A lenda negra

Biblioteca Fazendo História discutiu as contradições a respeito da imagem caricata de Carlota Joaquina, construída pela Historiografia luso-brasileira

Gabriela Nogueira Cunha

  • Conspirações e controvérsias. É isto que paira em torno da memória coletiva que se tem de D. Carlota Joaquina, tema do dossiê deste mês da Revista de História. Travando verdadeira batalha contra uma imagem “precária” construída pela historiografia tradicional a respeito da monarca, os historiadores Fábio Ferreira, da UFF, e Francisca Lúcia Nogueira de Azevedo, da UFRJ, comandaram o Biblioteca Fazendo História da última terça-feira (17). O evento aconteceu no Auditório Machado de Assis da Biblioteca Nacional.

    “Incompatível com muitos papéis femininos de seu tempo e representante de uma tradição política em vias de extinção, Carlota Joaquina tornou-se duplamente sujeita a estereótipos. A personagem é mais complexa e interessante do que a lenda”. É o que afirma a professora Francisca. Para ela, as análises disponíveis que temos a respeito da rainha transmitem, apenas, uma “lenda negra”.

    “Eu quero problematizar aqui, principalmente, a memória histórica de Dona Carlota Joaquina. No filme Carlota Joaquina - Princesa do Brasil (1995), dirigido por Carla Camurati, por exemplo, temos um cartaz que retrata de uma forma muito forte a memória coletiva do casal real, tanto de Carlota quanto de D. João VI. Ela tem um rosto de empáfia, de orgulho, prepotência. Ela é retratada como uma mulher histriônica, temperamental.”

    Segundo os pesquisadores, esta é uma imagem estereotipada tecida por uma historiografia partidária. “A questão que envolve a lenda negra em torno de D. Carlota Joaquina é que a historiografia liberal, desde o século XIX, trabalha com uma dose insuficiente de versões, trabalha em cima de um partidarismo” – liberalismo versus absolutismo – “que transforma a Carlota numa caricatura”, comenta Fábio Ferreira.

    Mas Carlota foi um personagem que, como todo mundo, tinha lá suas incoerências. “A gente tem que pensar no personagem histórico como um ser humano”, explica Francisca, atentando, ainda, para questões de gênero. “Essa história de gênero chama muito a atenção, pois, enquanto D. João teve várias amantes e filhas fora do casamento, e ninguém fala disso, todo mundo quer falar dos possíveis amantes de D. Carlota. A questão da mulher ainda hoje é muito problemática.”

    Fato é que D. Carlota Joaquina foi uma figura política para além de seu papel como esposa e mãe zelosa. Expansiva, sempre foi representada, e criticada, como tal, como mostram seus retratos, com traços cada vez mais grosseiros, ao longo do tempo. “Dona Carlota Joaquina havia apenas de feminino o invólucro. A alma poderia chamar-se de masculina”, concluiu, certa vez, o embaixador Manuel de Oliveira Lima (1867-1928) a respeito da rainha consorte. E Francisca explica: “na medida em que ela se expõe mais na política, e nas conspirações, sua fisionomia [representada pelos retratos de época] vai mudando. Carlota ganha traços varonis, como cita Oliveira Lima. Se vocês repararem, ela vai progressivamente, enfeiando”.

     

    Conspirações do Prata

    Sobre suas conspirações políticas, o professor Fábio Ferreira falou sobre a tentativa de Carlota Joaquina de tornar-se rainha do Império Espanhol, governando-o a partir da cidade de Buenos Aires. Após as invasões napoleônicas na Espanha, a família Bourbon cogitou a ideia de fugir para o México. Ideia esta que não foi para frente. Segundo o historiador, com seus pais e irmãos presos, D. Carlota fica arrasada e logo dá início a uma série de articulações para governar as áreas que outrora foram de seu pai.

    Mas a tarefa não seria fácil. “D. Carlota entra num processo de reconhecimento para tornar-se regente do Império Espanhol. Desde o início do século XVII era proibido que uma mulher fosse governante da Espanha. Para conseguir tal feito, ela tinha que vencer, ainda, as oposições do gabinete joanino, principalmente do Conde de Linhares, D. Rodrigo de Souza Coutinho, seu maior oponente. Isto, sem falar da oposição da Inglaterra e da França”, explica.

    “No fim das contas, me parece que a Carlota foi um personagem azarado”, brinca Fábio. Ele comenta o fato de que o poder sempre flertou com a monarca, e ela com o poder, mas é como se os dois nunca conseguissem se entender. Os inimigos de Carlota eram variados e poderosos e tiveram êxito em frustrar todas as suas pretensões. Eles conseguiram impedir seus planos de ir para o Prata; na Península Ibérica, Carlota mal conseguiu apoio para representar seus parentes aprisionados; e vários de seus partidários na América passaram a abandoná-la, como em Buenos Aires, onde seus antigos aliados aderiram a um projeto revolucionário de autogoverno. Enfim, “o poder flerta com Carlota, mas ela não consegue alcançar o poder”. 

     

     

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