O Profeta e o Principal

Assinada por John Monteiro, resenha que sai na edição de abril da RHBN, fala sobre o marco zero da história do Brasil. O retorno dos tupinambás

John M. Monteiro

  • O profeta e o principal: a ação política ameríndia e seus personagens Renato Sztutman  576 páginas, R$ 85. Edusp (www.edusp.com.br)O retorno aos tupinambás, seja como “marco zero” da história do Brasil, seja como contraponto para a pesquisa etnográfica entre sociedades indígenas de outras épocas, tem marcado vários momentos de inflexão no pensamento brasileiro. O livro recente de Renato Sztutman, professor de antropologia na USP, acrescenta com brilho e erudição mais um capítulo a essa tradição, dialogando em pé de igualdade com obras e autores de peso, como Florestan Fernandes, Manuela Carneiro da Cunha, Eduardo Viveiros de Castro e, de maneira muito especial, Pierre Clastres. Escrito com elegância e argúcia, O profeta e o principal não é, contudo, um livro para principiantes. Muitos dos debates etnológicos podem lhes escapar, porém todos os leitores serão amplamente recompensados pela riqueza das informações e desafiados pelas questões que o autor coloca.

    O livro trata de dois retornos: primeiro, aos antigos tupis da costa e, segundo, às obras de Pierre e Hélène Clastres, muito lidas pela geração anterior à do autor, que tematizam problemas da política e do profetismo entre os antigos povos de língua tupi-guarani à luz da moderna etnologia sul-americana. Remexendo nos ensaios reunidos nos livros A sociedade contra o Estado e Arqueologia da violência, de Pierre Clastres, e na Terra sem mal, de Hélène Clastres, Sztutman revisita as figuras que dão o título ao livro – o “principal” ou morubixaba, chefe de guerra, e o “profeta” ou caraíba, liderança que incentivava movimentos em busca de horizontes libertários.

    O autor mostra um caminho instigante tanto para os historiadores interessados em temas indígenas quanto para os antropólogos interessados na história dos povos ameríndios. A leitura que Sztutman faz das fontes passa por uma dupla divisão. São abordadas inicialmente através de “meditações clastrianas”, para depois serem exploradas a partir de questões que movimentam as pesquisas e os debates atuais na etnologia das terras baixas sul-americanas. Essa pauta de preocupações aparece com mais clareza nos capítulos 3, 4 e 5, numa releitura minuciosa de fontes muito conhecidas, releitura esta guiada por perspectivas pós-clastrianas na etnologia sul-americana.

    Deve-se frisar, todavia, que não é intenção do autor contribuir para debates sobre a história, sobretudo após confessar que usa “a história dos historiadores de maneira instrumental”. Com efeito, a ambição reside numa reflexão mais ampla, a exemplo do projeto dos Clastres, ao partir para a busca de uma etnologia comparada focada na “relação entre o domínio religioso – o xamanismo e suas transformações – o domínio político – as chefias e as unidades que a elas cumpre representar”. Trata-se, portanto, de um livro-cabeça, isto é, não obstante a quantidade impressionante de informação histórica e etnográfica que recheia o livro, o autor antes convida seu leitor a pensar a política através de uma nova apreciação da obra clastriana de reatualização dos antigos tupis com os aportes de recentes abordagens de história e etnologia indígena.

     

    John M. Monteiro, professor da Unicamp. 

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