Inês e a Idade Média

A obra infantil Inês, de Roger Mello e Mariana Massarani, é um ótimo instrumento para familiarizar as crianças num passado tão distante como o período medieval

Carolina Ferro

  • Inês

    Roger Mello e Mariana Massarani

    56 páginas, R$ 37,90

    Companhia das Letrinhas

     

     

    “Inês é morta!”. A expressão, baseada na vida de Inês de Castro, significa que não dá para voltar atrás no que está feito e tem origem em uma história de amor e ódio que aconteceu em Portugal no século XIV. Ela é uma jovem galega que saiu de sua terra para ser dama de companhia da princesa D. Constança, esposa do príncipe D. Pedro. Pedro e Inês se apaixonam e, apesar da objeção das pessoas, vivem um intenso romance, que acaba de forma trágica: a mando de seu pai, D. Afonso IV, Inês é assassinada. Para se vingar, D. Pedro, ao virar rei, manda desenterrar Inês e coroá-la como rainha, obrigando as pessoas a beijarem a mão de seu cadáver. Beatriz, filha do casal, escreve a narrativa de forma leve e poética e aproxima o leitor de um período histórico tão remoto e pouco conhecido pelas crianças brasileiras. As ilustrações de roupas, penteados, animais de caça e barbas são fiéis à Baixa Idade Média. Após o belo poema, a história detalhada é contada pela professora Lilia Schwarcz, que lembra que uma Inês vive em cada um de nós.

     

    Atividade proposta:

    A idade Média é um período da história complicado para se ensinar aos menores de 11 anos do Brasil. Ela trata não só uma época muito distante, como se passa em um território, muitas vezes, desconhecido - a Europa. Sendo assim, o professor precisa ser bastante criativo para que as crianças se familiarizem com o tema sem caírem no anacronismo.

    A utilização do livro infantil é uma ótima opção. Inês, além de contar uma história da realeza portuguesa medieval, apresenta os costumes, o vestuário, os hábitos daquela época.

    Mariana Massarani / Inês

    Como proposta didática, o docente pode separar a classe em três grupos. O primeiro falaria sobre os objetos, o segundo falaria do vestuário e o terceiro dos hábitos.

    Caso sejam muito pequenos (pouco alfabetizados), eles não devem trabalhar sozinhos. O professor pode utilizar o quadro para listar os itens de cada um dos grupos e mediar a visão dos pequenos. Após a mediação, casa grupo pode desenhar sua própria versão de cada item. Assim, o professor acompanha a compreensão da época retratada pelos seus alunos.

    Caso sejam um pouco maiores (após o terceiro ano do primeiro seguimento), o professor pode apenas acompanhar a discussão de cada grupo que deve colocar em uma cartolina os itens que eles visualizaram de cada tema. Decorar a mesma com desenhos representativos do tema também é uma boa opção.

    Sobre os objetos medievais que podemos ver no livro, temos a flecha, a carruagem, os baús que carregam roupas e pertences, os escudos, as coroas, o trono, as cartas, o bordado, as taças, as jarras, a espada, a lança, o cesto de vime, etc. São objetos que mostram o caráter guerreiro daquela sociedade (espada, lança, flecha), o transporte (carruagem), o sistema de governo (trono, coroa), a riqueza da nobreza (taças, jarras), o artesanato (bordado, cesta de vime), etc. O professor pode conversar com os alunos sobre o sistema de governo da monarquia, sobre uma época em que não havia indústria nem variedade de transportes, sobre a forma de comunicação da época (através de cartas) e sobre o papel da mulher no período.Mariana Massarani / Inês

    Sobre o vestuário, temos os chapéus pontudos, as tranças, as roupas de uma só cor dos religiosos dos mosteiros, os longos cabelos e barbas, as joias, as botas, as capas, as armaduras, o cetro do bispo, os sapatos pontudos, as luvas, os casacos, etc. O professor deve aprontar a distinção entre o vestuário da Idade Média e de nossos dias, assim como distinguir a temperatura da Europa do clima tropical, predominante no Brasil. Daí a necessidade da utilização de longos casacos, luvas e capas. A moda dos cabelos e barbas longas dos homens e dos penteados diferenciados das mulheres, a diferença entre o vestuário mais simples das ordens religiosas se comparado com os bispos e religiosos mais importantes e uma roupagem própria para os cavaleiros que deveriam se proteger de um possível ataque.

    Já entre os hábitos, destacam-se a caça, a viagem de carruagem ou carroça, o ato de cavalgar, a cerimônia fúnebre, a troca de cartas, o ato de bordar, o ato de curvar-se perante o rei, as brincadeiras de crianças com objetos de madeira, a plantação, a criação de galinhas, o beija-mão da rainha. O professor deve mencionar as cerimônias realizadas pelos súditos quando há uma monarquia, a economia medieval que era basicamente agrária, a importância do cavalo como meio de transporte, a caça como uma das principais atividades do homem nobre medieval.

    Mariana Massarani / Inês

    É interessante que os professores façam a ponte entre o que ocorria na Idade Média e o que ocorre nos dias de hoje. Assim, as crianças compreendem melhor que a história é um processo e que as coisas funcionam de forma diferente no tempo e no espaço. Como hoje há uma gama de histórias de princesas disponíveis para os pequenos, a comparação será inevitável. Cabe ao professor a informação de que esta é uma história verossímil, ainda que romantizada, e que há vários elementos interessantes para conhecermos um pouco mais do período medieval português.

     

    Carolina Ferro é coordenadora de pesquisa da Revista de História da Biblioteca Nacional e autora da tese “As livrarias régias de D. Duarte e de D. Manuel I - Um estudo comparativo: construções de coleções e práticas de leitura em Portugal entre 1433 e 1521” (UFF, 2015).

     

    Saiba Mais

    Muitos Desenhos, blog da Mariana Massarani

    Capa dura em cingapura

     

Compartilhe

Comentários (0)