Biografando o Führer

Seleção de livros interessantes a respeito da vida de Adolf Hitler

Marcello Scarrone

  • Hitler, vol. 1 - Nova Fronteira, 2012. Autor: Joachim FestÀs vezes a vida de uma pessoa é também questão de sorte. De certa forma, isso aconteceu com o líder nazista, quando, 20 anos antes de ele vir ao mundo, seu pai passou a se chamar Hitler, abandonando o difícil sobrenome materno que carregava desde o nascimento, Schicklgruber, para adotar o do padrasto. Mais curto, mais direto. Afinal, como comenta Ian Kershaw no início de sua biografia de Hitler, “Heil Schicklgruber!” teria sido bastante improvável como saudação a um herói nacional.

    Sorte, sem dúvida, o jovem Adolf teve muita, a ponto de projetá-lo no cenário nacional alemão da forma que todos conhecemos. Não somente sorte, mas um conjunto de fatores, em parte ligados à sua personalidade, em parte às forças sociais e estruturas políticas que permitiram sua tomada do poder e sua manutenção e dilatação extraordinária. Disso tudo trata a excelente biografia de Kershaw (Hitler,Cia. das Letras, 2010), publicada em português há pouco tempo. Trata-se fundamentalmente, como explica o autor, de uma história do poder de Hitler, pois nisso a trajetória do ditador nazista se resumia: não havia esfera privada, e sim somente vida política, a do Führer. Uma autoridade, a sua, que o historiador britânico, usando uma definição de Max Weber, chama de “carismática”, sabendo que o termo implica inevitavelmente olhar para a sociedade alemã, e a projeção dela em seu líder. nevitavelmente o implica olhar para a sociedade alema de projetaia de Hitler,  mudou o sobrenome dele, de Schicklgruber para Hi

    Linguagem ágil, análise bem documentada, riqueza de fontes, ótimo conjunto iconográfico: o volume é quase uma obra definitiva sobre o ditador. Mas ele não pode deixar de dialogar com a também monumental biografia produzida por Joachim Fest, a primeira realizada por um alemão, ainda nos anos 1970 (Hitler,Nova Fronteira, 2012).

    Uma espécie de acerto de contas da Alemanha com seu passado, que abriu uma temporada de reflexões e aprofundamentos acerca do período nazista. O subtítulo original da obra, Um estudo sobre o medo, talvez revele uma de suas chaves interpretativas, isto é, o questionamento de como foi possível que aquela sociedade culta e avançada se deixasse subjugar por um homem como Hitler, de personalidade “pálida e inexpressiva” e qualidades “normais”: a resposta estaria na categoria de “caráter social”, combinação de “todas as angústias, os sentimentos de contestação e as esperanças de seu tempo” no líder nazista. Para tanto, comenta Fest, Hitler pode ser definido como um “grande da história”, nisso criticado por Kershaw, que, ao contrário, se recusa a lançar mão do conceito de grandeza na avaliação da figura do líder nazista e de seu significado político, por personalizar demais as explicações históricas e conter em si o germe da apologia.

    No final da década de 1960, ao sair da prisão à qual fora condenado pelo Tribunal de Nuremberg, Albert Speer, o “arquiteto de Hitler”, publica suas memórias, escritas no cárcere. Ele narra os anos de sua colaboração com o Führer em projetos urbanísticos e cargos de governo, oferecendo, ainda, um retrato do ditador visto de perto. Edita

    do no Brasil em dois volumes (Por Dentro do Terceiro Reich. Os Anos de Glória / A Derrocada, Artenova, 1971), o livro apresenta eventos e protagonistas sob o olhar de um homem arrependido e derrotado. O reconhecimento de sua admiração nos anos juvenis por Hitler se mistura às declarações da responsabilidade do ditador por levar o país à catástrofe. O líderé descrito às vezes com ironia (“Uma de suas características era o diletantismo. Jamais aprendera uma profissão e, afinal de contas, era um intruso em todas”), às vezes com ternura, como na hora da despedida no bunker, em Berlim (“estava pela última vez diante do homem ao qual, 12 anos antes, tinha consagrado minha vida e que agora não passava de um velho trêmulo”).

    Leitura interessante é também o relato dos dois anos e meio passados ao lado de Hitler como secretária, redigido por Traudl Junge ainda em 1947, mas publicado somente dez anos atrás. Tentativa de reconciliação com ela mesma, como diz a autora, o livro (Até o Fim. Os últimos dias de Hitler contados por sua secretária, Ediouro, 2005), que serviu de base para o filme “A Queda”(2004), mostra a facilidade com que muitos se renderam ao fascínio do chanceler alemão. Drama íntimo, selado pela epígrafe: “Não podemos corrigir nossa biografia posteriormente; temos de conviver com ela. Podemos, contudo, corrigir nós mesmos.”

    Algo, porém, que o “chefe” de Traudl não chegou a fazer.

     

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