Um pedaço do Brasil em Coimbra, sob nova direção

Após assumir a direção do arquivo da Universidade de Coimbra, professor José Pedro Paiva anuncia em primeira mão projeto de bolsa para estudantes brasileiros

Luciano Figueiredo

  • Professor José Pedro Paiva, em Tiradentes / Foto: Luciano FigueiredoO professor português José Pedro Paiva tem um pedaço do Brasil sob a sua responsabilidade. Ele foi convidado em 2011 para assumir o arquivo da Universidade de Coimbra, um ícone quando o assunto é a relação entre Brasil e Portugal.

    O arquivo abriga valioso acervo sobre o Brasil, do século XVII ao XIX. Está em suas prateleiras a Coleção Conde dos Arcos, com documentação referente a Bahia, Pernambuco, Maranhão, Pará e Goiás; há ainda Coleção Condes da Cunha, com documentos para o estudo da História Política e Diplomática referentes tanto ao Brasil, quanto a Angola. Na Universidade, estão as fichas de estudantes, assim como material sobre a formação da elite que participou da independência brasileira e ali aprendeu princípios de leis, cânones e ciências.

    A entrevista a seguir foi realizada pelo editor da Revista de História da Biblioteca Nacional , Luciano Figueiredo, em Tiradentes, quando ambos participavam de um simpósio promovido pelas UFSJ, UFMG e Uerj e falou sobre sua nova função, algumas propostas suas e sobre a importância da Universidade para os brasileiros. Porque, como ele mesmo diz, Coimbra marcou “a identidade e a mentalidade brasileiras”.

    Revista de História da Biblioteca Nacional - Qual é essa sua nova função, agora no arquivo, da Universidade de Coimbra? Que novidades para os brasileiros que lá vão pesquisar?

    José Pedro Paiva - Nesse ano de 2011, foi eleita uma nova equipe reitoral para a Universidade de Coimbra. O novo reitor é João Gabriel Silva, uma pessoa que acredito que vai ter um papel muito importante sobretudo no impacto internacional da Universidade de Coimbra. Ele desafiou-me para fazer parte da sua equipe enquanto diretor do arquivo da Universidade de Coimbra, uma instituição a qual eu tenho laços afetivos muito fortes. Foi aí que eu comecei a fazer os meus primeiros estudos sobre visitas pastorais, sobre organização da administração eclesiástica. Tomei esse convite como um desafio.

    Um dos meus intentos é criar uma espécie de uma bolsa especial para estudantes brasileiros dispostos a fazer estudos de pós-graduação, sobretudo doutoramentos, e que querem se deslocar para Coimbra, onde possam permanecer no arquivo durante um período, cerca de meio ano - isso ainda não está absolutamente definido - com o apoio do arquivo, com boas condições, de modo que se possa estudar a documentação que esteja no arquivo e que procure estimular esses intercâmbios com o Brasil, e que tenha relação com a história do Brasil. E há muitas vias para fazer: basta pensar em todo o material ligado com a história da Universidade de Coimbra, que está, aliás, em exposição e que é muito rico e que portanto possa originar estudos particularmente interessantes também aqui para o Brasil.

    RHBN - Você podia falar da ligação da Universidade de Coimbra com o Brasil?

    JPP - Houve um conjunto muito amplo, naturais do Brasil ou de portugueses que vieram para o Brasil e que estudaram na Universidade de Coimbra. E portanto para quem quiser conhecer carreiras de algumas pessoas que tiveram um protagonismo grande aqui, na História do Brasil, na vida do Brasil, enquanto membros do clero, membros das ordens religiosas, membros da administração local, governadores, o conjunto é muito amplo. Tem aí um patrimônio absolutamente incontornável para poder perceber melhor um pouco do que foi o Brasil colônia. Aliás, isso deixou marcas muito importantes na própria, se quisermos, identidade e mentalidade brasileiras.

    Eu me recordo de uma conversa com o último chofer de táxi que me transportou, que me perguntou de onde eu era e eu disse que era de Coimbra, e ele disse logo: "Ah, Universidade de Coimbra". Ele sabia isso. Há ainda uma ideia de que a Universidade de Coimbra foi muito importante para a formação de algumas elites brasileiras, que estiveram na origem da própria independência do Brasil. Muitos deles estudaram lá. E, nesse sentido, existe ali muito material útil para perceber o que foi essa gente.

    RHBN – Como foi a criação da Universidade de Coimbra?

    JPP - A Universidade de Coimbra foi transferida definitivamente para Coimbra em 1537, no reinado de Dom João III; a fundação da universidade é de finais do século XIII, do reinado de Dom Diniz. Nesses tempos iniciais, ela oscilou muito entre Coimbra e Lisboa, depois estabeleceu-se durante algum tempo em Lisboa. Desde 1537 até hoje houve sempre uma universidade em Coimbra. A partir de finais do século XVI e ao longo do século XVII, a Universidade estagnou um pouco. Eu não compartilho da leitura que foi por causa da Inquisição, da censura, do ensino jesuítico. Os jesuítas nunca foram pessoas da universidade. É uma ideia que vai começar a se difundir, sobretudo por Pombal, quando vai fazer, em 1772, a forma pombalina da universidade.

    É no tempo do Marquês de Pombal, que vai se criar pela primeira vez na universidade a faculdade de ciências. Anteriormente em Coimbra havia apenas uma faculdade de cânones, uma faculdade de leis, onde se estudava Direito, de grosso modo; uma faculdade de Teologia; depois começou a se aprender a Medicina. O Marquês vai abrir uma faculdade de Ciências muito atento àquilo que eram os grandes desenvolvimentos do saber científico que na altura se davam, mas que teve muito poucos alunos. Desse ponto de vista, a forma pombalina foi um insucesso. Mas trouxe outras coisas muito importantes como a abertura a um saber experimental.

    Universidade de Coimbra / Reprodução Uma boa parte das elites portuguesas do século XIX ligadas ao liberalismo, ao romantismo, a chamada Geração de 70, um conjunto muito famoso de estudantes que cursaram a Universidade de Coimbra. Um dos expoentes é o Eça de Queiroz, nome incontornável da literatura portuguesa, e que mantém um prestígio muito grande da universidade até a República. A partir de 1911 o governo republicano decide, pela primeira vez, que fez muito bem, evidentemente, de abrir universidades em outros locais, primeiramente em Lisboa e no Porto. A partir daí Coimbra perdeu, do ponto de vista da hegemonia que tinha no campo cultural, no campo político, por via da formação das elites que ali se faziam, perdeu uma hegemonia que teve durante muito tempo em Portugal.
     
    RHBN - O que você teria a dizer para os pesquisadores brasileiros que pretendem ou que planejam ir pesquisar no arquivo de Coimbra hoje?

    JPP - A primeira intervenção que eu fiz para todos os funcionários é dar prioridade máxima ao bom tratamento do leitor. Uma das coisas que eu disse é que, quando nós recebemos um leitor, temos que tratar como gostaríamos de ser tratados, como qualquer pessoa que recebemos em nossa casa e é nosso amigo.

    E eu sei bem as dificuldades que isso traz às vezes para os historiadores porque enquanto historiador sinto muitas vezes as dificuldades do que é trabalhar em arquivos onde a documentação está mal tratada, está incorretamente inventariada e os problemas todos que isso traz. E portanto eu posso dizer que eu vou me inclinar para resolver todos esses problemas e disponibilizar as melhores condições possíveis para todos os putativos pesquisadores do arquivo - e eu não estou a dizer nenhum palavrão.

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