O horror

Pesquisador seleciona livros importantes escritos a respeito do Holocausto

Rodrigo Elias

  • A indústria do Holocausto. Record, 2010. Autor: Norman Finkelstein“As coisas que vi são indescritíveis. (...) Os indícios visuais e o testemunho verbal de fome, crueldade e bestialidade foram tão fortes que me deixaram um pouco nauseado. Numa sala, onde 20 ou 30 homens nus, mortos por inanição, jaziam amontoados, George Patton não quis nem entrar. (...) Fiz a vista deliberadamente, para estar em condições de fornecer provas em ‘primeira mão’ dessas coisas se algum dia, no futuro, vierem a se desenvolver uma tendência a atribuir essas alegações a mera ‘propaganda’.” O relato é de Dwight Eisenhower, comandante das Forças Aliadas durante a Segunda Guerra, que escrevia sobre suas impressões do campo de concentração de Buchenwald, na Alemanha, liberado quatro dias antes.

    A história desse campo pode ser esmiuçada por um conjunto de testemunhos impressionantes, que constitui o Relatório Buchenwald (Record, 2008), produzido a partir de entrevistas feitas com seus prisioneiros em ato contínuo à sua liberação. O detalhamento do funcionamento, da separação dos prisioneiros, dos trabalhos desempenhados e das condições absolutamente degradantes dos confinados é uma aterradora fotografia da barbárie humana no século XX.

    Dos 20 mil prisioneiros encontrados vivos pelo Exército americano, 4 mil eram judeus. A história da perseguição e do massacre de judeus, aliás, está contada de forma extensa e aprofundada no livro de Martin Gilbert, O Holocausto (Hucitec, 2010). No volume de mais de mil páginas, o autor percorre a questão desde as suas raízes, traça um histórico do antissemitismo ocidental mostrando a arquitetura da máquina genocida e descrevendo as etapas do assassinato sistemático dos judeus sob o regime alemão. O livro mescla uma história com base nos “grandes fatos”, os acontecimentos marcantes desse processo sob um ponto de vista político e institucional. Mas sua força reside na quantidade e na riqueza dos relatos de testemunhas e sobreviventes daquele terror.

    Relatos tão ricos quanto o de Sholmo Venezia em Sonderkommando (Objetiva, 2010). Resultado de depoimento publicado originalmente apenas em 2007, a impressionante trajetória de Sholmo, judeu de origem italiana cuja família estava estabelecida na Grécia, é uma dolorosa passagem pelas entranhas da máquina de matar názi. O que se encontra é muito mais aterrorizante que qualquer coisa já vista nos cinemas ou em qualquer tipo de reelaboração do holocausto nazista.

    Além de perseguido e encarcerado com parte da família – outros familiares foram imediatamente mortos ao chegar –, o protagonista dessas memórias foi designado, dentro do campo, para integrar o sonderkommando:um grupo de prisioneiros cujo trabalho consistia em despir seus companheiros de martírio (suas roupas pertenciam ao Terceiro Reich, como os membros da SS gostavam de lembrar), colocá-los nas câmaras de gás, retirar de lá seus corpos e encaminhá-los à cremação. “Até então, eu me proibira de pensar em tudo o que estava acontecendo, devia fazer o que mandavam como um autômato, sem refletir. Mas vendo o corpo queimar, achei que os mortos talvez tivessem mais sorte que os vivos; não eram mais obrigados a passar por aquele inferno na terra, assistir à crueldade humana.”

    Um contraponto importante na bibliografia a respeito do tema é o livro do norte-americano Norman G. Finkelstein, A indústria do holocausto (Record, 6ª ed., 2010). Doutor em Política pela Universidade de Princeton, Finkelstein – que é de família judaica –, ele questiona certa exploração de determinados grupos do holocausto nazista, chamados por estes de “O Holocausto”, em uma tentativa de tornar a experiência dos judeus absoluta, incomparável, pior que tudo o que já aconteceu ou vai acontecer com qualquer outra parcela da população humana. O instigante estudo demonstra como o massacre de judeus – que dividiram espaço no inferno nazista com testemunhas de Jeová, homossexuais, “antissociais” e “vermelhos”, isto é, qualquer opositor do regime – passou a ganhar destaque no discurso sobre a Segunda Guerra quando o fato foi de interesse dos governos americano e israelense ao longo das décadas de 1960 e 1970. Prova de que a memória, mesmo a mais dolorosa, é também alvo de disputa. Talvez seja o caso de repetir Eisenhower e lembrar que o ocorrido não pode ser visto como “mera ‘propaganda’”

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