A possibilidade da esperança

Autor de best-sellers adaptados para o cinema, o inglês Graham Greene, preterido por seu catolicismo, também entra na lista dos escritores extraordinários que não levaram o Nobel

Marcello Scarrone

  • “Parou fora da hospedaria. Aquelas luzes, dentro do prédio, poderiam oferecer uma extraordinária impressão de tranqüilidade para quem não soubesse o que havia dentro dele; como as estrelas, naquela noite límpida e clara, sugeriam uma sensação de desapego, de segurança, de liberdade. ‘Se conhecêssemos as coisas até seu ponto mais profundo’ perguntou-se, ‘deveríamos sentir piedade também para as estrelas? Se alcançássemos o que é chamado o cerne da questão”.

    A escrita de Graham Greene (1904-1991), da qual se apresenta aqui um pequeno exemplo, conduz o leitor por caminhos fascinantes e inesperados. O trecho acima, retirado de uma de suas obras-primas, O cerne da questão (1948) - ou O coração da matéria, numa outra tradução - penetra pensamentos e emoções do protagonista, o major de policia Scobie, em sua permanência numa colônia inglesa da África ocidental: seus princípios, suas dúvidas, seus conflitos. No contexto de uma paisagem e de uma condição social e cultural onde esconder-se resulta quase impossível.

    Isso é Greene: inventor de tramas, de enredos, carregados de suspense, mas sempre ao serviço de uma história que vale a pena ser contada. A produção do romancista britânico se divide entre os romances “sérios” e os entertainments (diversões) como ele mesmo define suas obras mais breves e mais carregadas de humor e suspense. Dos primeiros fazem parte, para citar só os mais significativos, O poder e a glória (1940), com a parábola humana do padre beberrão em plena revolução mexicana, “Fim de caso” (1951) com suas idas e voltas temporais na Londres bombardeada da segunda guerra mundial, O americano tranqüilo (1955) na Indochina dos anos 50, e O fator humano (1978), sobre o trabalho dos serviços de inteligência em plena Guerra Fria. Entre os entretainments, destaque para Trem de Istambul (1932), O terceiro homem (1950) e O nosso homem em Havana (1958).

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    Como se vê, a ambientação é das mais variadas: África, Indochina, América Latina, Cuba, além da inevitável Inglaterra, pátria de Greene. Mas as origens britânicas se misturam de forma surpreendente com as locações no estrangeiro: o próprio autor passou temporadas nos países acima, como enviado especial ou correspondente de periódicos, além de um período na Serra Leoa como agente do serviço de contra-espionagem de Sua Majestade. Guerras de libertação nacionais, apartheid, ditaduras latino-americanas, guerra mundial e pós guerra: situações pelas quais o autor nos conduz como quem as viu de perto. Não lugares exóticos, e sim condições onde o homem se encontra em situações extremas, tendo perdido suas seguranças e zonas de conforto. Ali, o que o homem é, com suas misérias e grandezas, seus dramas e tentações, aparece com mais visibilidade: e nisto está também a genialidade de Greene, que nos restitui personagens com os quais podemos nos identificar, humanos, ordinários, frágeis, até ambíguos. E sempre, ou muito freqüentemente, atormentados por uma culpa, e objeto de uma possível redenção. A natureza humana, com seus aspectos negativos e suas fraquezas, salta aos olhos nestes romances, assim como a possibilidade de um perdão e de um resgate: a promessa de Sarah em “Fim de caso”, o destino de Scobie em “O cerne da questão”, a atitude do protagonista em “O poder e a gloria”. A fé católica de Greene, que ele abraçou por volta de seus vinte anos, o acompanha em suas recriações literárias, nunca, porém, transformando-o num escritor piegas ou fundamentalista. “O papel do escritor” comentava Greene numa entrevista nos últimos anos de sua vida, “é o de suscitar no leitor simpatia para aqueles seres que oficialmente não tem direito à simpatia”. 

    Premio Nobel para Greene? O romancista inglês chegou a ser candidato algumas vezes, como em 1961 ou em 1974: se na primeira ocasião o reconhecimento da Academia sueca lhe preferiu Ivo Andríc, na segunda a injustiça foi mais clamorosa, pois resultaram vencedores simultaneamente dois quase desconhecidos autores suecos, Eyvind Johnson e Harry Martinson, ambos, inclusive, membros da própria Academia que concedia o premio. Quase inacreditável.

    Preterido por seu catolicismo, ou talvez por ser um autor que alcançou a popularidade, com seus romances e entertainments publicados com sucesso de vendas, a ponto de muito deles terem encontrado com facilidade uma adaptação cinematográfica? Pode ser. Reconhecimento oficial, de todo modo, talvez fosse até o que menos interessava a Greene. Simpatia do leitor, sim. Exatamente como os personagens de seus livros.

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