Jovens idealistas?

Ex-guerrilheiros, o historiador Daniel Aarão Reis e o ex-comandante da ALN, Carlos Eugênio Paz, se encontraram no Biblioteca Fazendo História. Objetvo era discutir questões que moveram a luta armada no Brasil

Alice Melo

  • Daniel Aarão Reis, Marcello Scarrone, Carlos Eugênio PazEspecial Guerrilheiros --Instaurar o poder revolucionário no Brasil. Este era o principal objetivo dos movimentos de guerrilha que ocorreram no país durante a ditadura civil-militar, de acordo com Daniel Aarão Reis, historiador e professor da Universidade Federal Fluminense, e Carlos Eugênio Paz, conhecido também como Clemente – último comandante da Ação Libertadora Nacional (ALN). A dupla se reuniu no palco do Biblioteca Fazendo História, que ocorreu nesta terça (19), na Biblioteca Nacional, a convite da RHBN, cuja capa do mês de março discute ‘Guerrilheiros: armas contra a ditadura’.

    Em debate aberto ao público, os palestrantes fizeram questão de negar a imagem do “jovem idealista” atribuída aos militantes de extrema esquerda, ao mesmo tempo em que se posicionaram contrários ao estereótipo do “terrorista” social, pregado pela direita. Em conversa que durou mais de duas horas, os convidados concordaram que, na cabeça dos jovens de outrora, o regime ditatorial não teria dado alternativa aos revolucionários: a instauração de um novo projeto de governo só poderia ser feita por meio da luta armada.

    “A maioria não estava lutando para restaurar a democracia, mas para instaurar o poder revolucionário, destruir a ditadura civil-militar e o capitalismo. Como se tinha feito na China, em Cuba, na União Soviética”, afirma Aarão Reis, que foi integrante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8). Porque a ditadura do proletariado seria, nesta concepção, mais democrática do que todo o passado de democracia que o Brasil havia experimentado até então.

    O historiador comenta ainda que estes movimentos não surgiram apenas como uma reação ao regime de linha dura, isso seria esvaziá-los de seu sentido político, mas integraram um projeto mais amplo de tentativa de modificação do sistema econômico e político. Muitos partidos e organizações nasceram, inclusive, antes do golpe de 1964, só que se articularam com maior furor na medida em que a repressão aumentava.  “Algumas ações a partir de 1965 estavam inseridas em um contexto global e integravam uma articulação continental de consciência revolucionária liderada pelo Che Guevara.” A tentativa de enquadrá-los como uma ação fracassada apenas contra a ditadura seria mais uma forma de perpetuar a visão hegemônica da História.

    Sem meias palavras, Carlos Eugênio Paz afirmou que, para seus companheiros, a intenção era “criar um Vietnã no Brasil”. “[Friedrich] Engels já dizia que a violência é a parteira da História. E essa coisa de evitar banho de sangue não existe, foi evitando o banho de sangue lá em 64 que permitimos que a violência se instaurasse no Brasil durante 21 anos.”

    Evento reuniu mais de 60 pessoas na Biblioteca NacionalClemente, como prefere ser chamado, foi um dos últimos comandantes da ALN, responsável por organizar e participar de diversas “ações revolucionárias” como, por exemplo, o “justiçamento” (as mortes dos agentes da repressão) [leia mais em Memória irrestrita]. Nunca foi preso ou torturado e diz que ser chamado de guerrilheiro, hoje, é emocionante, já que se acostumou a ser taxado de terrorista anos a fio. “Quando me perguntam quando comecei a me sentir cercado, eu digo que sempre. Porque o movimento já nasceu cercado, muitos foram torturados porque resolveram lutar.”

    O sequestro do embaixador norte-americano

    A ALN, em aliança ao MR-8, foi responsável pelo sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, em 1969.  “Além de libertar companheiros, o sequestro tinha como objetivo criar oportunidade política. Não era coisa de idealista. Pegou o governo no contrapé. Ao exigir que a junta militar lesse em rede nacional de rádio e televisão o manifesto [escrito por Franklin Martins], conseguiu-se mostrar que havia uma guerrilha em curso. Que as ações armadas estavam em um projeto global, que havia um quadro de ofensiva revolucionária”.

    Próximo de Carlos Marighella à época, Eugênio Paz contou que o criador da ALN era contra o sequestro do embaixador e só tomou conhecimento que a ação tinha sido realizada quando ouviu no rádio a notícia, em uma viagem a São Paulo que foi interrompida no caminho. “Ele tinha essa ideia de centros de poder no Rio, São Paulo e Belo Horizonte. Por isso não podíamos agir aqui, precisávamos fazer a guerrilha no campo”. E opina sobre o sequestro do embaixador: “Acho realmente que a ação foi uma mudança de nível da luta que nós não estávamos preparados para encarar. Ficou claro que tínhamos transformado a tática em estratégia. No fundo, fomos acreditando que era possível sobreviver nas cidades e que a gente ia de alguma maneira agir”. Mas não foi o que ocorreu. Exatamente dois meses depois do sequestro, por exemplo, Marighella foi morto numa emboscada.

    Memória dos anos de chumbo

    Carlos Eugênio Paz fez questão de criticar a Comissão Nacional da Verdade. Para ele, as discussões sobre a ditadura civil-militar são baseadas apenas na questão da tortura e nos desaparecidos políticos. E que, na realidade, deveriam discutir o sistema político autoritário como um todo. “Se não tivesse havido tortura, estaria tudo bem? O que importa é a natureza do poder que foi instalado”, questiona. Para o ex-guerrilheiro, a ditadura serviu para formar uma geração esvaziada do “projeto de nação” e centrada em um “projeto individual de carreira”. “A ditadura moldou a cabeça dos jovens, criou a geração ‘shopping center’.”

    Eugênio Paz afirma que não se arrepende do passado e faz questão de dizer que nunca obedeceu ao regime, mesmo vivendo durante sete anos na clandestinidade. “Nunca fui tão feliz. Estava lutando por um projeto de Brasil em que eu acreditava.”

    Aarão Reis propôs um pensamento diferente. Segundo ele, se fosse possível prever que em poucas décadas um operário seria eleito presidente da República e, depois dele, uma ex-militante que foi torturada, talvez um engajamento pela democracia pudesse ter sido levado em consideração. “Resgatar a saga revolucionária é um imperativo da memória e da história brasileira. Depois, a ação evoluiu, muitos revolucionários fizeram uma releitura. Muitos deles fizeram uma releitura radical, pela luta democrática. E a luta ganhou uma consistência que nós não poderíamos imaginar na época”.

    A memória é um fenômeno construído no presente, mas se deixar levar pelas forças contemporâneas no ímpeto de dar significado ao passado pode ser perigoso, como mesmo adverte o professor. “Joga-se o manto em cima de experiências que devem ser estudadas e compreendidas em seu contexto. E assim deixamos de compreender outros lados da História do país”. 

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