A metamorfose do escritor

Mesmo tendo sido considerado um dos maiores escritores do século XX, Franz Kafka não ganhou o Nobel de Literatura

Carolina Ferro

  • Franz Kafka por Jan HladíkLembro-me como se fosse hoje da primeira vez em que ouvi falar de Franz Kafka. A professora de literatura do Colégio Pedro II (onde eu fazia o segundo ano do ensino médio) falava de uma obra na qual o homem responsável pelo sustento e pela dinâmica de sua família transformava-se num inseto e aquilo mudaria radicalmente seu destino e daqueles que o cercavam. Em especial a relação com seu pai, de certa humilhação e pequenez frente à sua autoridade era o tema central. Procurei A metamorfose e a devorei rapidamente (à noite, como era meu costume e continua sendo). A obra marcou minha vida e a leitura sucessiva de seus contos e romances foi inevitável. Um dos atributos de uma boa literatura, a meu ver, é sua capacidade de mudar a visão de mundo do leitor, provocá-lo a ponto de questionar suas próprias certezas. Um autor que é capaz de fazer isso, realmente merece o Nobel. Kafka fez (e faz através de suas obras) muito mais. Mas, apesar disso, não foi reconhecido pela Academia Sueca de Literatura.

    Nascido em Praga (capital da atual República Tcheca), em 1883, no já decadente Império Austro-Húngaro, Franz Kafka foi um homem que se angustiava com a vida e isso transpareceu em todos os seus textos. Viveu onde nasceu, revezando sua jornada entre o trabalho como advogado (primeiro numa companhia de seguros privada e depois numa estatal) durante o dia e anotações de frases, narrativas e pequenos trechos em um caderno durante a noite. Apenas no final de sua vida, quando a tuberculose que o acometera desde 1917 se agravou, é que ele se mudou para Berlim. Em 1924, se internou em sanatório perto de Viena, onde morreria em junho, antes de completar 41 anos.

    Outros injustiçados

    Louis-Ferdinand Céline

    Julio Cortázar

    Graham Greene

    Jorge Luis Borges

    As obras de Kafka falam muito sobre ele, mas também sobre os indivíduos que vivenciaram o final do século XIX e início do XX sob a marca da ideia de “modernismo”, com inovações tecnológicas e científicas, com a mudança de paradigma sobre o tempo e com a discussão do papel dos membros da família na psiquè das pessoas. A burocracia extenuante, a busca pela liberdade impossível de alcançar, o papel dos pais (no caso de Kafka, principalmente da figura paterna) foram temas frequentes.  Suas obras, especialmente O Processo, marcaram gerações ao ponto do nome do autor se tornar corrente na linguagem de inúmeros países, ainda que quem o pronuncie não tenha jamais lido uma linha de seus escritos. A “Situação Kafkiana” é aquela em que todos atropelam e são atropelados uns pelos outros ou pela máquina burocrática sob um fundo de desespero e perdição.

    Para o psicanalista Enrique Mandelbaum, a obra de Kafka transborda os textos, se transformando em parte do cenário das vidas humanas, ressoando em todas as dimensões das situações dos homens. Pode-se dizer que o autor foi fundo nas “feridas”, muitas delas vivenciadas em sua própria carne. Disto, vieram interpretações de inúmeros críticos que diziam que o autor transformou expressões metafóricas de uso comum em narrativas fantásticas e literais. Como exemplos temos “sentir-se uma barata” de A metamorfose ou “sentir na pele” e “encarnar algo” de Na colônia penal. No caso da última, a violência se inscreve como letra no corpo humano e faz de cada um, uma vítima e um sujeito capaz de suscitá-la, segundo o analista.

    A obra de Kafka está em domínio público. Leia aqui.

    Uma das questões que lhe tocava a própria pele era a da família. Primogênito de Hermann Kafka (um comerciante judeu) e Julie, ele era muito diferente de seus irmãos. Viveu para escrever, já que, segundo disse: “tudo o que não é literatura me aborrece”, mas morreu sem a aprovação do pai. Hermann Kafka nunca conseguiu enxergar o filho como um escritor promissor. Na verdade, ele o desencorajava, esmagando-o em sua autoridade, provocando no escritor sentimentos que tentou incorporar ao texto, mas que ganharam força e se tornaram explícitos em Cartas ao pai.

    Ainda sobre a família, Kafka não conseguiu constituir sua própria. Foi noivo da mesma pessoa (Felice Bauer) por duas vezes, mas não chegou a se casar nem com ela, nem com outras mulheres que passaram pela vida, como Milena Jesenskó, Julie Wohryzek e Dora Diamant. Chamou suas obras de “filhos” devido à impossibilidade emocional de constituir uma família real. Mas ao trazer para a literatura, questões tão explicitas do autor, Modesto Carrone, o principal tradutor de suas obras para o português, chama atenção para o cuidado com uma interpretação realista da obra de Kafka. É como se o real de transfigurasse no irreal, tornando seus livros muito mais atrativos e singulares.

    Jorge Luis Borges, um dos tradutores de Kafka para o castelhano, se encantava com essas formas irreais e fantásticas. O que ele mais apreciava no autor da Boêmia era precisamente a atmosfera tensa de pesadelo em muitas de suas narrativas. As obras de Kafka são cobertas por castigos enigmáticos e culpas indecifráveis, tudo isso sob uma profunda trivialidade do protagonista.

    Primeira página de 'Cartas ao pai'Sobre o tempo, tão caro aos historiadores, Gunther Anders traz uma importante reflexão. Para o crítico “Todas as situações dos romances de Kafka são, de fato, paralisadas. Na verdade, o ponteiro de segundos do desespero corre incessante e em alta velocidade no seu relógio, mas o dos minutos está quebrado e o das horas parado”. A eterna busca pelo que não se sabe ao certo traz uma angústia interminável que transparece e salta ao texto chegando ao leitor. O tempo em Kafka variava conforme o foco do protagonista. Era lento quando se buscava algo e rápido quando tratava de aumentar o desespero. A relatividade tomaria o lugar da linearidade.

    Além de textos mais longos como A metamorfose, O processo, O castelo, A colônia penal, Cartas ao pai, etc., seus textos mais curtos, como no caso de sua última coletânea revisada em vida - Um artista da fome - foram objeto de intensos questionamentos do “Eu”, das escolhas feitas num mundo novo de inúmeras possibilidades. Mas esse mundo não pertence ao “Eu” e esta constatação trazia a angústia do esforço por ser aceito. Kafka não deu respostas.

    Mandelbaum salienta que Kafka é herdeiro de uma tradição que leva os homens a desconfiarem de si próprios. Isto faria com que ele pedisse ao amigo Max Brod que queimasse os seus escritos após sua morte. Ele mesmo não teve coragem de fazê-lo em vida, um dos motivos, a meu ver, pelo qual Brod se nega a cumprir o pedido do amigo, fazendo justamente o contrário. Reuniu as obras inacabadas, publicando-as e ajudando que seus escritos se perpetuassem.

    O autor produziu muito, mas publicou pouco em vida. Daí o motivo principal de não ter ganhando o prêmio Nobel, já que uma das condições primárias era a de estar vivo para recebê-lo. Na realidade, ele não foi considerado um excelente escritor nem quando era vivo nem imediatamente após sua morte, mas o fato de existir mais de 20 mil títulos sobre sua obra, além de outras reflexões anônimas (ou não) o faz um dos mais lidos e comentados da história. Hoje, ele é considerado um dos maiores autores do século XX e aposto que poderemos estendê-lo ao XXI.

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