Representantes do Nobel

Nesta edição, uma pequena mostra dos escolhidos pela Academia Sueca de Literatura

  • 208 páginas, R$ 16 L&PM Pocket www.lpm.com.br O livro da selva - Rudyard Kipling

    Qualquer semelhança não é mera coincidência entre a primeira parte de O livro da selva e o mito dos fundadores de Roma. De forma bem simples, sem perder a grande sensibilidade que lhe é característica, Kipling troca Rômulo e Remo por Mogli, um pequeno indiano abandonado na selva por seus pais, que fogem da caça do perverso tigre Shere Khan. Expulso do próprio bando por jovens lobos e chegando ao mundo dos homens, o menino tem que aprender outros costumes desconhecidos da floresta, como o uso do dinheiro e tudo sobre as castas, que diferenciam, ainda hoje, os homens e as mulheres indianos.

    Mogli consegue matar o tigre, mas não é aceito na vila por questionar alguns de seus aspectos culturais. Tampouco retorna para o bando de lobos, por ter sido renegado. A lenda do menino lobo tornou-se um clássico para as crianças da Inglaterra e, de certa forma, se internacionalizou quando foi adaptada para desenho animado e romantizada pelos estúdios Disney.

    Leia também

    Os injustiçados pelo Nobel

    Os demais capítulos contam pequenas fábulas, sempre com animais que fogem do senso comum. Cada parte traz uma série de valores que dizem respeito às leis naturais, quase como um universo kantiano a ser repassado às crianças do início do século XX. A foca branca procura um lugar no mundo sem caçadores para seu bando; o jovem mangusto assassina as cobras que ameaçam a família que o salvou do frio; o elefante trabalhou para o imperador; e os animais que serviram ao exército têm muitas experiências para contar. Todos os contos somados aos pequenos poemas que os circundam marcaram gerações de pequenos leitores, mostrando por que Kipling foi merecedor do Nobel de Literatura em 1907. HHH (Carolina Ferro)

     

    168 páginas, R$ 24,90 Geração Editorial  (www.geracaoeditorial.com.br)O leão e a joia - Wole Soyinka

    Nada é o que parece. Uma bela mulher deve se decidir entre dois homens. Esta poderia ser uma trama qualquer na literatura ocidental se o cenário não fosse a pequena aldeia de Ilujinle, na Nigéria. Sidi deverá escolher entre o jovem Lakunle, professor primário entusiasta da sociedade europeia pós-colonial, e o velho Baroka, o bale (chefe tradicional) da aldeia.

    Marcado pelas referências da cultura ioruba em seu vocabulário e narrativa e escrito em linguagem teatral, o livro remete a um cenário de fábulas em que se é capaz de “ouvir” e “ver” os tambores, a música e a dança. A influência do teatro se deve à própria trajetória do autor, poeta e dramaturgo nigeriano, especialista em literatura e teatro africanos. Foi o primeiro ganhador do Nobel de Literatura na África, em 1996, e sua vida se destaca por seu ativismo político na defesa das causas nigerianas.

    A narrativa fluida do autor pode nos dar a impressão de um desfecho “natural” em que a modernidade vence. Lankunle quer acabar com costumes “atrasados” e declara seu amor por Sidi. Ele a vê como companheira para a vida toda, ao estilo do amor romântico europeu do século XIX, e o bale é nada mais que um velho líder em decadência, possuidor de um harém e que a deseja como última esposa.

    Soyinka destaca uma oposição entre atraso e progresso, mas sua narrativa nos surpreende pela diversidade de matizes deste simples cenário: Lankule não é tão moderno, Baroka não é tão tradicional e Sidi não é tão esperta quanto pensa. No livro de Soynka, curiosamente, a tradição vence a modernidade, mas como isso acontece o leitor precisará descobrir sozinho. HHH (Cristiane Nascimento)

     

    742 páginas, R$ 44,90 Planeta www.editoraplaneta.com.brSem destino - Imre Kertész

    Talvez não seja exagero dizer que o húngaro Imre Kertész escreveu, logo no seu primeiro romance, um dos melhores – se não o melhor – livro sobre o holocausto. Sabe-se muito bem que a produção sobre o assunto é enorme e que os grandes nomes que trataram dessa experiência não são poucos nem insignificantes. Mas, verdade seja dita, Sem Destino conduz o leitor à experiência dos campos de concentração de um jeito absolutamente original. Passo a passo, acompanhamos o relato de um jovem de 14 anos, que vai da ingenuidade ao desespero, dos pormenores de seu deslocamento de Budapeste ao dia a dia de um campo de concentração, descobrindo o que é Auschwitz.

     Sem que sejamos seduzidos pelos superlativos do horror, confrontamos o que sabemos sobre o holocausto com a narrativa inocente do jovem que apresenta tudo como novidade. Quando, por fim, se vê em meio a uma multidão de prisioneiros torturados, quando o corpo parece não dar mais conta, sua escrita escapa através das ironias e das descrições líricas de pequenas felicidades acolhidas no caos. Não há grandes explicações, teorias ou lições. Nada além da absoluta perplexidade.

