Costumes confusos

Chinua Achebe morreu sem receber o Nobel. Com ‘O mundo se despedaça’, inaugurou a literatura moderna africana ao narrar a convivência entre negros e brancos na Nigéria dos anos 1950

Joice Santos

  • “Virando e tornando em um giro a se alargar
    O falcão sequer ouve o falcoeiro
    As coisas se despedaçam; o centro já não as pode sustentar
    Mera anarquia a se desatar no mundo inteiro”

    (William Yeats,The second coming)


    Estes versos de 1919 são do poeta irlandês William Yeats que descreve alegoricamente a sensação de impotência e angústia na Europa, ao final da primeira grande guerra. Estes versos também inspiraram a publicação do que é considerado o romance fundador da literatura moderna africana Things fall apart (O mundo se despedaça) do nigeriano Chinua Achebe.

    Escrito em 1958, quando o autor tinha 28 anos e dois anos antes da independência da Nigéria, O mundo se despedaça vendeu mais de 10 milhões de cópias e foi traduzido para mais de 50 línguas. O livro conta a história do guerreiro ibo Okonkwo, que vivia numa das nove aldeias de Umuófia e que buscava se distanciar da vida imprevidente e sem honras vividas por seu pai, o tocador de flauta Unoka. Cuidava da sua roça para que tivesse fartura e assim construir seu obi (casa onde viviam os homens) e a casa de suas três mulheres. Também não esquecia de zelar pelos costumes e render sacrifícios às divindades, pois delas dependiam a dinâmica do mundo.

    Outros injustiçados

    Louis-Ferdinand Céline

    Julio Cortázar

    Graham Greene

    Jorge Luis Borges

    Dinâmica que, naquela época, não era mais a mesma em todas as aldeias, e percebida pelo personagem principal como “costumes confusos” que podiam ser observados, por exemplo, no que dizia respeito ao pagamento da noiva. O preço desta não era decidido com varetas, como seria a tradição, e sim através de negociação, como se fazia quando compravam uma vaca ou uma cabra no mercado. Nas palavras de Okonkwo “o mundo é grande”. E, neste mundo, não havia somente subversão dos costumes. Havia também a estória de homens brancos, tão brancos quanto um pedaço de giz; o mesmo giz que grandes do clã tinham em seu obi para oferecer aos convidados quando estes o visitavam. E, além disso, não tinham os dedos dos pés.

    São esses homens, brancos como gizes, que saem das histórias contadas para fazer parte do cotidiano das aldeias. Os missionários britânicos se instalam nas aldeias com a autorização dos chefes do clã e a igreja ganha seus adeptos entre aqueles que foram renegados ou não possuíam posição de destaque naquela sociedade. É partir da chegada desses que tudo parece ruir: “O homem branco é muito esperto. Chegou calma e pacificamente com sua religião. Nós achamos graça nas bobagens deles e permitimos que ficasse com nossa terra. Agora ele conquistou até nossos irmãos, e o nosso clã já não pode atuar como tal. Ele cortou com uma faca o que nos mantinha unidos, e nós nos despedaçamos".

    A história que nos conta Achebe é da dissolução dos costumes com chegada dos colonizadores britânicos em uma das aldeias ibo na atual Nigéria, mas é antes de tudo uma história que não se coaduna com a vitimização africana decorrente do processo de colonização – isso pode ser percebido pela narrativa contada a partir da perspectiva do africano e por indicar que a colonização, por mais que tenha se ancorado na força, também teve a anuência de muitos africanos por verem naquela nova forma de governo uma possibilidade de transcender a realidade social que viviam.

    É uma obra, além disso, que não subscreve a forma que os africanos eram vistos fora do continente. Escreveu, neste sentido, em 1977, An Image of Africa: Racism in Conrad's 'Heart of Darkness, no qual critica a obra de Conrad por criar uma imagem da África como uma antítese da civilização europeia, como “um outro mundo” e, assim, traz à baila a discussão sobre o impacto das relações de poder no imaginário literário do século XX. Em entrevista à Paris Review, Achebe declarou: “se você não gosta da história de alguém, escreva a sua própria”. Foi exatamente isso que o nigeriano buscou fazer no livro, ressaltando elementos da cultura ibo. E também em sua longa trajetória como romancista, ensaísta e crítico literário se debruçando sobre o papel da cultura no continente africano, além do significado social e político do período pós-colonial.

     

    Trajetória

    Chinua Achebe nasceu na cidade de Ogim, na Nigéria, em 1930. Foi diplomata da República de Biafra durante os conflitos na Nigéria no final da década de 1960, fundou a Heinemann African Writers Series, editando mais de 100 títulos de autores africanos. Nas últimas décadas, foi professor na Brown University, em Rhode Island, e no Bard College, em Nova Iorque. Alguns de seus títulos foram publicados no Brasil: A flecha de Deus (2011), A educação de uma criança sob o protetorado britânico (2012), A paz dura pouco (2013) e As garras do leopardo (2013).O mundo se despedaça foi considerado pela revista Times um dos 100 melhores títulos de língua inglesa entre 1923 e 2005. O autor recebeu prêmios como o Man Booker International, em 2007, oferecido aos escritores de língua inglesa e em 2002 recebeu o Prêmio da Paz oferecido pela Feira de Frankfurt.

    Em março deste ano, Achebe faleceu sem receber o maior prêmio dado pela Academia Sueca de Literatura, sorte inversa à do seu conterrâneo Wole Soyinka em 1986. Se a instituição sueca tem como pressuposto premiar uma obra que tenha uma mensagem universal de conhecimento do homem e de sua condição, perdeu a oportunidade de laurear aquele que nos mostrou que é possível criar/inventar/construir a partir do que outrora fora despedaçado.

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