Germanidade brasileira

Biblioteca Fazendo História de março teve como tema a imigração alemã no Brasil. Pesquisadores discutiram a criação de uma única identidade alemã para os diferentes grupos que colonizaram regiões do Brasil

Nashla Dahás

  • Os imigrantes alemães estabeleceram por onde passaram uma colonização de áreas rurais sem escravidão / Foto: Fundação Biblioteca NacionalA colonização de territórios brasileiros por alemães foi oficial e particular. Isso não impediu que criassem aqui uma “Germanidade brasileira”. Este foi o ponto de partida da apresentação da professora da UFRJ Giralda Seyferth no Biblioteca Fazendo História desta última terça-feira. O evento ocorreu no Auditório Machado de Assis da Biblioteca Nacional, onde também estiveram presentes os professores Joana D'Arc do Valle Bahia (UERJ) e Luis Edmundo de Souza Moraes (UFRRJ).

    A imigração de alemães já ocorria maciçamente para os Estados Unidos, incentivada pela Inglaterra, quando o imperador D. Pedro I decidiu “desviar” o curso dessa população para o Brasil. Ele teria iniciado uma campanha de aliciamento de colonos e soldados alemães, além de buscar o reconhecimento da independência brasileira pelo estado alemão da época.

    “A colonização não pode ser dissociada do povoamento, e o governo brasileiro tinha interesse claro em povoar as terras ao sul do território, e de proteger suas fronteiras com a Argentina, que reivindicava áreas naquela região”, conta Giralda. É claro, continua a professora, que o estado alemão também tinha seus propósitos nessa negociação, especialmente em reduzir problemas demográficos relacionados ao fim da servidão alemã no século XIX, e à inserção mais contundente do capitalismo no campo.

    Vale lembrar que a população que veio para cá estabeleceu nos lugares por onde passou uma colonização de áreas rurais sem escravidão; caracterizando um modelo agrário muito diferente daquele que marcava as regiões economicamente mais importantes da época.

    Unificação da identidade alemã

    A ideia de “Germanidade brasileira” é o gancho que Giralda Seyferth deixa para a intervenção do professor Luis Edmundo de Souza Moraes. Ela explica que, embora a imigração tenha sido oficial, os diversos grupos alemães que chegaram com alguns intervalos entre o pós independência e 1950, constituíram aqui, e não no país de origem, uma identidade que nos acostumamos a chamar de “alemã”. Criaram jornais, anuários, e toda uma literatura que circulou mais ou menos livremente até os anos de 1930, quando Getúlio Vargas iniciou forte campanha de nacionalização e assimilação forçada.  

    Daí a perguntaque move o trabalho do professor Luis Edmundo: “Como germânicos viraram brasileiros? E mais, como viraram alemães no Brasil?”.

    A expressão “alemã” atribuída à imigração, e não às imigrações, como seria mais correto, é um rótulo que cumpre uma função claramente classificatória e descritiva incluindo algumas pessoas, eventos e contradições, e excluindo outras.

    Os grupos chamados uniformemente de “alemães” vieram de regiões diversas como Áustria, Bavária, Suíça, Holanda, entre muitos outros / Foto: Acervo Museu Histórico de São LeopoldoSobretudo, o que a expressão exclui, são as diversidades dos variados grupos que chamamos uniformemente de “alemães”. Eles vieram de regiões diversas como Áustria, Bavária, Suíça, Holanda, entre muitos outros; falavam dialetos diferentes e mesmo em seus modos de viver eram tão diferentes que a convivência no Brasil gerou inúmeros conflitos, como, por exemplo, aqueles que ocorriam entre as mulheres e seus hábitos domésticos distintos numa mesma colônia de imigrantes “alemães” durante o Brasil Império.

    Decisivo para o desaparecimento da percepção dessas multiplicidades dos imigrantes nos relatos dos observadores da época foi - conta o historiador - a constituição do Estado Alemão em 1871. Após esse momento, os imigrantes que vão chegando começam a trazer também certo patriotismo que irá incendiar os clubes e instituições criados aqui anteriormente. Também surgirão conflitos entre os alemães que “fincam raízes e tem como centro de suas vidas o Brasil”, e aqueles que “enxergam o Brasil como estado de passagem e que tem com centro de suas vidas o retorno para a Alemanha”, completa.

    E por falar em conflitos, com um estudo mais específico sobre a imigração ocorrida entre 1870 e 79 para a região do Espírito Santo, a professora da UERJ Joana D'Arc conta que ali, os “alemães” se depararam com os temidos índios Botocudos, assim como com todo um mosaico migratório que inclui ainda os italianos e portugueses.

    Destaque para a maneira como eles vão, “aos poucos”, reconstruir o mapa europeu em terras brasileiras nomeando cidades e estados como Leopoldina, Tirol, Luxemburgo, entre outras. “Aos poucos”, conclui a professora, porque é preciso entender que o povoamento por esses imigrantes obedeceu a características próprias de acordo com a conjuntura em que vieram, além do que, hoje, já estão espalhados por todo o Brasil, tornando impossível a identificação com uma ou outra região apenas.

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