    Sem Destino compõe, junto com Kadish e O fiasco, a trilogia em torno do holocausto. Estes romances não aspiram apaziguar o autor com o passado, mas sim expor impiedosamente cortes que não cicatrizam, feridas cujo sangue não estanca, autorizando a linguagem da dor a tratar daquilo que a razão isoladamente não dá conta. O Nobel, conquistado em 2002, foi justificado por sua “escrita que sustenta a experiência frágil do indivíduo contra a arbitrariedade bárbara da história”. Nada mais justo. HHH (Bruno Garcia)

     

    1536 páginas Disponível em: http://bit.ly/19X82h5A História de Roma – 5 vols. - Theodor Mommsen

    Diante das recentes manifestações no Brasil contra a precária estrutura social e algumas ações políticas vigentes, a definição sobre a fragilidade do Estado feita pelo historiador alemão do século XIX e ganhador do Nobel de literatura em 1902, Theodor Mommsen, poderia ser bem aplicada. Ele afirma que esse tipo de movimento só pode ser bem sucedido se seus governantes e governados estiverem ligados por uma moralidade comum.

    Com uma linguagem acessível, o historiador alemão parece transformar fatos investigados sobre a Antiga Roma em uma história viva aos olhos do leitor, independente do tempo em que este se encontra, demonstrando a atualidade de seus escritos e o porquê de sua obra ter se tornado tão importante. É superlativa em todos os sentidos: foi produzida entre 1854 e 1856 em cinco volumes, dando conta desde a fundação de Roma até o governo de Caio Júlio Cesar, com inserções sobre política, cultura, sociedade e economia. O pesquisador – que vivenciou as unificações italiana e alemã – soube bem aliar as conjunturas de seu tempo a um período muito anterior, transpondo os fenômenos históricos e colocando em pauta o estudo da formação dos impérios antigos e contemporâneos.

    Com seu trabalho anterior – Corpus Inscriptionum Latinarum, um conjunto de epígrafes romanas transcritas e estudadas por ele – a coleção A História de Roma constitui uma referência imprescindível para o estudo da História e do Direito. O tamanho, que pode assustar os mais desavisados, é fruto de inegável erudição e rigor crítico. Em algumas versões, o leitor ainda é premiado com uma centena de imagens para ilustrar melhor a sua viagem ao antigo mundo romano. HHH (Angélica Barros)

     

    808 páginas, R$ 87,90 Nova Fronteira www.ediouro.com.brOs Buddenbrooks - Thomas Mann

    O alemão Thomas Mann cresceu entre as letras e o negócio. Era filho de mãe brasileira, chamada Julia, que era escritora e nasceu em Paraty – cidade que por outros motivos acabaria tendo seu destino ligado à literatura. Seu pai, também Thomas, foi um político e comerciante, membro de uma tradicional família burguesa de Lübeck, os Mann, que há séculos compunham um grupo que controlava política e economicamente o norte da atual Alemanha, as chamadas “famílias hanseáticas”.  Irmão mais jovem do também escritor Heinrich Mann, Thomas começou escrever Os Buddenbrooks quando tinha 22 anos, e o livro veio a público em 1901, quando completava 26.

    Ambientada em uma cidade comercial alemã não nomeada, a trama acompanha a decadência de uma rica família de comerciantes entre as décadas de 1830 e 1870. Mann oferece ao leitor um retrato minucioso do estabelecimento aparentemente definitivo de uma sociedade que desempenhava o papel de burguesia ao longo do século XIX. Dos modos anacrônicos dos velhos patriarcas, que ainda se comportavam com a pompa da afrancesada aristocracia do Antigo Regime, ao tipo de refinamento burguês citadino daqueles que nasceram no século, o autor expõe neste livro – citado explicitamente quando o Nobel lhe foi concedido em 1929 – uma profunda transformação nos hábitos, nos gostos e na própria sensibilidade europeia.

    Detalhista a ponto de descrever a ausência de curvatura entre o lábio inferior e o queixo de uma graciosa personagem feminina de cabelo ruivo, a narrativa envolvente do jovem Thomas Mann vai deixando claro o caráter ilusório da ideia de felicidade em meio àquilo em que se transformava o mundo cosmopolita. HHH (Rodrigo Elias).

     

    304 páginas, R$ 34 Editora José Olympio www.record.com.br Antologia poética de Pablo Neruda

    Em 1971, quando o chileno Pablo Neruda recebeu o prêmio Nobel de literatura, foi o latino-americanismo que falou mais alto. À época isso parecia significar aos olhos externos um encontro “claro e confuso, chuvoso e alegre, enérgico e outonal” – ambíguo, enfim, como o próprio poeta se descrevia. O “desprezo pela cultura como interpretação das coisas”, a “poesia impura com suas pregas, observações, negações, declarações de amor e de ódio” somavam-se à identificação romântica com aqueles que estão às margens, que trabalham com as mãos, com “o índio, o pobre, o pescador, e o filho do mineiro que não conhece o seu pai entre tantas queimaduras”.

