Por uma sociedade mais utópica

Em debate, professores resgatam a história do anarquismo no Brasil e destacam sua relação com o momento de manifestações sociais e crise política atual

Janine Justen

  • “Socialismo sem liberdade é tirania e opreÀ esquerda, Alexandre Samis, do Colégio Pedro II. À direita, Carlos Addor, da UFF.ssão. Liberdade sem socialismo é privilégio e injustiça.” Foi citando o cientista político russo Mikhail Bakunin, que o professor da UFF, Carlos Addor, deu o tom ao debate “Anarquismo, a liberdade na prática”, que ocorreu na terça passada (20), na Biblioteca Nacional.

    Para dar continuidade ao dossiê da Revista de História deste mês, o Biblioteca Fazendo discutiu não só a trajetória desta corrente no Brasil, atravessando o movimento sindical e as lutas da classe operária, mas também o papel do Estado e o contexto de crise política da atualidade.

    “A proscrição contra os anarquistas não foi descredenciada por seus ideólogos ou defensores, mas pela realidade, pelos fatos. Está aí, para todo mundo ver”, provoca o professor do Colégio Pedro II, Alexandre Samis.

    De acordo com os especialistas, a proposta anarquista vai de encontro ao que se entende por “socialismo libertário”. “A proposta é construir uma sociedade igualitária e fraterna, sem abrir mão da liberdade e da autonomia individuais”, define Carlos Addor.

    Dossiê Anarquismo:

    Sonhar também muda o mundo

    Era uma casa muito livre

    De braços dados e cruzados

    Ocupar com k

    Utopia de máscara nova

    Para o professor, o cenário ideal é aquele no qual a caridade seja uma prática desnecessária. “Caridade é um movimento vertical de cima para baixo. Solidariedade, não, é uma ação entre os pares”, completa. Segundo Alexandre Samis, é preciso, primeiro, definir o que se pretende derrubar para dar contornos concretos ao que se precisa construir.

    “A pluralidade do anarquismo é essencial e não se constrói somente ao saber das emoções dos seus participantes. É necessário um embasamento teórico muito claro”, argumenta Samis, que aposta em centros educacionais como verdadeiros polos de formação e conscientização política. “Esse é meu dever como professor e cidadão interessado em uma profunda transformação social”.

    Pautando-se em análises de acontecimentos similares em outras épocas, como a tomada da Bastilha e a Revolução Russa de 1917, os professores corroboram o fluxo de adesão às manifestações dos últimos meses. “É a ordem natural das coisas. Primeiro, se vai às ruas, se ganha em número de participantes. Depois se instrui. É como deve ser”, resume Carlos Addor.

    Sindicato não representa mais as massas

    A luta pelos direitos dos negros e das comunidades, principalmente daquelas ocupadas por Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), foram pontos acalorados da discussão. Alexandre Samis comparou a violência urbana e a opressão à parcela marginalizada da sociedade aos episódios de abuso de poder policial nas recentes manifestações, que renderam grande visibilidade na mídia tradicional.

    “O apelo imagético de 13 mortes na invasão do Complexo da Maré foi menos impactante do que as poucas pessoas que passaram mal nas manifestações por excesso de inalação de gás lacrimogêneo”, alerta. “Isso me preocupa bastante, porque caracteriza um quadro de exclusão já naturalizado no asfalto. Na favela pode?”, indaga o professor do Pedro II.

    Para Samis, a insuficiência das comunidades nas passeatas precisa ser revista. Ainda que representantes dos movimentos “Favela não se cala” e “Favela nunca dormiu” estejam atuantes, a participação é restrita. “Estamos assistindo a um genocídio que vem sendo praticado há muito tempo. Sem OAB ou Direitos Humanos para intervir”, denuncia.

    O movimento, que perdeu força a partir da burocratização sindical, quebrou o elo de ligação entre o vetor social e a sociedade de massas. “Essa é a grande crítica ao anarquismo na atualidade, o que não significa dizer que suas bases estejam perdidas”, explica Carlos Addor. “O sindicato, hoje, não representa mais uma ferramenta de ruptura com o Estado, mas de cooptação. Tampouco os partidos políticos são capazes de nos representar”, contextualiza o professor da UFF.

    Addor salienta, ainda, que o movimento aparece como uma alternativa ao capitalismo, constituindo-se pela ausência de governo e não pela ausência de ordem ou organização. “Hoje eu não vejo outra corrente no campo da esquerda com essas características. O progresso é nada mais que a realização de utopias. Dizer que somos imaturos é uma bela polemica”, aponta Addor.

    E conclui: “Não temos modelos detalhados para uma sociedade futura, mas princípios. Para nós, ética e política são conceitos indissociáveis. Em um meio de mensalões e corrupção banalizada, eu pergunto: Quem está se escondendo de quem? Os encapuzados dos governantes ou os governantes dos encapuzados?”

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