Um destino

Livro escrito pelo historiador Lucien Febvre em 1928 sobre Martinho Lutero é editado no Brasil

Patrícia Woolley

  •  'Martinho Lutero, um destino': 1a. edição, 2012, Lucien Febvre; Três EstrelasMartinho Lutero, denominado pela posteridade o pai da Reforma Protestante, foi um homem do seu tempo, assolado pela angústia e o medo do inferno. Ingressou aos 22 anos no convento Agostiniano de Erfurt, em 1505, mas não pretendia ser o líder de uma ruptura religiosa. Pelo contrário. Cristão solitário buscava apenas encontrar o remédio para os seus males interiores. Mesmo no fim da vida, em 1546, não se julgava o construtor de uma nova Igreja. Lamentava o fato de os camponeses rudes não terem compreendido a sua mensagem de liberdade cristã.

    Esse é o quadro que Lucien Febvre constrói em Martinho Lutero, um destino, clássico escrito em 1928 e editado no Brasil em 2012. Longe de mera biografia narrativa, Febvre empreende o estudo atento das ideias do agostiniano, combinando crítica historiográfica e minuciosa análise das fontes. Serve-se dos textos clássicos, como as Conversas à mesa, de 1545, mas, também, das notas dos cursos ministrados em Wittemberg, da volumosa correspondência destinada aos amigos e adversários, e, claro, dos textos vorazes produzidos entre 1517 e 1521, anos violentos, que antecederam a excomunhão de Lutero pelo papa Leão X, em 3 de janeiro de 1521.

    Na obra, Febvre relata que, não mais que outros de seu tempo, Lutero criticava os abusos da Igreja, mas não eram os abusos que o moviam. O que lhe interessava era sua salvação pessoal. Os estudos dos Evangelhos e das Epístolas de São Paulo não lhe ofereceram nova doutrina, e sim, a descoberta individual para seus males. Os martírios, jejuns, as boas obras, as indulgências, não modificavam a condição de pecador do ser humano. Portanto, para que se preocupar com todas essas coisas? Apenas Deus perdoava e justificava o homem. Essa foi a grande descoberta de Lutero, o remédio que lhe reconfortava. Foi, enfim, a motivação religiosa das 95 Teses de 1517, rapidamente impressas e difundidas na Alemanha e fora dela. Escritas em alemão, tornavam-se potencialmente revolucionárias, apesar do tom comedido do texto.

    As palavras de Lutero não foram de encontro apenas às angústias espirituais de uma Alemanha dividida, mas, também, revelaram-se interessantes às controvérsias humanas. Cavaleiros, nobres, mercadores, muitos nutriam desconfianças por Roma, e, ao mesmo tempo, mostravam-se ávidos por incorporarem suas riquezas. A defesa que Lutero fazia da dependência exclusiva de Deus, atraiu esses indivíduos. Muitos se aproximaram de Lutero nos anos de perseguição, buscando convencê-lo a romper com o “Cativeiro da Babilônia”, visando transformá-lo não em um reformador da Igreja, mas em um reformador da Alemanha. Febvre observa que as cidades alemãs eram ricas e populosas, tais como Augsburgo, a cidade dos banqueiros Fuggers, e Nuremberg, importante pela fabricação de bússolas e astrolábios que impulsionavam a descoberta da América. Não era interessante à Igreja enfrentar problemas num território tão proveitoso. Política, diz Febvre, a política, mais do que a religião, explica a ferocidade com que Roma perseguiu e condenou Matinho Lutero como herético, embora outros de seu tempo defendessem ideias semelhantes. Essa perspicácia é o grande trunfo de Febvre. 

    Patrícia Woolley possui doutorado em História pela UFF, é autora da tese D. João de Almeida Portugal e a Revisão do Processo dos Távoras: conflitos, intrigas e linguagens políticas em Portugal nos finais do Antigo Regime;  e professora das Faculdades Integradas Simonsen .

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