    Neruda nasceu Ricardo Eliécer Neftaly Reyes Basoalto, mas, filho de operário ferroviário, mudou de nome para esconder seu ofício do pai. Viveu a guerra civil espanhola, a ascensão e a derrota nazista, os golpes na América Latina, e morreu 12 dias após o fim do “socialismo pacífico” de Salvador Allende. Entre os mitos produzidos a seu respeito estão o anti-intelectualismo como fraqueza de pensamento e o gosto pela melancolia, pelo “gasto sentimentalismo”.

    Alimentado pelo tempo decorrido, hoje o leitor poderá acompanhar o processo de construção e maturação mental do autor, recriando os sentidos de sua poesia. Do “ensimesmamento” do Neruda que simplesmente se “cansa de ser homem”, passando pela latinidade de quem sente os “arreios” a dominarem a alma, até o universal do amor que se reparte tanto em beijos quanto em “leito ou pão”: “Amor que pode ser eterno e pode ser fugaz./ Amor que quer se libertar para tornar a amar./ Amor divinizado que se aproxima”, e encurralado vai embora. HHH (Nashla Dahás)

     

    680 páginas, R$ Editora Expressão e Cultura Pavilhão de cancerosos - Alexandre Soljenítsin

    “Somente quando o trem estremeceu e começou a mover-se, ele sentiu um aperto onde há o coração, ou a alma, em suma, no ponto central de seu peito, uma nostalgia de tudo o que deixara para trás. Voltou-se, deitou com o rosto contra o sobretudo e fechou os olhos, apoiado na mochila cheia de pão”. O trecho do romance de Soljenítsin nos dá uma primeira sensação de sua arte e poesia, voltada para a captação do homem e seus sentimentos.

    Escrito entre 1963 e 1967 e publicado no Ocidente europeu no ano seguinte, o livro levou seu autor à conquista do Prêmio Nobel de Literatura de 1970, junto com o anterior (Um dia na vida de Ivan Denisovich, 1962) e com o sucessivo (O primeiro círculo, 1968). A história de Oleg Kostoglotov, internado num hospital em função de um câncer, após ter passado longos anos num campo de trabalhos forçados na União Soviética de Stalin, é inspirada na própria experiência de Soljenítsin, condenado ao gulag logo depois do fim da Segunda Guerra e libertado somente dez anos depois.

    O escritor, expulso de seu país em 1974, tendo se refugiado nos EUA, voltaria à Rússia na década de 1990. Seus livros, incluindo o mais célebre, Arquipélago Gulag, de 1973, têm como tema a vida dos prisioneiros políticos do comunismo soviético. Através da palavra escrita, que o coloca ombro a ombro com os grandes autores russos, Soljenítsin proporciona ao leitor uma viagem não somente através da terrível realidade do universo prisional de seu tempo e de seu país, mas também dos tormentos, das angústias e das esperanças do ser humano, ora miserável e mesquinho, ora misteriosamente capaz de grandeza e verdade. HHH (Marcello Scarrone)

     

    352 páginas, R$ 56 Companhia das Letras www.companhiadasletras.com.brHistória do cerco de Lisboa - José Saramago

    No ano de 1147, Lisboa é cercada pelos portugueses que, com a ajuda dos cruzados, retomam a cidade que havia sido conquistada pelos mouros. Este é o mote a partir do qual se desenvolve a narrativa de Saramago.

    Raimundo Silva é um revisor que, ao finalizar um trabalho sobre o cerco de Lisboa, foge às regras de sua função e insere uma palavra que modifica o sentido original do texto. As consequências deste ato o levam a conhecer Maria Sara, responsável pelos revisores, que sugere a criação de uma obra baseada na intromissão do revisor.

    A narrativa escrita por Raimundo passa a se dividir entre o não auxílio dos cruzados aos portugueses e o caso de amor entre Mougueime e Ouroana que, simultaneamente, reflete o que era vivido pelo revisor e Maria Sara. Neste romance, Saramago costura brilhantemente a relação entre história e ficção, alargando a concepção do que aconteceu para contar o evento que não foi escrito, ou que poderia ter acontecido. A história tal qual ela se apresenta no romance é vista não como um saber objetivo, mas como uma construção que pode ser plural e parcial a ponto de ser revista e revisitada como o fez Raimundo Silva.

    Autor de Ensaio sobre a cegueira, O evangelho segundo Jesus Cristo, entre outros títulos, Saramago também é conhecido pela originalidade com que usa ou abandona as regras da gramática, abolindo, por exemplo, uso dos travessões nas falas, levando o leitor a duvidar se um diálogo existiu ou se foi apenas um pensamento. Por sua vasta e magistral produção, Saramago recebeu o Prêmio Camões em 1995, em 1998, foi consagrado como o primeiro autor de língua portuguesa a receber o Prêmio Nobel de Literatura. HHH (Joice Santos)

     

     

     

     

     

     

     

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