fHist mostram que a fantasia também faz parte da história

Alice Melo

  • Na parte superior da Pedra da Gávea, as marcas misteriosasApesar da imaginação ter sido tema oficial de uma mesa de debates na tarde desta segunda-feira (10), no Festival de História, ela permeou outras apresentações do dia. Chegou a passar pelo mundo fantástico dos viajantes e povos das Américas durante o período colonial brasileiro, foi à construção de biografias baseadas em registros históricos e até ao mundo literário de Monteiro Lobato ou aos filmes de Walt Disney. Nessa viagem fantástica pelo tempo por meio das apresentações, ficou comprovada a relação íntima entre a história, a ciência e a imaginação.

    Segundo o professor Johnni Langer, da UFMA, conferencista do encontro “Imaginação sem limites”, a tentativa de se encontrar raízes de povos antigos europeus pelas Américas identificou inscrições fenícias na pedra da Gávea, no Rio de Janeiro, ou indícios da passagens dos vikings pelo Nordeste pré-colonial. Nesses casos, mutações geológicas deram asas à fantasia dos estudiosos do século XIX e fizeram com que se tentasse comprovar a origem menos negra ou até menos indígena da “nação” brasileira.

    Ele também é "terrível"

    Quando o assunto é biografia, a imaginação também corre solta. E não apenas para quem lê sobre a história de vida do personagem investigado, mas também para quem se debruça na pesquisa e redige a obra. Mas nem sempre o livro, fruto da imaginação do autor e de anos e anos de investigação, tem um final feliz. Durante a mesa “Biografia e seus fantasmas”, Jorge Ferreira e Paulo César Araújo falaram sobre os problemas e os prazeres de se escrever uma não-ficção. No caso de Ferreira, o trabalho bem sucedido sobre o ex-presidente João Goulart culminou no reconhecimento profissional e também na revelação do passado pouco estudado daquele que teria sido “injustiçado pela história” durante os anos que sucederam o golpe de 1964. O caminho, no entanto, foi bem diferente para Paulo César.

    Quinze anos após se entregar à pesquisa sobre seu ídolo de infância, Roberto Carlos, Paulo César viu a biografia do rei ser proibida poucos meses após o lançamento da mesma (e de 47 mil cópias vendidas). O caso corre na justiça até hoje, mas os advogados do cantor sempre levam a melhor. Agora, o escritor segue por novos rumos: vai publicar um livro sobre os bastidores da biografia do rei. “O que Roberto Carlos não sabe é que eu também sou terrível”, brinca ele.

    Ao se falar de Monteiro Lobato e de Walt Disney, fantasia e realidade se confundem num emaranhado de histórias contadas para crianças - tanto por meio do livro infantil, quanto por meio dos desenhos animados. Mas, durante o debate “Walt Disney e Monteiro Lobato: o sonho das crianças tem cor?”, a escritora Luciana Sandroni e a historiadora Márcia Regina Ciscati, mediadas por Carmem Lúcia de Azevedo, levaram a conversa para o campo social: como trabalhar com o racismo em obras infantis em sala de aula? “É um tema muito delicado, mas que precisa ser abordado. É impossível tirar os autores do contexto de um século atrás, afinal, eram as ideias vigentes na época. O importante é aproveitar a oportunidade para contar aos alunos as agruras do nosso passado, uma vez que não podemos nos esquecer de que fomos o último país independente a fazer a abolição da escravatura”, comenta Sandroni.

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