Os encantos da Imperatriz

Obscurecido na história do Brasil, o papel de Leopoldina na vida política do Primeiro Reinado foi tema de debate na Biblioteca Nacional

Nashla Dahás

  • Patrícia Souza Lima, Marcello Scarrone e Clóvis Bulcão, no Biblioteca Fazendo História, 2014“Minha paixão por Leopoldina é quase doentia”, assumiu o historiador Clóvis Bulcão, convidado da RHBN para o Biblioteca Fazendo História deste mês, que debateu o papel histórico da Imperatriz no Brasil. Ao seu lado estava a pesquisadora Patrícia de Souza Lima, co-organizadora das cartas inéditas de Leopoldina publicadas em livro nesse ano. “Essas missivas estavam sob a guarda de museus austríacos e foram escritas por Leopoldina ao longo de todas as fases de seu casamento com D. Pedro”, disse a professora da UERJ.

    A biografia da jovem princesa de Habsburgo que se tornou a primeira estadista da história do Brasil lança importantes “luzes” sobre o contexto brasileiro no século XIX, mas não só. O olhar de expectativa e interesse com que nos encara em suas mais conhecidas fotografias sugere de antemão certas ideias, gostos, valores estéticos e morais de uma mulher absolutamente diferente dos padrões políticos brasileiros estabelecidos para o comportamento feminino naquela época. Até quando se postava sobre um cavalo, era à austríaca, e não à francesa, sentada com as pernas juntas e de lado, comentou Patrícia Lima.

    O debate girou em torno da importância e do papel da imperatriz Leopoldina na vida política do Império, pois sua participação como mulher e como política teria ficado "apagada" no processo de construção de uma história do Brasil bastante "machista" - segundo Clóvis Bulcão. "Nessa história, as luzes foram sempre dirigidas aos Pedros".

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    A formação pessoal, familiar e política de Leopoldina se deu durante a era napoleônica. Em seu diário, por exemplo, registrou que durante o Congresso de Viena, muito lhe incomodou a paralisação da vida, da música, dos teatros, dos bailes e caminhadas, "tudo se verte agora para o Congresso", explica o historiador. "Tão atento era o seu olhar, que não lhe escapava nem o sotaque dos diplomatas ingleses ao exercitarem o idioma francês durante as reuniões. "Ela tinha apenas 17 anos", pontua.

    Já em terras brasileiras, e na falta de uma rotina que de longe lembrasse o cenário austríaco de sua juventude - que incluía Goethe e Bethoveen -, a imperatriz se distraía estudando e colecionando artigos relacionados a mineralogia, zoologia e botânica. Segundo Patricia Souza Lima, Leopoldina abasteceu todo o atual Museu Brasileiro de Viena com seus registros etnográficos de indígenas, catálogos de plantas brasileiras, entre outros, como macacos vivos e índios botocudos, que ela chegou a enviar ao seu país de origem.

     

    Noiva apaixonada

    No entanto, isso não significa que os primeiros momentos de seu casório com D. Pedro não tenham lhe agradado. Os historiadores reafirmam aquilo que a historiografia há algum tempo concluiu: Leopoldina casou apaixonada, ciente do papel político que deveria cumprir unindo sua família ao promissor Reino Unido do Brasil, Portugal e Algarves. Além disso, em suas primeiras cartas à irmã Maria Luisa, a jovem imperatriz se queixa de certo "cansaço", uma vez que o marido lhe "solicitava" por noites inteiras. A fama de que Pedro não era muito apegado à "moral familiar e aos bons costumes", assim como a paz desses primeiros meses no Brasil, não poderiam ter lhe dado a dimensão das humilhações e sofrimentos que passaria até sua morte com apenas 29 anos.

    "As infidelidades do imperador a desestabilizavam"; afirmou Lima. Ela era ainda uma menina vinda de um ambiente políticamente importante e culturalmente rico quando teve que aprender a lidar com as notórias traições de D. Pedro, e com o gênio intempestivo da sogra Carlota Joaquina. Carlota seria "baixa, feia, torta, altamente conspiradora e com um apetite sexual voraz", conforme relata Bulcão. Mesmo após o casamento com Leopoldina, Carlota batia no filho em público, dava tapas em seu rosto, deixando a nora cada vez mais horrorizada. Apenas com D. João a convivência parecia agradável. Tudo indica que ela tenha dado ouvidos ao conselho de seu pai antes de sair de Áustria: "ame o seu sogro, obedeça a seu marido, e se afaste de sua sogra".

    Nada disso, no entanto, influenciaria a retidão de seu comportamento político. Lúcida, perspicaz e inteligente, foi Leopoldina quem impediu D. Pedro de voltar a Portugal em 1820, durante a Revolução Liberal do Porto. É de Leopoldina, a austríaca, que nasce a campanha que se poderia dizer "patriótica" em nome da emancipação do Brasil e da manutenção da Monarquia como sistema de governo. Ela cria a campanha das fitas verdes para demonstrar o apoio da população aos Bragança. Tudo o que de mais importante aconteceu entre 1820 e 1822, incluindo a declaração de independência do Brasil, deve-se, em grande medida às decisões de Leopoldina, afirmam os historiadores durante este último BFH.

    Traição e violência

    Mas a situação conjugal ficaria, enfim, insustentável, quando o caso do imperador com "o monstro sensual" que era a Marquesa de Santos se tornou público. D. Pedro chegou a dormir fora de casa por mais de um mês enquanto Leopoldina estava grávida. De acordo com Bulcão, a esposa teria enviado mensagem para que Pedro fosse buscar as suas malas de vez: "um comportamento bastante comum para os nossos tempos, mas jamais para o período imperial", comentou. Depois disso ninguém mais sabe o que aconteceu. O encontro entre o casal se deu a portas fechadas, e a imperatriz da independência optou por jamais falar ou escrever sobre isso. "Não tenho dúvidas de que Leopoldina sofreu violência física. Ou ela foi empurrada da escada, como alguns biógrafos sugerem, ou ela foi vitima de pontapés na barriga", disse Clóvis Bulcão.

    Em seguida, D. Pedro embarcaria em missão militar na Cisplatina. O ventre de Leopoldina abortaria a criança que carregava, e dias depois ela morreria causando comoção em todo o Rio de Janeiro.

    Recordar essa história pode adquirir sentidos diversos; da influência cultural austríaca na política brasileira, tendo como D. Pedro II seu símbolo mais claro, até as questões de gênero que o comportamento de Leopoldina encerra; as transformações e continuidades de uma moralidade em desconexão com a realidade desde tempos coloniais, até a ampliação imaginativa que a leitura e a confecção da história nos permitem, a "conhecer" vidas e tempos que nunca poderemos experimentar.

    O fato é que a cada debate do Biblioteca Fazendo História, abrem-se "brechas no tempo" que podem nos permitir construir ou reconstruir referências antepassadas, perdidas em memórias oficias que há muito não fazem mais sentido para os nossos dias.

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